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domingo, 11 de abril de 2010

SONETO DO AMOR ANDRAJOSO

Quando, em tudo, espanto não mais havia
e as faces modorrentas se engelhavam,
a flor sem zelo de que me falavam
irrompe estúpida, por picardia.

Era torpe, decerto, e fugidia,
antítese de todos que a miravam,
alimentada pelos que a negavam,
descrente do tempo, apenas sorria.

Porém nesse sorriso exasperado,
cercado de delicada amargura,
mas eivado de uma turva esperança,

mirei, em mim, o que se fez sagrado:
na indecência daquela criatura
colho o sol, sem medo, feito criança!

terça-feira, 23 de março de 2010

AS SOBRAS, DEIXO-AS AOS QUE SOBRARAM

Amiga, deixo-te um mundo de inocência,
eivado de uma inconsciência necessária.
Posto que me tenhas em tempo incerto,
o rio que pereniza tua infância sangra-me o passado.
Amiga, por tua presença ergo um vão,
teço um véu que suplante tuas moralidades:
ego sum qui sum, inquiro-te e abrevio-te,
que não és tangível.
Amiga, como por paga, engulo-te, porque em mito
insurjas-te contra os de tua grei.
Se te contemplo, é por esquecimento,
que nas vincas de teu rosto vinguei um campo,
onde reencontro adormecida tua sede de partir.
Amiga, hei de ser bálsamo que te esfolhe um sorriso.
Que mendigação!... Que mendigação!...
– Se me não sobra tempo, resta o sonho.

A ENGENHARIA DO CORPO

Corpo, rude embarcação,
diz-se manso, se se estende
à praia, arfante, intentoso,
que se crê gozo: – Demência!

Reconheço todo palmo
dessa dessedenta máquina,
inexpugnada em parte,
movediça a cada lavra.

Delimito suas curvas
como quem ora no altar:
Com zelo, dou-lhe alimento,
penso tê-lo engaiolado.

Qual nada! Viro de costas,
eis que se vai arrastando
à procura de algo novo
que lhe arrefeça o instante.

- Corpo ingrato, que buscais?!
Liberdade, arte da pele,
ou, quem sabe, um outro asco,
que vos purifique e cegue?

Compilo seu movimento,
ardo, que assim ele vive,
agarro-lhe as hastes, ossos,
sinto-lhe o pulso, declive.

Maquino prazer, desarmo,
desoriento-o, encarno,
cravo as presas, que é de sangue
que ele tem necessidade.

Perfuro-lhe o ventre, pedra
arredia, veio fulcro,
reeduco-lhe os sentidos,
e tudo que vejo é túmulo...

Algo nele é latente, tácito,
e mente, que o céu exposto
confunde lágrima e êxtase:
- Tendes direito à escolha?

Sois corpo, vindes do fogo,
e em vós reside a essência
de tudo que é vário e cálido
e carne. Sois a doença!

Lânguido, recolhe as velas,
alça-se, dá-se ao degredo,
mira o falo e nele imprime
a nódoa do recomeço.

Diz-se amante, como antes,
sem malogro, sem tropel,
mas falta-lhe o estampido:
prazer não há, senão fel.

E dele (o prazer) escorre
a verdade, antivereda
da inquietude amorosa:
- O que é feito da centelha?

Se não me mente, não ama,
que pureza em demasia
vira ilusão. Mãos alquímicas
me arremetem à afasia.

Cartográficas mãos: máquinas
corrediças, incuráveis,
impuras (que assim são todas),
porém – quase sempre – atávicas.

E os joelhos semoventes
já não se dobram, ariscos,
que de longe se pressente
a Sibéria dos meniscos.

Das ancas, pouco me lembro:
Periódicas visitas,
desabrigo, desconforto,
estopim de tantas brigas.

Quando lhe recordo o ventre,
sobrevém-me um estertor,
qual casamata inimiga
a abrigar o desertor.

Corpo, pele, extremidades,
tudo é um porque são várias:
nenhum assume que as partes
dilatam gozo e penúria.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Depois de enxugar umas dez vezes o suor da testa, peguei-me a pensar em uma pá de coisas. Matutei sobre as contas por pagar, mas logo percebi que não vale a pena gastar pensamento com cifras sem razão. Num átimo, parti rumo às pessoas que passaram por mim, mas sei que o passado é como uma vela acesa a iluminar vãos que precisam muito mais de escuridão do que de qualquer outra coisa. A memória nessas horas é tão inútil quanto um retrato antigo de um grande amor que, de tão amarelado – o retrato e o amor, é preciso apertar os olhos até quase cerrá-los por completo para poder enxergar algum esboço.
Decidi, por pura falta de opção, voltar o pensamento para o que verdadeiramente sou: professor. Por que ser professor? Que bênção estranha é essa que por vezes se confunde com carma? Há quinze anos, quando comecei a lecionar, se não havia as respostas, é porque não sabia como formular as perguntas certas. Estranho é que, neste exato minuto em que escrevo, suponho não existirem perguntas certas sobre isso. O que faço é dar aula. Alguns puritanos, ao ler essa declaração, podem dizer que professor não dá aula, ministra-as. Puro jogo de palavras. Outros, os radicais, diriam que professor que é professor não dá aula, vende-as por bom preço. Tolice sindical.
Como vender o conhecimento? Melhor mesmo é dar aula, ou melhor, doar. O que fazemos é essencial demais para ser vendido ou formalizado. É, sobretudo, uma doação, um ato de abnegação, uma forma de pensar o outro como um embrião de tudo que se possa chamar de esperança. Sim, somos portadores do vírus da esperança. Não é tão contagiante assim, a bem da verdade, mas existe.
Professores são teimosos e turrões. Afinal, lutamos contra inimigos intransponíveis, ininteligíveis, portando gládios de cujos ápices emanam não tinta, mas conhecimento. Os elmos, de capa e contracapa, nos tele-transportam a universos vários de letras, números, passados e futuros. Nas mãos de cada professor, existe um tempo de agir e um tempo de cansar, como ocorre para qualquer ser humano. Acontece que, quando o cansaço chega, abate, basta um olhar aprendiz, um braço em riste à procura de algo novo, uma voz duvidosa de quem busca algo maior do que as próprias limitações; quando alguém, meio sem querer, agradece por todas as lições de escola e de vida, nessas horas, o cansaço se sufoca, e a ampulheta dá mais uma volta. Não somos imortais, e, se fôssemos, teríamos o discernimento necessário para entender que imortalidade não é dádiva, mas sofrimento. A questão é que agimos de tal maneira, que parecemos acreditar numa certa imortalidade, não a do corpo, mas a da alma e do coração.
E somos, principalmente, perigosos. Já derrubamos doutrinas, unimos países, ignoramos fronteiras, instituímos teorias nunca dantes navegadas. Os governantes nos temem, pois sabem que temos em nosso poder o que lhes é mais caro: seus filhos. Os pais nos sobrecarregam, pois inventaram que nós temos que ser pai, filho e espírito santo. Os detentores da razão nos odeiam, que não há ninguém que os questione, a não ser os professores. Que importa! Ser professor é mais que qualquer visão teórica ou lúdica. Ser professor apenas é. Pronto, encontrei a definição. Sou professor, por isso sou neste mundo. Um dia falarão do que ensinei, e nas palavras firmes de meus alunos haverá um sopro que se confundirá com saudade.
A página em branco. Sabe-se lá quantos desafios uma simples página em branco nos impõe. Às vezes, paro e espero chegar de algum lado a vontade de preencher espaço numa folha em branco. É que não creio em inspirações. Para mim, basta vontade, a mesma que se tem quando, na hora aprazada, respiramos fundo e, num único fôlego, qual náufrago, dizemos o que temos que dizer, que magoe ou não, que entorpeça ou não. Escrever é, sem dúvida, um dos atos mais imprecisos de minha vida. Sempre deixo para depois. Se estou ocupado, não escrevo. Se nada tenho para fazer, não escrevo, já que escrever seria negar a condição inicial, a de não fazer nada. Por fim, escrever demanda tempo e dedicação. O bom é despejar no papel o melhor de nós e dos outros. O ruim é que nunca é dessa maneira. Menos esperamos, o mais obscuro de nós se revela. Por vezes, tive vontade de falar sobre temas mórbidos. Fascina-me a morte. Penso nela como uma carícia, um alento, um seguro de sobrevida, se é que me entendem. Ao contrário do que possam pensar, não me permito acreditar em vida após a morte. Sou dos que crêem ser possível morrer em vida. Por isso, se uma porta deve ser aberta, abra. Se uma palavra é para ser dita, diga. Se uma porrada merece ser dada, esquive-se, e revide, sendo o caso. Nada cristão, por certo, mas extremamente realista. Sim, sou cético. O palpável é o que me move. Não concebo ter que, do nada, extrair um pseudo-tudo. Poeta nunca fui, é por isso. Ter composto um ou outro verso, decerto imitações dos que realmente merecem aplausos, não faz de mim um arauto da poesia. Assim, condiciono o que escrevo ao simplório, daí alguns se reconhecerem nas palavras que inconstantemente vomito. O mundo é simplório demais. Qual de nós irá negar que somos como velas, presas a um castiçal, esperando o primeiro vento ou a derradeira tempestade. Um sopro mais forte e pronto. Reconhecer a própria fragilidade não é grandeza, mas um passo importante para entender que, mesmo limitados, somos capazes de coisas dignas de um semideus. Não somos os únicos do universo com tal capacidade, por certo. Uma formiga, uma reles formiga, na sua pífia condição de formiga, é capaz de suportar um peso dez vezes superior ao seu próprio. Não nos comparemos a formigas, até porque perderíamos feio. Não importa. Falemos sem desesperanças. Quero escrever sobre felicidade. Sim, a despeito de quaisquer descrenças, o importante é ser feliz. Em minhas aulas, muito alardeio a felicidade. Pergunto sobre a felicidade alheia, que me chega como algo a ser analisado em laboratório. Deve existir um gene que nos leva a buscar a felicidade a todo custo. Digo que sou feliz. E isso basta. Se parecemos, somos, ainda que, no íntimo, não sejamos. Sorrir é o segredo. Um dia alguém me disse que o sorriso é o cartão de visitas da alma. Desde quando alma precisa de cartão de visitas. Alma precisa de alma, de sobriedade. Sorrir é sorrir e ponto. Quem solta uma gargalhada não me revela nada além de estridência. Felicidade em excesso é pura elipse, uma espécie de esconderijo, uma forma de esconder-se ao mostrar-se para todo mundo. Pois bem, a felicidade rasga agora meu espírito. Ouço pássaros, passados e passos. Se os ouço, não sou poeta, senão alguém a quem, por maldição, foi dado o dom de ouvir o inefável. Ao menos penso assim. Como é tolo. Renego a poesia e, ao fugir, vejo-me entrelaçado nela. Até agora não sei bem sobre o que escrever. Se assim é, melhor não fazê-lo. Dessa forma, tudo que contradiz a um só tempo revela. Melhor então as reticências...

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A REIMPRESSÃO DO CORPO NO ESPELHO

O tempo apenas denota, tempo dicionário,
ulcera as palavras, que se escondem
entre Ele (o tempo) e o espelho, moldura vegetal,
primitiva, de terraplanar a carne,
insinstentemente polida, metalizada.
Trata-se de reconhecer o pulso,
apnéia dos olhos, conta-giros de ar,
bruteza antiga do barro retornante ao que é do barro,
e na sua não-imagem ambígua
vê-se o olho d’água, grotão-dos-minutos –
a cada gota cresce um veio
que define e resiste adensado, rupestre – tempo pétreo.
O espelho é a hipérbole do tempo,
desencorpa o essencial, a despeito do corpo
(igualmente essência), inaugurante das coisas
desditas, reditas; deita-se intumescido
e melindroso sobre as frases, macera a sintaxe
de tudo que se diria se não fosse Ele (o tempo).
As horas pendem-se em cordas finas,
des-ordenando os movimentos, infinitivando:
ao tempo, não importa o clamor, senão o clamar,
o cansar, o limar das pernas, das orelhas;
ininterrupto é o intento de acordar pela imagem,
irrefletida e agressiva, que a criança no espelho
se reconhece, os outros não, estes se encolhem,
reduzem-se à taipa: o único espelho que apetece
é o que emoldura agônico o rosto aberto
do passante ao longe.

QUADRILHA PARA RECORDAR

O que me compele:
não tua presença,
senão a lembrança,
vestida de afeto,
que eras pequena,
assim sem caminho,
tão longe de tudo,
tão quase moleca,
às vezes encanto,
nas outras, desejo.
Algo me condena
ao ver o teu rosto
de novo irrompendo...
– De novo! De novo!!!
Não sei se de longe
te aprumo tocaia,
te empurro ao passar,
nem olho de lado,
faço por vingança
fingindo um acaso.
É pena que agora
estás noutra e noutro,
não posso mais nada,
somente esperar
se não no decênio
de que me falaste,
talvez num desastre,
quiçá tempestade,
chuva de granizo,
mandinga de tia,
ungüento de feira,
um resto de mar.
Que faço? Te espero?
Te deixo passar?
Te castro, te engulo,
te aborto, te cuspo...
qual nada, vacilo!
Se penso, desisto,
se intento, me amanso,
sou pouco demais
com tempo de menos,
achei ter virtude,
pensei te encantar:
– Já era! Já era!
De tudo que faço,
de ontem, de hoje,
só fica o desejo,
mas esse é tão besta
que chego a te ver
casada comigo.