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sexta-feira, 15 de novembro de 2013

Via crúcis



          Em uma barraca de praia, há pouco, um homem que, como todos por ali, aproveitava o feriado em conversas fiadas, petiscos variados e cervejas geladas deu de estrebuchar, contorcer-se e cair. Estava morto. Na mesa ao lado, eu apenas observava o tumulto. Choro de quem quer que seja não houve. Apenas o baque, o arrebatamento inicial de quem não esperava que, em pleno feriado, ao pino do sol, em uma praia, alguém pudesse morrer. Aos poucos, mesmo com o cadáver estendido na areia, a normalidade tomava conta dos passantes. Em uníssono, uma pergunta. Como ele morreu? Hipóteses não faltaram. Coração entrevado, acidente vascular cerebral, alergia a caranguejo, engasgo, overdose. Mas, no final das contas, ao se inquirir o motivo de sua morte, conscientemente ou não, perscrutavam-se também as razões de sua vida. Como ele viveu? 
            Vivemos muito pouco, ao menos para o que realmente deveríamos fazer. Ao longo de trinta e seis anos, a vida me foi um tanto imprecisa. Sobrevivi a sobressaltos, colhi restos e apaziguei lembranças. Por vezes, fiz escolhas torturantes, dessas que deixam estigmas profundos na alma. Extirpei passos promissores, senti dores terríveis no ombro e nos joelhos. Descobri, a duros entraves, que felicidade não se compra a granel, tampouco se engarrafa ou se perde em fumaças. Senti cada poda, desviei a atenção de mim, empobreci-me. Lutei como qualquer brasileiro, dei-me às promessas de um futuro profissional sólido, dediquei-me, na maioria das feitas, às coisas erradas. Deixei de pedir perdão quando deveria e cheguei a pedir demais quando não mais existia fé. Desacompanhei minha cria, fui acusado de inúmeros crimes dos quais, por contradição, não me sinto réu. Tolerei as mais vis lembranças e carreguei a cruz de todas as culpas do mundo, qual Cirineu. Se me fosse dada a oportunidade de redesenhar algo, que se afastasse de mim, pois, o cálice da culpa.
            Caminhei, por certo, em passos desastrados, mas sempre fui diligente no que concerne à vida alheia. Nunca me permitiria atravancar caminhos há muito escritos. Ausentei-me inúmeras vezes para não conduzir comigo a falta de ter, ainda que sem intenção, desviado o destino de outrem. A frialdade das coisas, o racionalismo mais impertinente,  a descrença em quase tudo, isso me protegia e me desconstruía a cada insônia. Entanto, acreditar no que está escrito é inerente a quem se dispõe maquinar tolices no papel. Algo de primordial existe na essência dos seres, o que não se revela e está lá, da maneira mais velada, mais impressentida. É essa essencialidade, a confundir-se com desejo e lembrança, que chamo destino. E se, por desleixo e egoísmo, desuni mãos que, por hipótese que fosse, nunca deveriam se desenlaçar? E se participei, mesmo que involuntariamente, do sofrimento de alguém que, por me ser desconhecido, terminei julgando ser merecedor de mágoa? E se interrompi histórias reais por razões imaginárias? E se a tinta que ora emprego fosse apenas para cobrir outros traçados, que, de tão marcados na página, fingem apagar-se, até que a folha seja posta contra a luz? 
            O homem morreu na praia. O mar não se abriu para recebê-lo. A conta de sua mesa ficou por ser paga. Amparado por estranhos, descalço, pálido. Imaginando-o no céu, seria ele a única nuvem no estirão azul. O vendedor de queijos não choraria por ele. A mulher magra de biquíni não o amaria. O garçom atento às mesas entupidas de comentários não o abraçaria. O guarda-vidas não o ressuscitaria. O boyzinho não abaixaria o volume do rádio. Estendido na areia, jazia um corpo franzino, leve por não mais trazer consigo as culpas que lhe foram impostas. Cumprira sua sina, trilhara sua via-crúcis. Nome não tinha. Como foi mesmo que ele morreu?

4 comentários:

  1. Caro Sinval,

    Ao ler o seu texto, lembrei-me de um comentário do Sêneca na obra "Sobre a brevidade da vida". O filósofo diz: "Não temos exatamente uma vida curta, mas desperdiçamos uma grande parte dela. A vida, se bem empregada, é suficientemente longa para realização de importantes tarefas". Desse modo, acredito que não temos uma vida breve, mas fazemos com que seja assim. Não somos privados, mas pródigos de vida. Em outro momento da obra, ele completa: “pequena é a parte da vida que vivemos porque preferimos desperdiçar a maior parte dela no luxo e na indiferença”.

    Adorei o seu texto.

    Você é genial!

    Abraço.



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