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sábado, 29 de dezembro de 2012

Promessas




          Quantas promessas de fim de ano não já foram feitas e esquecidas em um canto qualquer da memória? Quantos desejos irresolutos, incendiados pelos fogos de artifício do reveillon e arrefecidos pelo calendário! Saúde, paz, felicidade, tudo isso é fundamental, embora abstrato demais, quando não se tomam atitudes concretas para tanto. Agora, tenho muitos planos e pretendo realizá-los. Espero continuar fazendo o que faço, pois é o que escolhi e, por isso mesmo, nutro imensa paixão por tudo que meu ofício representa. O que se faz com paixão não se perde nas horas. Nunca pretendi ser o "melhor" no que faço, mas imponho-me o desafio de fazer, a cada dia, o melhor que posso. Gostaria de publicar um livro sobre seja o que for. Se tempo houver, talvez reencontrar algumas pessoas, remarcar encontros que nunca aconteceram. Posso até pedir desculpas a um ou outro, desde que estejam dispostos a entender os motivos que levaram aos excessos. Posso dedicar mais tempo ao mar, aos passeios furtivos em final de tarde com os pés descalços acariciando a areia branca da praia. Vou implementar projetos novos, com música e teatro, que sem arte não há humanidade. Além de tudo, sempre existirá tempo para ver como meu filho está crescendo forte, inteligente e íntegro. Não, não há mais nada por desejar, ao menos para o que espero em minha vida, que, por certo tempo, se confunde com a de tantos. Cada um que traga consigo sua lista de afazeres e desejos. Cada um que invente seus próprios malabarismos para realizar o que é pretendido. No final, o que se quer mesmo é ser feliz. Por certo, fazer planos é apostar na vida e estar vivo é motivo mais do que justo para se crer na felicidade. 

terça-feira, 25 de dezembro de 2012



Parabéns aos médicos, aos advogados, aos políticos éticos, aos corruptos, aos engenheiros, aos vendedores, aos arquitetos, aos jornalistas, aos esportistas, aos desenhistas, aos músicos, aos alunos, aos diretores, aos coordenadores, aos porteiros, aos extremistas religiosos, aos ex-tímidos, aos tímidos atuais, aos motoristas, aos soldados, aos atores, aos ignorantes, aos muito ricos, aos miseráveis, aos vaidosos, aos simplórios, aos letrados, aos escritores, aos leitores, aos telespectadores, aos manipulados, aos manipuladores...
ENFIM, FELIZ DIA DOS PROFESSORES!

Tantos amigos virtuais, como fantasmas: um abraço imaginário, gigabytes de afeto, pixels e mais pixels do puro cheiro de outro ser, um roçar incessante de línguas virtuais, a mais intensa concepção do nada. Por fim, um boa noite em caracteres viciados, sem a mínima expectativa da voz humana. Bem-vindo ao século das coisas com teclado.

O futuro, ainda que obscuro ou magro,
espera à frente,
como criança que foge das mãos maternas
que a impediriam de correr pelo asfalto,
sem receio de que a pedra perfure
ou de que a máquina devore. 

De hoje em hoje, tenta-se, em vão, 
contornar o ontem. 


E vieram as contas, as filas intermináveis, as grades, os programas policiais e sua falaciosa crença na perversidade, o trânsito movediço de olhos vermelhos, o ouvido inquisidor do próximo, as pedras de Drummond, o ar rarefeito de Bandeira, o cigarro incessante... Até que chegou o tempo em que alguém decidiu reinventar as coisas, apontando para uma nuvem disforme e vendo ali a invenção das múltiplas felicidades. Em minhas melhores aulas de português, aprendi o plural necessário das palavras amor, alegria e paz.

Prefiro-te assim, inexistente,
guarnecida por metros e metros
de um sentimento farpado,
cujo padrão aferi com meus palmos 
furiosos e desproporcionais.

Prefiro-te assim, indelével,
marouço invasor iludindo rotinas,
baixio nas costas marítimas,
faixa de mato que escolho cuidar
e tolher sem a menor comiseração.

Prefiro-te assim, distraída,
concebida na mornidão de uma manhã
sôfrega e intrusa, a luz a penetrar
a pele confusa por tanta ira
estagnada nos igarapés da descrença.

Prefiro-te assim, paciente,
à espreita de um momento fixado
que altere o estado das coisas,
que deslize, feito saudade,
pelos últimos resfôlegos do peito errante. 

Palavras ainda existem.
O que não encontro são as familiares alpercatas,
os indícios de movimento pelos corredores,
a grisalha partitura, a voz.

Palavras ainda insistem.
Faltam-me as horas leves do recomeço,
as cordas do violão sem ferimentos,
o marasmo das fantasias vãs, o silêncio.

Palavras ainda escorrem.
Sombras são os entes de amanhã,
a matéria que extingue a aflição dos ossos,
a carne viva dos porta-retratos, a memória.

Palavras ainda invadem.
O espelho é a antiga sinuosidade do corpo,
a alvura dos passos na calçada alta,
a leva de reminiscências sem data e jornal, a crença.

"Pai, ausente presença na minha vida, onde quer que esteja, quero dizer que já comprei seu presente. Embrulhei-o em papel simples, cor verde, a sua preferida. Se puder, venha buscar. Quem sabe eu não resolva voltar com o senhor..."

"Estudar é uma necessidade, aprender é um luxo, criar é uma dádiva..."


"Como posso mudar alguma coisa neste mundo, se sou apenas um professor. Pensar assim é servir de joguete nas mãos de um sistema que teima em banalizar a educação e exaltar a miséria, o supérfluo e o mau gosto. Preparem, pois, suas crianças, desentorpeçam seus jovens, recuperem seus velhos: Os professores chegaram, e é tempo de revolução."

Tinha uma pedra no meio do caminho
uma pedra caridosa
no meio da pedra o caminho
e um menino sem retinas
nem caminho:
apenas a pedra viva 
na esqualidez do menino.

Sou candidato. Certamente já me conhecem e sabem do que sou capaz. Já participei de inúmeras negociatas, do mais alto escalão ao mais reles corredor fiscal, e enriqueci com isso. Porém, assim como muitos de meus colegas, não me contento, preciso de mais e mais, e só você, eleitor ingênuo, para me dar mais uma chance de dissimular, prevaricar, usufruir dos benefícios de um cargo público legislativo. Sei que votará em mim, afinal, se você tivesse memória, certamente eu já estaria preso ou, no mínimo, deportado definitivamente da vida pública. Entanto, não se preocupe: continuarei apertando sua mão, sorrindo para você, pegando seus filhos no colo, tomando cafezinho em boteco de periferia, asfaltando uma ruazinha aqui e ali, tudo para justificar sua confiança. Mas é melhor não esquecer que isso tudo só acontece de quatro em quatro anos. Sendo assim, peço seu voto, pois meu estoque de uísque importado já está acabando. Seu dinheiro nunca é demais para encher nossos bolsos. Meu número é... o de sempre. Aliás, caro eleitor desinformado, é isso que você merece, o de sempre.

Ainda pelos idos de ontem, aprendi com meu saudoso pai que as coisas do mundo não se materializam à nossa frente, não nos farejam, não nos acompanham. Se desejamos verdadeiramente algo, temos que apressar passo, tomar rumo por vezes desconhecido, não poupar suores ou lágrimas. Quando se tem sede, buscamos saciá-la rapidamente, ou não, depende do quanto se está sedento. Para realizar nossos sonhos, o princípio é o mesmo. Tudo, no final das contas, depende do tamanho da sua sede. 


Cuidei de tantas alegrias, apurei centenas de almas, aliviei sofrimentos a perder de vista; enquanto espero que outrem faça o mesmo por mim, continuo: olhar morto, coração em retalhos, sorriso acorrentado.

Em um país de políticos FULECOS, com uma educação FULECA, uma segurança pública igualmente FULECA, uma saúde pública especialmente FULECA, uma justiça FULECA até demais, não é de se admirar que apostemos em um timinho FULECO para esquecer as opressões. Tenho pena mesmo é do tatu!

Que tal alguém que te enfrente, que ponha em xeque teu catecismo, que seja pura desorganização? Se, em vez de flores, trouxesse o inesperado convite para um mergulho no mar, à meia-noite? No lugar de estabilidade, oferecesse liberdade? Todo encontro, por mais casual que fosse, deveria reservar uma surpreendente sede de mergulhar em ti mesmo.

"Hei de me distanciar de tal maneira
que te perderei na moldura do horizonte.
Então, por novembro ou dezembro, 
estarei à tua porta, sem relógio
nem boa-noite. 
Trarei nos dedos a alegria do encontro
embrulhada em seda,
banhada em retorno..."

O estranho dia em que, por qualquer força inexplicável, as rotinas se rompem e o inesperado teima em rondar; o exato momento em que os pontos de exclamação passam a ser mais expressivos que as reticências; o instante maior em que nada que se tenha perdido possa significar uma total ruptura de nós mesmos; esse vão que aparece a cada existência e sugere mudanças imediatas é o que chamaríamos viver, se não estivéssemos tão ocupados desamarrotando sofrimentos, abotoando ilusões ou cosendo o que o tempo, sabiamente, fez envelhecer.

Ao sentir algo forte,
uma queimação, uma impertinência, 
sopraram no meu ouvido: É paixão!
Descobri tempos depois: Era azia!

E o amor o que é?
Pode ser tudo, inclusive nada. 

Lua dos amantes, boiando no firmamento,
perenizando a miséria dos que comem e dormem
feito bichos.

O que falta aos relacionamentos? Talvez intimidade. Não a que provém do sexo, mas a que ressurge a cada encontro pela necessidade de se ter, na hora aprazível, um bom amigo, desses que têm o poder de falar e ouvir a coisa certa, no instante exato, no lugar predestinado. Talvez falte afinidade, virtude de quem se arrisca a desvendar os mistérios da face, do gesto, do cheiro. Quiça falte a surpresa, porque a vida torna-se perigosamente previsível sem alguém que nos dê motivos para acreditar que, a cada encontro, algo novo e inesperado possa acontecer. Se não, valeu ao menos pelo frio na barriga. E falta delicadeza, mesmo sem poesia, pois até a forma de se sussurrar o nome da pessoa amada já é um poderoso sinal de encantamento. Todo mundo, mais cedo ou mais tarde, desejará encantamento.


Foram tantos "eus" que desatamos os "nós"!

Virá. Indiscutivelmente. E que venha leve, ao menos no início. Que se achegue como véspera de feriado prolongado, como recesso de final de ano, como primeiro voo de asa delta. Sem frio na barriga, melhor que não venha. E que a leveza se desfaça com o tempo. A certeza de que se tornará raivoso fará com que aproveitemos os minúsculos momentos de encantamento. Entanto, a imprecisão da fúria é nada diante da renúncia. Então acaba, tão leve e etéreo quanto no princípio. E o que resta são as últimas impressões, acalentadoras e mornas, feito sol no rosto indolente do recém-nascido. Outros virão. Novas impressões de que tudo se refará. Mas nenhuma delas é como véspera de feriado. Nenhuma delas destrói e constrói. O que virá é novo demais para os que vivem de retornos.

"Gritei, gritei, enquanto todos urravam... então silenciei. Foi quando decidiram me ouvir."

PELO DIA DAS MÃES

Minha mãe ensinou-me ser ousado. Sem ousadia, os desejos tornam-se mentiras. A coroa cumpriu bem seu papel. Nasci por insistência e ousadia dela. Fora uma gravidez de altíssimo risco, sem contar que ela já vinha de três gestações interrompidas. Então eu vim ao mundo. Tornei-me filho e ela tornou-se, finalmente, mãe. Foi como se nascêssemos juntos. O que nutro por ela é tão filial que nos torna irmãos.

Cada cicatriz é um afluente que se lança na infância, um sorriso permanente a lembrar que um dia estabelecemos um íntimo pacto com a liberdade. Ademais, as cicatrizes jamais nos deixarão esquecer que as dores, por mais lancinantes, sempre caminham para uma restauração. 

Esqueço porque é necessário; não por vontade, mas por segurança. Esqueço para não me entregar à espera,como se o novo passo dependesse essencialmente dos rastros que se apagam, do anonimato das pegadas; Esqueço para que outros possam recordar, não o que me desencanta e que está em tudo ou ao redor de todos; faço-o por autopreservação. Esqueço porque me foi dado o dom da recriação. 

Que se duvide de todas as instituições, antigas ou modernas, e de suas intenções mercantis, mas que não se confundam ganância, vaidade e orgulho com fé!

Aos que já encontraram,
é dia de celebrar.
Aos que ainda procuram,
que o possam encontrar.
Aos que tudo perderam,
há de se recomeçar.
Aos que recomeçaram,
que se faça preservar.
Aos que apenas esperam,
fé não pode lhes faltar.

Tínhamos apertos de mão e abraços. Temos compartilhamentos. Tínhamos voz. Temos twitter. Tínhamos convicções. Temos frases feitas e recortes de textos. Tínhamos tempo. Temos relógios. Tínhamos amores. Temos status de relacionamento. Tínhamos medo. Continuamos tendo.

Cansei dessas babaquices de mudar o mundo com gentilezas e conhecimento. Ninguém quer mais isso. Não é bom, não dá audiência. Legal mesmo é ser incorreto, despolitizadamente incorreto. Quero ser desses de enfiar pelos ouvidos alheios bocejos aos mil decibéis ou barulhos estridentes, diga-se músicas da moda, sem se importar se querem ouvir ou não. Quero arrebentar a cara dos que não torcem pelo meu time, ou mesmo dos que torcem, o bom mesmo é esmurrar qualquer um, sem dó nem piedade. Quero virar as costas para o professor, gritar insanidades no meio da conversa, roubar a carteira dos meus pais, apedrejar crianças, atear fogo em mendigos. Quero ser da moda! E as gatinhas vão amar, e os carinhas vão querer ser eu. Meu guru será a tevê, pois foi com ela que aprendi a ver graça na humilhação e na grosseria. Dane-se a UFC, porque sou do UFC. Sei que meu destino é ser esquecido, mas o futuro não importa, vivo é o hoje, sem limites. Aliás, melhor parar por aqui. É que ler e escrever demais já está me dando dor de cabeça.

Em um lugar muito além de qualquer serra multicor deitada no horizonte, as pessoas tinham tempo, os olhos enxergavam as cores de outros olhos, sentia-se a presença da amizade. Todavia, o zepelim da modernidade e seus devastadores canhões destroçaram o sonho. Hoje, os que prezavam pelo tempo se ocupam em atrasar relógios; as cores vivas do olhar foram substituídas por indefectíveis "pixels"; o abraço, as conversas longas e os desejos de reencontro das velhas amizades deram lugar a comentários breves e cutucões inertes das fantasmagóricas redes sociais. Não há mais páginas nos livros. Não há mais janelas que deem para as ruas. Nossa humanidade é medida pelo tempo que dedicamos às nossas máquinas. Um dia, há muito tempo, era preciso conquistar amigos. Qual nada! Melhor apenas adicioná-los. E se algo acontecer com eles, paciência, encontraremos outras sombras para superlotar o perfil.

Se são as mentiras que encantam, e daí! O mundo precisa é de encantamento.

Hoje, um amigo, professor de longa data como eu, confidenciou estar estudando para um concurso qualquer, pois já não mais aguentava o peso das salas de aula. Meu Deus, eu já caminho por essas veredas há dezessete anos. Nunca pensei em abandonar o barco. Mas, depois de ver tantos excelentes profissionais buscando ares mais amenos, longe das inconstâncias da educação, começo a pensar se não serei eu o errado, por ainda acreditar numa visão romanceada do ofício de professor. O fato é que está cada vez mais difícil. Antes, apenas os detentores do poder nos oprimiam. Agora, pais e alunos também assumem de forma magistral esse papel. Não vou desistir, ao menos por enquanto. Entanto, não quero acabar como o pobre Simão Bacamarte, do conto de Machado de Assis. Certamente alguém, neste momento, estará se perguntando quem são esses caras. O problema é que, do jeito que a coisa está, as perguntas conseguem, estranhamente, se sustentar sem respostas. Enfim, nunca é tarde para acreditar em mudanças. De uma forma ou de outra.

Nasci homem. Adestraram-me desde a infância a assumir as rédeas do mundo. Entanto, esqueceram-se de avisar: quase todos os caminhos me trariam alguma figura feminina marcante, dessas que são capazes de destroçar muralhas com o simples gesto de mexer no cabelo. E elas vieram senhoras de si, arrebatadoras, furiosas, cobrando o que, na verdade, já pertence a elas desde o ventre. Fortes por natureza, sabiam como utilizar a mais infalível das artes humanas: a delicadeza. Assim, entreguei-me sem reagir. Tornei-me admirador de suas lutas. Invejei seu pioneirismo. Tentei acompanhar, em vão, sua maturidade. Se existir reencarnação e se me for concedido algum poder de escolha, gostaria de voltar a este mundo na pele de uma mulher. Sangraria todo mês, mas sem perder o rebolado. Mataria por minha cria. Desenvolveria sextos, sétimos, enfim, todos os sentidos possíveis. Amaria ferozmente quem me tratasse com decência e cortesia. Não seria fácil viver tudo isso. Ser mulher não é nada fácil. Mas acho que encararia esse desafio. Ser homem, meu amigo, não tem um pingo de graça.

Da pedra, fez-se o desencanto
da palavra hermética.
Um ser discreto, dito poeta, 
desconhecendo o rancor da pedra,
desfibrilou a palavra.
Assim nasceu a poesia
que, um dia, reinventará a pedra.


Houve quem perguntasse, dia desses, chovia:
- O que nos falta para sermos plenos de luz?
Mudez. 


Se resposta houvesse:
- Realizar um pacto com o silêncio, navalhar o espelho que te torna carne, encontrar noutrem a definitiva matéria do eu, requentar memórias e desejos. 
E aquela pergunta inesperada, desejosa de iluminação, pairou sobre outras cabeças, lancinante como um sol, meio-dia. E chovia.

"Preparei um texto comprido, palavras em ponta de vara, para derrubar corações miúdos, de vez, do alto do pé das conveniências..."

Que os textos, dos previsíveis aos imprescindíveis, revelem, espelhos que são, os obscuros desejos que nos tornam infinitamente humanos! A redenção virá pela palavra, não pelas máquinas.

Certa feita, um aluno me disse que odiava minhas aulas. Por curiosidade, quis saber o motivo de tanta ira. Ele, então, sentenciou que não aceitava que um professor "brincasse" em sala de aula. Depois disso, pensei comigo: Acho que estou no caminho certo, afinal, é com alegria que desafio as pessoas que pretendem tornar o mundo tão amargo quanto elas. Como se pode odiar alguém que não se conhece? Sei lá. Hoje, esse que me odeia é professor. Espero que os alunos desse cidadão não aprendam com ele a odiar o que não se entende ou não se aceita. Se assim acontecer, melhor fazer outra coisa ou não fazer nada. Um bom professor, todos os dias, encontra motivos para desacreditar do ódio.

Nem sempre o que é belo para um pode ser para outro. É preciso conhecer para reconhecer, pois a primeira impressão normalmente é a que cega.

Saudade, essa incompletude, relógio de ponteiros mortos a ranger pelos instantes que nunca cessam. 

Cego, abriguei-me sob as asas da tua sombra!
É que a noite murmurava algo próximo
do que guardei como teu nome...

Sei que, um dia, há de se acabar tudo...
mas, enquanto for noite, comemoro e rememoro 
a existência!

Há quem nos cicatrize, quem nos resguarde em bom lugar; há quem nos cure, quem nos aguarde enquanto saímos do coma; há quem nos desespere, quem não reaja enquanto agonizamos; há quem desista, quem simplesmente retorne sem nos esperar; há quem fira, quem espere que tenhamos mil corações; há quem nos convença, quem revele que a vida não é feita de esperas. E há quem escreva, abrigando-se em fingimentos, tecendo brevidades. Pura auscultação. 

"Por venturas alheias, morri. E é tão importante morrer, que assim o retorno, como o espero, cumprirá sua função de tornar digno o solo que piso."

Mais um Carnaval é findado. A consciência entupida, o coração estagnado e o estômago vazio. E viva o povo brasileiro!

Conclamo, pois, a massa juvenil que ainda não tomou tento do que vai ser quando “crescer”: Sejam professores! Entanto, entre nessa para ganhar. Não aceite os mandos e desmandos impostos por uma sociedade cercada de idiotas que querem enfiar na sua cabeça que ser professor é a maior roubada, pois ganha-se mal, trabalha-se muito e não se tem a devida valorização. Não há nada neste mundo que se equipare ao prazer de lecionar. Essa é a primeira lição que o professor deve passar aos seus alunos. Para um mundo carente de pessoas que pensem e ajam, é interessante para a classe dominante criar uma publicidade negativa em torno do ofício de ensinar. Imagine que seria uma verdadeira revolução se tivéssemos uma leva de jovens, todos sedentos por mudanças, ingressando nos cursos de licenciatura e, em seguida, no magistério, prontos para aplicar novas técnicas e revolucionar a sala de aula. É disso que precisamos: professores jovens, diferentes, entusiasmados e, sobretudo, dispostos a lutar em defesa da educação. Mas, que fique bem claro, não espere medalhas de honra ao mérito ou coisa parecida. Muito provavelmente não erguerão estátuas em sua homenagem, nem batizarão ruas com seu nome. Mesmo assim, não é fácil esquecer um bom professor. Se, neste exato momento, fecharmos os olhos e acarinharmos a memória, em questão de segundos alguns professores ressurgirão em carinhas risonhas, em amparos sempre providenciais, em palavras alentadoras e em lições inesquecíveis. Ser professor não é um sonho, eu sei. Para sonhar, é preciso estar dormindo. Uma coisa necessária para se tornar um bom professor é permanecer de olhos bem abertos, construindo esperanças necessárias para que os homens permaneçam acordados, e as crianças também.

Quantos forem os obstáculos da vida, tanta será a sua capacidade de superá-los. Dilemas, desencontros, danos, esses sempre existirão, na medida em que nos dispomos aos recomeços. O melhor prefixo da língua portuguesa é o RE. Sem ele, não haveria revivências, retornos, reembolsos, reencarnações, rememorações. Tudo é possível criar com esse bendito prefixo, mesmo que, para isso, seja preciso redimensionar pensamentos (Olha o tal RE aí de novo!).

Amizade é quando o destino desafia a genética.

Ah, meus caros amigos, professores não deveriam morrer...
Pensando bem, quem disse que eles morrem? 
Eles apenas retornam ao lugar onde nasce o conhecimento!

Reinvente os passos. Afaste-se das indiferenças, das amizades estanques, dos amores impossíveis. Sonhe menos, realize mais. Não acredite em propagandas de final de ano. Em todos os dias de sua vida, enfeite uma árvore com prenúncios de paz e prosperidade. Ame incondicionalmente alguém com quem não se mantenha qualquer vínculo genético. Invada o dia seguinte. Transborde. Deseje algo de bom para os que estão pelas calçadas, à espera de um milagre. Desligue a tevê. Conheça melhor seus vizinhos. Decore menos, aprenda mais. Descubra um sabor exótico. Espere ansiosamente alguém. Decepcione-se. Aprenda. Viaje. Acaricie seus pais. Dê de comer ao cachorro. Exponha-se menos. Não se esconda por frases de terceiros, vídeos apócrifos, fotografias de aluguel. Aceite-se. Amanhã pode ser domingo, se quiser que seja. Pegue tudo que se conquistou, subtraia o que ainda falta conquistar. Falta pouco. Saia da frente do computador. Abrace. Encante-se com os fogos. Estique a mão para alcançá-los. Caminhe descalço à beira-mar. Vez em quando, retorne. Veja o que há de bom no passado e transforme em presente. Queira. Todo dia pode ser réveillon. Quanto ainda falta para a sua felicidade?

"Se, em um dia em que tudo estivesse estático, sem vida, sobreviesse a intenção de convidar alguém para sair. Entanto, não quem mereça o título de alguém por pura indeterminação do sujeito, mas alguém que fizesse diferença por razão qualquer. E se, depois de uma longa e afetuosa conversa, um olhar antigo sobrepujasse um último reparo de formalidade. E se, dali por diante, os corpos espelhassem o alvor de sorrisos há muito íntimos demais. E se, pela brancura sem inocência posta em toques de ousadia, não houvesse mais necessidade de guarida em ironias e descasos que dissimulassem a real intenção dos corpos. E se não fosse um erro, mas uma oração."

Desde miúdo, curumim por descobrir o mundo, a tevê me obriga a crer na estupidez humana. Os programas policiais, todos os dias anunciam em cores vivas a morte da esperança. As novelas indicam que, para chegarmos a um final feliz, é preciso uma longa estrada de sofrimento e tragédias. Os "shows" de realidade animalizam. As propagandas de grandes lojas de departamentos associam felicidade a poder aquisitivo. E dizem que tudo isso é fantástico ou espetacular. Humor transformou-se em sangue e sexo. Sentei-me à calçada e vi o Sol se pôr. O céu, vermelho como a ira, é quase de LED. Ainda bem que, nesse momento, não se ouvia um plim-plim.

A cada passo, a vida nos oferece inúmeras possibilidades, entre falsas e verdadeiras. O que nos consola é que todas elas nos impelem a continuar vivendo.

Amigos são insubstituíveis. Entanto, há quem diga que ninguém o é. Tolice. Não percamos tempo acreditando nisso. Ninguém há de me substituir por uma razão simples: sou único. Quem haveria de ser igual a mim, com os mesmos tratos e trejeitos? Assim são as amizades. Em dados momentos, afastam-se de tal maneira, que chegam a quase sumir no horizonte. Mas é impossível substituí-las. Onde eles, os amigos de verdade, estarão agora? Que importa! Basta que estejam no mundo. Em qualquer lugar que seja, nossos amigos estão prontos para nos amparar, desde o primeiro, até o último degrau. Sem eles, embora o caminho seja sempre o mesmo, não conseguiríamos prosseguir. É que nós, sem eles, jamais seríamos os mesmos.

Em um mundo caótico, de gente sem escrúpulos, de atear fogo em moradores de rua, de atirar friamente nos passantes por pura diversão, de pisotear crianças, de assassinar o próprio sangue; nesse mundo desiludido em que a promiscuidade e a ignorância reinavam, nada mais restava, senão um professor, quieto, quase microscópico diante da covardia alheia, e ele maquinava algo novo, um sopro de modernidade entre as velhas indulgências virtuais. O professor sabia que jamais mudaria esse mundo de loucos. Mas todos o temiam por saber que ele jamais permitiria que o mundo lhe roubasse as convicções.

Que estranha habilidade humana essa do estranhamento. Qual criança que nega o jantar por julgar o gosto pela aparência, há quem decida por se afastar de alguém por simplesmente não aceitar que conhecer demanda tempo e dedicação. Conhecer é um risco, mas não se pode viver de distração.


Quantos amigos podemos ter na vida? Se não fossem os computadores, três ou quatro, no máximo. Amigos que frequentem nosso quintal. Esse era o termômetro que meu pai utilizava para mensurar o grau de afeição com outrem. Aos estranhos, a área. Aos conhecidos, a sala. Aos parentes, a cozinha. Aos amigos, o quintal. E não é para qualquer um que abrimos as portas do nosso quintal. Agora, para atingir o tão almejado posto de amigo, o camarada tem que merecer. Como fazer? Simples. Apresente-se. Esteja à disposição. O segredo de uma boa amizade é estar sempre disponível. Às vezes, os amigos celebram, mas, em outros momentos, simplesmente acompanham até a venda, assopram ciscos do olho, tiram formigas da gola da camisa. As grandes amizades se alimentam desses pequenos gestos. 

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Sobre todas as despedidas



           Escrever não é um ofício leve. Viver é bem mais difícil, por certo, mas espelhar no papel tudo que nos denuncia é quase um sacrifício, na intenção mais divina da palavra. Agora, entre todos os temas que podem vingar de uma folha em branco e de uma cabeça em ebulição, o que mais confina a sanidade é tratar de despedidas ou desencontros. Tantos temas mais amenos, como amores inalcançáveis, a política de distribuição de renda no Camboja, as viagens intercontinentais, ou mesmo intergaláticas, dos magnatas da miséria humana...mas atribuíram-me a incumbência de uma sonora e desconcertante despedida. Se não se pode remediar, vamos então aos costumes, não sem antes, como professor de produção textual a legislar em causa própria, dividir essa liturgia em três pontos: a juventude, o tempo e a saudade.
             Envelhecer não é apenas, como li certa feita, uma mera produção desenfreada de radicais livres. Isso faria maturidade confundir-se facilmente com decomposição, e, francamente, prefiro não me sentir assim, uma matéria em constante deterioração, ao olhar-me no espelho. Ficar velho é bem mais que um punhado de células que se estragam. Chega a ser, na verdade, um esquecimento, um sobressalto, uma espécie de susto: quando menos esperamos, cá estamos nós, velhos ranzinzas e obsoletos, pigarreando moralismos enviesados, agitando-se na confortável cadeira de balaços do comodismo. Sendo assim, melhor aproveitar enquanto a vida ainda nos soa colorida e enigmática; enquanto podemos escolher nossas crenças e rabiscar com mãos de alfabetizando o nosso futuro. Qual não é o espanto quando descobrimos, em um desses acasos da vida, que nossos pais já foram jovens, e, na maioria das vezes, parecidíssimos conosco, não apenas fisicamente, mas, sobretudo, comportamentalmente. Se a canção diz que ainda somos os mesmos e  vivemos como nossos pais, não haveria de causar surpresa que os que vieram antes de nós tenham também cometido suas gafes, seus deslizes mais escabrosos. Imagine o que um pai ou uma mãe fizeram na sua juventude e hoje, por razões legítimas e justas, fazem questão de esconder ou negar. Um dia, jovens, sereis do mesmo jeito, cumprireis os mesmos rituais e agireis com a mesma dissimulação necessária. É natural que seja assim. Portanto, envelheçam o mais tardiamente possível e não façam questão de prolongar a juventude forçadamente. Ser jovem é gostoso porque dura pouco tempo, e essa brevidade deve ser aproveitada nas suas mais variadas possibilidades. Não há nada mais ridículo que um velho dando de rapazola; não há nada mais triste e desesperador que um jovem descrente da liberdade.
                Segundo a teoria da relatividade, presente, passado e futuro são apenas uma ilusão teimosamente persistente. Inclino-me a concordar, mas não existe mal algum em cultivar ilusões. Que coisa é o tempo! Esse cavalo intempestivo, essa centelha que se projeta ao longe, esse horizonte sem fim que nos faz caminhar constantemente, mesmo contra a nossa vontade. Somos privilegiados se lembrarmos com exatidão o que ocorreu pela manhã ou na noite anterior, ainda que tenha sido emocionante ao extremo ou romântica em excesso. O que dirá então de recordarmos um ano inteiro, uma vida inteira. Ainda trago fortes memórias dos meus tempos de escola, mas são fugidias, amarelecidas como um retrato em feitio oval na parede da sala de estar na cada dos avós; porém, com algum esforço, consigo retornar aos anos mais doces e intactos de minha vida, quando as tias do primário ninavam-me a imaginação com suas presenças angelicais e suas histórias mirabolantes de duendes e fadas; os amigos que fiz, ou não seriam eles que me fizeram ser quem sou hoje? Esses imaginários seres de luz materializados em pessoas como eu, sempre dispostos a gargalhar, a brigar, a choramingar, a filar merenda no recreio, a acariciar as almas, enfim, pessoas merecedoras dessa dádiva chamada amizade. Recentemente, em um desses passeios do mundo, reencontrei um antigo colega de escola, da época do primário. Demoramos um pouco investigando um ao outro, até que veio a certeza e o necessário abraço. Foi uma conversa rápida, pois já não somos mais jovens - velhos nunca têm tempo para nada - mas o teor íntimo da conversa fazia parecer que nunca saímos dos bancos escolares, mesmo depois de quase vinte anos de espera. Assim, pude perceber o quanto o tempo é implacável, mas inútil perto do que elegemos como verdadeiro em nossas vidas. Talvez jamais volte a ver esse amigo, cujo nome agora me foge da memória (no dia do reencontro, não tive coragem de perguntar), mas tenho certeza de que há espaço para mim em suas lembranças mais singelas.
                  Assim como só é possível medir a dor no irromper da ferida, ninguém é capaz de entender a saudade sem antes experimentar a perda. Agora, sem dúvida alguma, o que mais incomoda são duas coisas: o que se fez pela metade e o que se deixou de fazer. E a conjunção do remorso é o se! Se eu lhe tivesse apertado a mão, em vez de virar as costas; se eu duvidasse menos dos sentimentos das pessoas; se eu dedicasse mais tempo à leitura e à boa música; se eu falasse menos e ouvisse mais; se eu acordasse cedo; se eu não entrasse na rua errada; se eu não chorasse no primeiro tremor de terra; se eu acreditasse mais em mim mesmo. Boa parte da saudade se resume a um bom bocado de "se". Penso que somos todos criaturas sentimentais por excelência, por isso temos que vivenciar a desventura de perder para poder não apenas redimensionar esforços para novas experiências, mas também para compreender o quanto de nós se extravia ao nos despedirmos de algo ou alguém. Porém, para amenizar qualquer efeito nocivo da saudade, faça agora mesmo o que já deveria ter feito há muito tempo. Abrace, beije, ame, perdoe, cobre...exponha-se para que não haja dívidas cobradas no purgatório dos arrependimentos. Façamos, pois, uma reflexão de tudo que nos faz falta. Quanto mais houver motivos para lembrar, mais experiências intensas e marcantes teremos vivenciado, e isso constrói nossa humanidade e determina nossos passos no futuro. Das certezas que a vida nos impõe, a saudade é a mais poética. Às vezes, sinto falta de ter saudade de grandes momentos de minha existência; no entanto, toda vez que aperto com força os olhos e entrego-me às memórias mais íntimas, são os pequenos e insignificantes casos que me vêm à mente. A presença da ausência, como diria o poeta, fica mais amena quando temos a convicção de que não fizemos tudo, mas fizemos o necessário para não esquecer e não sermos esquecidos. 

domingo, 9 de dezembro de 2012

Para musicar


Antes de tudo
correr pro fim,
como tudo enfim...
Deixe-me tentar
dizer, sei lá,
bem mais do que
se diz
quando se pensa
estar feliz...
Se findou o dia
e a alegria
de estar
não vinga mais,
deixa pra lá,
vira pra mim,
rente assim,
crente assim,
que o que foi
um dia vai voltar...
mas se não
houver razão
pra outro perdão,
melhor dormir
e se entregar
à leve arte
de sonhar
com o que já foi
e, ao ser, enfim,
um novo fim,
vai ser assim,
longe de mim,
que um outro tempo
vai brotar.




Conselho


atualize-se
hormonize-se
betanize-se
clareie-se
odeie-se
engane-se
aprenda-se
compartilhe-se
metaforize-se
lapide-se
domine-se
lirize-se
bandeire-se
gullarize-se
coraline-se
amordace-se
grite-se
pormenorize-se
coma-se
emprenhe-se
competize-se
precise-se
aborte-se
embriague-se
vomite-se
invada-se
desvirgine-se
buarquilize-se
roseie-se
transversalize-se
feminilize-se
machize-se
filie-se
madrinize-se
paternalize-se
trepe-se
ame-se
abandone-se
iluda-se
afaste-se
remova-se
perdoe-se
chova-se
simetrize-se
cicatrize-se
arrefeça-se
perca-se
ganhe-se
meta-se
remeta-se
cometa-se
tormente-se
visualize-se
feche-se
escancare-se
morra-se
ressuscite-se
desmascare-se
case-se
divorcie-se
reentregue-se
balance-se
envelheça-se
suicide-se
renasça-se
infernize-se
paraíse-se
santifique-se
desmarmorize-se
gargalhe-se
escreva-se
poetize-se
cale-se