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domingo, 2 de março de 2014

Soneto por amar demais




         Amo demais, mas nunca fui de amar.
         Encanto-me pouco, entrego-me menos,
         Canto, sereno, o essencial do tempo,
         Procuro no porto a razão do mar...

         Amo demais, que já nem sei parar.
         E esse amor vem demasiado intenso,
         Solúvel em sonho, óculos pensos,
         Peitos de louça, coxas de alforjar.

         Perco-me, às vezes, por poucos segundos,
         Por essa piçarra serpentinosa
         E fronteiriça de carne instintiva.

         Nesse vulto, sincopado e fecundo,
         decomponho desejo em rima e glosa,
         sinto o corpo sangrar em alma viva.
         

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Quando Ela chegar, quero estar acordado!


       
               No poema, cabem os meus, os seus,
               as partituras rotas dos que se movem nas procissões,
               as mãos indulgentes das primeiras horas,
               a dolorosa metamorfose da aurora que grita instantes
                                                                            e sua sangue
                                                                            sem fé.
               O cais parte, deixando os navios à deriva,
               que as palavras desorientam os maus, os bons:
               os jovens lacrimogênios e seus coquetéis de esperança,
               a água vertida do peito nu da menina sem sexo,
               o baixio abarrotado de homens e suas presas lancinantes.
           
               Poesia
               é o amor pela menina de olhos postos em tudo que passa,
                                                                             que eu não passo
                                                                             de um átimo;
               é a atmosfera livre e renitente das telas amarelecidas de cansaço
                                                                             e asco;
               é o encontro noturno e o abraço de novo, embora antigo.
             
               A palavra forma regaços, vãos que levam ao riacho seco:
               existe ali um riacho, mesmo sem a condescendência da água.
             
               Sous peu, 
               de tudo, ficará uma lembrança esvaecida, sem detalhes,
               um vulto no espelho, uma voz sempre à mesma hora,
               uma prosa peregrina, sem cisma
               nem cor.
             
             
             
             

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Lundu



Inda me tenho menino,
desses bem pequeninos,
na porteira do curral.

O gado mói vicejante,
boi de olho cintilante,
que o céu deu de pingar.

Meu amor tem a cor
da piçarra molhada,
do café guardado em lata,
da cacimba, do floral.

Meu amor tem a dor
das noites do interior,
das estórias do avô,
do escuro do quintal.

Meu amor tem a voz
do golinha, do campina,
do açude na neblina,
do grilo no milharal.

Meu amor tem a foz
no pranto do pai ausente,
no suor incontinente,
no banho rudimental.

Meu amor não acredita
quando bendigo do boi
que cintila pela chuva.

É que, no olho do tempo,
inda me sinto menino
por causa do meu amor.



domingo, 5 de janeiro de 2014




o tempo dá novo impulso à verdade,
e os olhos possíveis, em cores vivas,
são procela! Cá estou, sempre à deriva,
sem cais ou vela, singrando a saudade.




quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

Sob o olhar atento das baleias




         Seus olhos são lindos. A palavra, quando dita, deixa de ser sã, perde o apuro, a pureza do literal. O que é de dizer finca-se no tempo e, depois de dito, aninha-se na memória e pia de bico aberto, à espera do resgate oportuno, e a criação reside nesse ato. Ao dizer dos olhos, outra coisa irrompe, algo que não se esperava por ser aprumado demais, um lastro tão desalmado, tão insistentemente engodado no desejo, que faz dos olhos o que não são: olhos. 
           E o olhos estavam lindos no dia de sua primeira comunhão. De vestidinho branco, motivos em flor, ombros curvos à mostra, segurando sem firmeza, na ânsia de esconder o rosto, o livreto de cânticos. A boca mexia-se por obrigação, orientando-se pelos movimentos das menininhas que a ladeavam. Eu estava lá. Manhãzinha cedo, pequena demais para entender, enquanto tentava abrir a porta corrediça da loja, sentiu a aspereza das mãos enojantes do bêbado conspurcando-lhe a inocência. Eu estava lá e nada fiz. Quando o primeiro namorado prometeu-lhe o impossível, sabendo-se resistente a tudo, menos à verdade, mal contive o ciúme. Durante a viagem à capital, obrigada a envelhecer dez anos, longe da avó que a criara, próxima demais da cidade que se distanciava, continha lágrimas e prenunciava uma força descomunal. Na cadeira ao lado, o homem de chapéu era eu. No colégio, sentada como se empoleirasse os ponteiros em seu colo, devidamente alijada na primeira fileira do lado esquerdo da sala, desviava-se dos olhares céticos de sua presença. O professor curvado e magro a contracenar com ela era eu. Na volta para casa, diante da imensidão da avenida movimentada, sem saber como passar pelos cardumes de automóveis, alguém decidiu estender-lhe a mão para ajudá-la a atravessar. Em um dos carros que passava, eu apenas observava com ternura.  
          Outras sucederam, e os olhos continuaram. As cenas que velei emolduraram-se nesses olhos, que são avistamento de baleias, essas gigantescas criaturas, suaves como a própria paz, que passam raspando os catamarãs e miram, quase em reverência, os rostos dos que, a partir daquele momento, aceitarão da forma mais encantatória a própria pequenez. Velei, feito anjo, cada envergar desses olhos, que estive presente em todos os instantes - as birras de fome, os livros da estante do avô, os cavalos reais e imaginários, o único beijo no escuro do cinema, o avião pressurizado e congelante, o passeio de charrete, o amigo insistente a tornar-se amante. Estive, por crença, em todos as moradas, nos silêncios e nas palavras sincopadas dos primeiros seminários na faculdade. Abri mão das asas para que os olhos de sempre permanecessem etéreos. 
        Olhos de bom-senso não creriam em anjos. Entanto, por essa mesma racionalidade, é possível compreender. O acaso diz dessa verdade. Vez em quando, mesmo em risco, procurar notícias. Marcar datas. Guardar frases. Perdoar. Eu estava lá. Mas anjos surgem, revolucionam e partem. Eu pretendo ficar. 
       As baleias embalançam as águas, agitam os barcos. Assim são seus olhos, que reagem aos pensamentos, que se curvam em oração, que latejam por mudanças. A criança que viaja do solo aos ombros do pai são seus olhos. O balanço de pneu no quintal são seus olhos. Quando reouver as asas, poderei partir, não sem antes ensiná-la a voar. Dessa forma, se desejar, poderá seguir comigo pelas vidas que anseiam mudanças, para que todos se curem nas promessas desses olhos. É que seus olhos são lindos. 

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

* Texto lindo de minha Maria. Uma confirmação. Uma profissão de fé.

Ainda não entendemos como o tempo,
tão curto ainda, 
existe em função de tudo 
que se pode realizar numa vida inteira. 
Já confessamos um segredo perigoso, 
do tipo que se guarda para sempre, por medo ou vergonha. 
Já curamos males que ciência ou mesa de bar alguma consegue tratar. 
Já pintamos uma janela ouvindo música. 
Já acordamos ao som de “Eu te amo”. 
Já envergamos. 
Já arriscamos. 
Já o vi chorar. 
Já temos um jardim. 
Já bebemos como dois velhos amigos. 
Já dançamos.
Já assistimos a uma apresentação do Suassuna.
Já experimentamos as primeiras alianças, que trançamos um para o outro. 
Já nos seguramos firmes, como só irmãos podem resistir.
Já nos presenteamos nos dias comuns do ano. 
Já nos surpreendemos. 
Já manifestamos, como o Dragão do mar. 
Já coincidimos prazeres no escuro.
Já escolhemos nossa música com todo o sentimento. 
Já caímos e levantamos. 
Já nos movemos por fé. 
Já perdoamos falhas dolorosas. 
Já podemos enfeitar mais de um álbum de fotografias. 
Já nos buscamos, cedo ou tarde do dia, em outra cidade ou num barzinho da rua. 
Já sei, de cor e salteado, as suas poesias. 
Já velamos o sono de cada um.
Já nos cuidamos, quando muito cansados.
Co(n)fundimos os nossos nomes.
Já dormimos nos beijando. 
Perdemos, e as vezes são inúmeras, as horas. 
Todos os dias, recebo suas palavras róseas. 
Todos os anos, em seu aniversário, dedico a ele as minhas melhores e mais raras letras. 
Já perdemos as formalidades superficiais, aquelas que acusam somente distância, 
as pertinentes ainda não, que a admiração não nos deixa dispensar o trato gentil.
Já brincamos com travesseiros e beliscões.
Já nos aconselhamos.
Já nos amamos.

domingo, 24 de novembro de 2013

Porvir


ainda não compensei os convites ausentes,
tampouco estanquei o desejo irrefreado de vê-la invitar-me,
não percorremos caminhos interioranos
nem comparei à piçarra molhada sua pele morena;
ainda não olhamos atentamente o mar, embevecida e demoradamente,
sequer admiramos o ocaso ou deitamos vista sobre o oriente;
não desenredamos todas as curas, também não curamos todas as exegeses;
ainda não a vi afligir-se de cansaço
nem lhe dei a oportunidade de partir em paz;
não recordamos o suficiente, sequer apuramos o tempo da memória;
ainda não viajamos, não cozinhamos juntos, não desenhamos coração no pulso,
não pusemos cria no mundo, não nos abraçamos no dia do aniversário,
não nos despedimos com um volte logo, não nos cobramos presença,
não perdemos por completo a formalidade;
ainda não preenchemos os vazios, não lemos poema de Quintana
ou nada compusemos a quatro mãos, a não ser o futuro;
não nos beijamos sob as luzes de artifício do réveillon,
não segredamos dores, não assistimos a um casamento,
não adormecemos ao som de "Eu te amo";
não acariciamos as paredes recém-erguidas de nossa casa,
não nos amamos na chuva, em noite de quintais.
Ainda não nos convencemos dos contrários
nem desacreditamos da imanência dos acasos;
não tomamos vinho tinto, não mergulhamos com golfinhos,
não viajamos a Paris, não nos preocupamos com as horas navalhadas;
ainda não perdemos as comparações, não arrefecemos o ciúme
ou adestramos a saudade;
não recebemos a visita dos nossos, não dançamos sozinhos no meio do salão,
não montamos álbum de retratos, não fomos ao cinema,
não trocamos carícias diante dos amigos,
não nos presenteamos no Natal;
ainda não ouvimos estrelas, não pintamos nosso quarto,
não nos queixamos das ausências, embora breves;
não levamos um filho ao hospital, não combinamos surpresas,
não adivinhamos frases, não experimentamos as dores alheias,
não tememos o dia seguinte
nem perdemos a fé;
não noivamos, não casamos,
não penduramos na parede da sala de estar
a fotografia de família;
ainda não assistimos a uma apresentação de Alceu,
não cultivamos orquídeas,
não desacreditamos das flores,
não choramos o suficiente;
ainda não tomamos café na cama,
não passamos o domingo no aconchego de uma rede;
ainda não nos livramos dos vícios,
não nos precipitamos no abismo,
não saltamos de paraquedas,
não despressurizamos a cabine,
não nos esperamos no aeroporto,
não arrepelamos as últimas farpas,
não tomamos sorvete de cupuaçu,
não nos medimos a temperatura,
não nos arrependemos de nada;
ainda não permitimos derrotas,
não apadrinhamos ninguém,
não experimentamos as alianças,
não tememos as vias escuras;
ainda não entendemos como o tempo,
tão escasso, tão magro,
existe em função de tudo
que ainda não foi realizado.