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domingo, 7 de julho de 2013

À querida Gleide.


            Se não nos falta encantamento, resta apenas o encontro, aquele há muito adiado pelas desrazões. Ainda subsiste, persistentemente, uma memória que busca, a cada palmo, a delicadeza dos gestos, a alvura, os cabelos trigais, as palavras doces e imerecidas. Estou ressequido por uma série de entraves que a vida, por travessura, imputou-me. Nada não. Haveria, pois, dor que se estendesse tanto que não fizesse crer na cura, no alívio? Que a sua paz, a que neguei, a que inexplicavelmente persiste em velar-me, ainda que ao longe, que essa paz chegue logo, mansa e didática, com a mesma leveza de seus dedos sobre minhas esperanças.


terça-feira, 2 de julho de 2013

CARTA DE AMOR


CARTA DE AMOR FICTÍCIA, COMO NUM EXERCÍCIO DE ESCRITA E SENTIMENTALIDADE. 

               
              Querida ......................................, 
              Tuas ausências, estranhamente, são o motivo condutor das horas que aprisionam os dizeres mais secretos. És a íntima razão das páginas em branco. E teu corpo silente faz da memória um atracadouro sem embarcações. Há algo sanguíneo em tua beleza, e a própria criação subsiste por teus instantes de desapoderada euforia. Em ti, pensamento e palavra unem-se, em um cio, e esta, de tanto êxtase, queda indizível. O que quero ao teu lado é imortalidade.  
            Se te imagino a declamar o que te mascare a dor, é que te quero bem, não como os amantes  de início ou as canções sem rumo; o que te oferto é oração, qual devoto filial e atento. Por tanta fé, exercito, a duras lutas, uma paciência gregoriana. Sei que te libertarás dos clarões que turvam a lembrança e desencorajam os gestos. Deixarás de ser memória e serás encantamento.
               Outras vidas, não as pretendo, a não ser que me haja garantias de que retornaríamos pelo destino que nos une e nos tenta a buscar, secretamente, os desejos mais latentes. Assim é o destino: a  foz do reencontro.
         Serás amiga e amada, fruto de meu tempo de espera; reconhecerás em mim tua absoluta paz. E que as palavras encontrem em ti o descanso necessário. 
                Com o carinho de quem apenas vela,
                .....................................................................................


              
                

domingo, 9 de junho de 2013

O que dizer quando se quer demais?


Certa vez, alguém maior do que qualquer outro ser até então reconhecido pela ciência perguntou:
- O que você quer?
Milhões de respostas depositaram-se sobre aquele instante.

O megalomaníaco diria: Quero o mundo, pra começar!
O idiota diria: Quero nada não!
O saudosista musical diria: Eu quero uma casa no campo...
O cientista diria: Quero uma cura!
O hipocondríaco diria: Quero uma aspirina!
O monge diria: Quero uma revelação!
Clarice diria: Quero o instante entre a palavra e a dor...
Tom Zé diria: Quero a métrica mania de não querer métrica...
Dominguinhos diria: Eu só quero um amor...
Bandeira diria: Quero ser amigo do rei...
O motorista de ônibus diria: Quero todos os sinais verdes na próxima viagem!
O compositor diria: Quero conhecer Betânia.
O Pequeno Príncipe diria: Quero um amigo e mais nada.
O misantropo diria: Quero matar esse Pequeno Príncipe.
Ferreira Gullar diria: Quero um poema que deixe marcas profundas...
Pessoa diria: Quero o querer dos outros e os quereres de mim...
Uma pessoa sem identidade diria: Quero ser um dos Pessoas!
O exotérico diria: Quero um instante entre o signo e o ascendente.
O mago sem grana diria: Quero uma passagem para Machu Pichu. 
Raul diria: Quero ter o direito de morrer e de deixar morrer...
O professor diria: Quero que as férias cheguem!
O garçom estressado diria: Quero que as férias não cheguem!
O agente funerário diria: Quero que morram!
Vinícius diria: Quero outra vez ter com Tati...
O capitalista diria: Quero sete segundas-feiras por semana!
O mendigo diria: Quero qualquer coisa, pelo amor de Deus!
O desesperado diria: Quero uma chance de partir sem dor...
Machado diria: Quero esquecer as negativas que dei de partilhar...
Jezabel diria: Quero distância dos cães!
Macbeth diria: Quero a sombra que passa, que pode ser ou não ser...
Batman diria: Quero que o comissário me dê uma folguinha.
Patativa diria: Quero então, sinhô dotô, dizê que também sou gente...
O petista diria: Quero provas! Quero provas!
O estudante diria: Quero tudo, menos provas!
O ratinho apaixonado diria: Quero a gatinha, entre aspas, do bueiro vizinho. 
O beatle diria: I want to hold your hand. 
John diria: I want to go away. 
Yoko diria: I want John.
O surrealista diria: Quero uma zebra em chamas saltando os muros do templo.
O religioso diria: Quero que Deus salve a todos, desde que comece por mim.
O ateu no leito de morte diria: Quero, meu Deus, dizer uma coisa...
O ditador diria: Quero impor minha lei ao povo.
O democrata diria: Quero impor meu povo à lei.
Bill Gates diria: Quero que as ruas e as praças acabem de vez!
O namorado diria: Quero que nossos olhos jamais se desencontrem!
O traído diria: Quero retirar tudo que disse!
O apresentador sensacionalista diria: Quero uma vítima, um culpado e algumas balas.
Claudio Nucci diria: Ai, eu quero, quero tanto que você me aceite do jeito que eu sou.
O covarde diria: Quero ir embora!
Meu pai diria: Quero a cadeira na calçada e o rádio de pilha.

Então eu disse: Quero paz!
O coração, se houvesse, diria: Quero você...



domingo, 2 de junho de 2013

Um dia, uma rosa



          Deixe-me, rosa madrigal, acordá-la
          mais uma vez, às três, às dez,
          ao findar da luz do dia;
          aguce as vistas sob esse mausoléu
          ornado de sonhos e lanças luzentes,
          que é domingo ainda, e as crianças adormecem.
          Livre-se da fadiga das horas impenetráveis,
          esses arcabouços de sentidos e mágoas
          vigiados por ponteiros farpados.
          Preserve as retinas, dispa-as dos amarelecidos
          e contemple o sol que ressurge lívido,
          debulhando os horizontes de outrora.
          Não lhe ofereço redomas ou podas outonais,
          apenas caminho sossegado em sua direção,
          sem o encargo de cativar,
          ainda que, na memória, seja
          de suas pétalas devedor,
          de seus espinhos cativo.
          

domingo, 26 de maio de 2013

apenas sem razão



Preciso descobrir urgentemente
quem sou, 
de que gosto,
o que me oprime,
o que me excita ou desanima,
o que me resta ou sobra,
o que me grita ou sussurra,
o que me cura ou desmente.

Preciso ser inconsequente,
e doar, e chorar, 
e escrever sem testemunhas,
e mudar de endereço,
e mergulhar no vazio,
e aflorar no estio,
e viver do amor ausente.

Estarei preparado
para me conhecer de fato?

Frio na barriga:
Sou eu a esperar ansiosamente
o momento de ser finalmente
apresentado a mim.

domingo, 19 de maio de 2013

A memória e as chuvas



          Chove. Uma chuva desarmoniosa, ora desesperada, ora levíssima. Em nada lembra as chuvas de outros invernos, as surpreendentes chuvas de março e abril, encantadoras por sua onipotência. Chove. Sem encantamento. Apenas a chuva, concreta e esparsada. 
              Nasci em um maio chuvoso. A chuva, pelas feéricas histórias de minha mãe, acalmava-me como se me embalasse. Um pingo de gente arrebatado, esbugalhado diante daquela profusão de cinza, vento e água, muita água, e eu tão pingo quanto os que me tocavam levemente o rosto. Essa chuva não é como a de hoje. Chove. Sem abstração. O que vejo remete a uma pintura neoclássica, de traços firmes e tons rigorosamente sobrepostos, construindo um painel distante, sem nada que inove. 
           Molecote agora, as chuvas de antigamente traziam consigo pacotes e mais pacotes entupidos de traquinagens. Pelas ruas sem betume formavam-se corredeiras que, aventureiros que éramos, enfrentávamos com ar de conquistador espanhol. Dezenas de meninos sapateando sobre as enormes poças, diríamos piscinas olímpicas, exercendo, sem fatalidade e com imensa destreza, a plenitude da liberdade. As biqueiras das casas, se não me esqueço, transformavam-se em quedas d'água a fazer das Cataratas do Iguaçu um igarapé morno e sem graça. Éramos nautas de primeira estirpe, capitães de fragata, príncipes submarinos. Olha o torpedo! Seguia-se uma estrondosa explosão, e o encouraçado afundava;  canos, latas, flores de bananeira, e a esquadra, aos poucos, se agrupava, pronta para mais uma missão suicida em mares nunca navegados. Chove. Da forma mais meteorológica possível, como previu a moça bonita do telejornal. 
           O tempo das primeiras namoradas havia chegado. Com ele, as chuvas. A praça da delegacia abarrotava-se de jovens em ebulição. Domingo à noite, findada a missa, corríamos para lá, à procura de qualquer coisa que nos distraísse das rotinas. Em uma dessas, além dos habituais maneirismos de praça, surgiu uma figura terna e desengonçada, como a própria juventude. Atarracada, viva de olhos, descorada, mas essencialmente lúdica. Deu de sorrir. Três ou quatro vezes, se não me falha a memória. Pelas tantas trocas de olhares, nutri a esperança de que aquela criaturinha estranha e doce quisesse realmente ter comigo. Hipnotizado que estava, descuidei-me de tudo, inclusive da tempestade que estava para desabar naquele instante. A chuva principiou sem dó, caindo com brutalidade. Os pingos grossos, gélidos; os convivas da praça logo se dispersaram. Perdi de vista a menininha com quem esboçava um possível romance. Corri para debaixo de uma marquise, onde alguns já se aglomeravam. Encolhi-me num canto. E ela ressurgiu, os cabelos desgrenhados, a pele encaroçada de frio. Tecemos algumas palavras que não me chegam agora com exatidão. Quando a chuva amansou, ela se despediu e, com a agilidade de quem rouba, aplicou-me um milésimo de beijo. Saiu correndo para nunca mais voltar. Chove. Uma chuva sem cumplicidade; impessoal demais para um primeiro beijo.  
                Chove lenta e inconsequentemente. Chove sem propósito que seja. Chove para molhar as coisas, não para avivá-las. As chuvas de hoje têm a mesma consistência das lágrimas de ontem. E este céu, inutilmente acinzentado, parece-me grande demais para chorar dessa forma. 

sexta-feira, 17 de maio de 2013

O surrealismo da solidão



       Enfim só, e que a solidão pouse suavemente sobre os ombros, sorria um sorriso antigo e prometa visitas amenas e rápidas. Que chegue sem gravidade e estenda a mão por acolhimento, despendendo carinhos de colo, como se me houvesse libertado por ressurreição. Que seja tão próxima quanto as noites que se derramaram a fio, pactuadas com a manhã certeira e seus raios impressentidos e fatais. 
          Solidão, essa menina arteira a brincar de gangorra nos ponteiros, deixe-me ressurgir um pouco, mas sem desamparo. Vele pelas minhas rotinas, banhe-se nas minhas palavras exangues, liberte-se na voz ausente, que não mais existirão espaços que a delineiem tétrica. Seja, para mim, o arranha-céu dos suicídios, o décimo oitavo andar. 
          Os dias preenchem-me de um cansaço absurdo, embora familiar. Sinto ainda um amargo na língua, um formigamento que não cessa e que entorpece. Redivivo, alço-me sobre olhares perdidos, como se reconhecesse em cada um deles os pedaços puntiformes de um espelho. É neles que habita a solidão, que me acalenta com suas histórias de trancoso, suas andanças sem glória pelas veredas da alma. Tenho sede. As crenças que me chegam em vultos não me abalam. Preciso sair urgentemente, calçar sandálias alheias, sem promessas; a vida ainda responde, soturnamente. 
          Apenas os primeiros raios de sol me incomodam. A claridade torna-se parte de mim aos poucos. Vejo estrelas que formam um desenho indecifrável. Ninguém à porta; cães ao longe anunciam a glória de um novo dia. Não latem pela minha presença, por certo. Sequer desconfiam de minha existência. Agem por instinto, por capricho. Eu, por dor. 
            Algo me dói. Um grito rouco, aprisionado entre ossos e veias salientes, asperge a memória. Existe um suave tom esfumaçado que, em vez de ocultar, decifra. Quais artes a solidão reserva para esta noite? Não seria eu perito o suficiente para me esquivar dessa doutrinação chinesa? 
              Estou ali, ao lado de meu pai, suplicando uma última bênção. Meu filho dorme da forma mais serena. É com ele que quero ter, ainda hoje, no paraíso. Ouço gemidos. As aves lançam-se sobre os castiçais. A sombra das velas descreve figuras distorcidas. Uma delas me é íntima. 
              Só, desembrulho presentes. Os papéis laminados embelezam futuros tão artificiais quanto o clarão que me cega. O sol bate violentamente nas lâminas do papel. O calendário está na cozinha, e eu sinto imensa preguiça de ir até lá para arrancar-lhe as páginas que já não servem. Comprei sapatos novos, embora os velhos ainda me caibam. 
           O sono me abate. Desenhei algo na parede com o dedo indicador. Um olho, uma lágrima. A solidão continua aqui, ao meu lado, como se me esperasse sair de um estado mórbido de sonolência profunda. Sei que pretende uma paga. Um dia, quando sono não mais houver, honrarei todas as dívidas. Por enquanto, a letargia. A solidão me conta histórias de viagens. Algumas delas são tão claras quanto o dia que, pelo olho mágico da porta, vejo chegar.