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domingo, 11 de outubro de 2015

SOBRE SER PROFESSOR


         
          Nunca fiz planos de ser professor. Aconteceu. E já faz vinte anos que acontece, todos os dias. É uma rotina exaustiva, mas desafiadora e, sobretudo, digna de muito orgulho. Experimento diariamente os entraves da mais intrigante das artes humanas: a convivência. E decidi, por razão qualquer, que esses momentos poderiam ser mais do que simples encontros furtivos. É dessa necessidade, ou quase angústia, de tornar as horas menos insignificantes que ferve em mim a vontade de ser professor. 
         O que dizer depois de tantos anos de lida? Não escolhi fazer o que faço. Fui escolhido. Como estabelecesse um pacto, ingressei nessa profissão com o afinco dos que trazem nos olhos algo muito próximo de paixão. Aos poucos, acostumei-me com a sala de aula. O barulho, as brincadeiras, as pequenas maldades, os distúrbios de sono, as desculpas esfarrapadas, os dizeres mais nobres ou o palavreado mais vil, tudo isso se tornou meu de alguma maneira. O que decidi ter como profissão é exatamente o oposto do egoísmo. Sem saber o porquê, assumi os problemas do mundo. O tímido no canto da sala, olhos pesados de tanto penar pelos erros alheios. A pensativa de cabelos coloridos com suas histórias renitentes e escorregadias. O desbocado e suas mil e uma maneiras de esconder as feridas mais profundas. O displicente, abandonado em seus desenhos, rabiscando mundos e tornando-se rei. A rebelde e sua incessante luta contra os moralismos que lhe impõem tantas dúvidas. Todos eles me interessam, me intrigam. E são muitos, meu Deus, postos lado a lado.
          De repente, depois de tanto tempo como professor, dei-me conta de que a paixão por que tantas vezes fui invadido transformou-se, providencialmente, em um amor sensato e perene. É uma pena. É que o amor, às vezes, nos dá uma sensação muito perigosa de domínio daquilo que temos ou fazemos. Uma impressão cruel de segurança que, mais cedo ou mais tarde, leva à acomodação. Ainda consigo lembrar das vezes em que, antes de entrar na sala de aula, o estômago embrulhava e as mãos suavam. Sinto falta dessa inconstância. 
          Dia desses, deram de me chamar de educador. Sou professor. Em outras circunstâncias, poderia ser apenas uma questão de terminologia, mas, segundo consta, existe uma diferença. Até aí, nada de mais. O problema é que essa discrepância faz com que ser professor pareça algo medíocre. Bom mesmo é ser educador. Um sacerdote que abandona tudo em prol de sua crença, que se doa caridosamente aos seus afazeres diários. O professor é aquele que se revolta com a carga horária desumana que precisa enfrentar diariamente, que reivindica um salário condizente com sua dedicação, que sai às ruas gritando palavras de protesto, que é chamado de vagabundo. O educador está bem acima disso tudo, que ele não paga contas, não tem família, não compra livros, não come. Não quero dizer com isso que não haja algo de mágico em nossa profissão.  Entanto, a despeito de qualquer idealização, o que queremos é ser valorizados como profissionais da educação. Como professor, tenho o direito de questionar o sistema no qual estou inserido. Dessa forma, quem sabe, as coisas comecem a mudar. Um educador estaria ocupado demais com seus aforismos para se preocupar com isso. 
         É uma pena, por certo, que o ofício de professor pareça fadado à extinção. A maioria dos jovens não se interessa por seguir carreira no magistério. Penso que uma parte da culpa disso resida em um sistema hediondo que supervaloriza as carreiras ditas de elite e desestimula aqueles que tenham a ousadia de pensar em viver da educação. Agora, um outro grande responsável por toda essa depreciação é a própria escola. Ora, é claro que o aluno percebe o quanto alguns professores penam para encarar certas situações na sala de aula. Além das cobranças excessivas, as burocracias, a correria, a baixa remuneração. Para completar, nas feiras de profissões promovidas por muitas escolas, por incrível que se possa parecer, a profissão de professor não é representada. 
        No final das contas, ser professor no Brasil não é uma tarefa para qualquer um. É preciso ter paciência, coragem, um bom par de pulmões, joelhos fortes, disposição sobre-humana. Sigo por esse caminho há vinte anos. Apesar dos pesares, eu não saberia viver de outra maneira. Não sou desses que tiram fotos a torto e a direito para mostrar o quanto são amados. Não me considero subcelebridade ou algo do gênero. Apenas saio de casa, todos os dias, disposto a dar o melhor de mim para que os alunos possam reconhecer o quanto respeito o que faço. Na maioria das vezes, penso que isso acontece. Se estou diante de um único aluno, como já aconteceu, ou de milhares, como também já aconteceu, tenho certeza de que, de minha parte, nunca faltou o estampido necessário no olhar. Certa vez, recebi uma mensagem de alguém que dizia não lembrar meu nome, mas, por causa de algumas aulas minhas, tinha decidido cursar Letras. Quero viver na esperança de que essa pessoa, um dia, se tornará professor e outros cursarão Letras por causa dela. Saber que fiz parte disso é o que me move. Meu nome é o que menos importa. Sou professor. 
        

domingo, 26 de julho de 2015

Novelos




Por amar demais, os instantes passam
E as horas aspergem as impurezas
Com a essência da mais pura certeza
De reparar a chama dos que amam.


E assim, sem medo, os corações gritam,
Entre mendigação e realeza,
Desamparando a incorpórea presa,
Ofertando pouso aos que não descansam.


Vem a noite, e todo grito emudece:
Os ponteiros são antigos novelos;
O tempo rege discretos sinais.

Porém, antes de tudo que anoitece,
O corpo reage aos brandos apelos,
Sem estranheza - Por amar demais!








segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

O abraço imprevisível



        Minha relação com a vida é, ao menos em boa parte das horas, um tanto desastrada. Diferentemente de outros por aí, costumo seguir pela antiderrapância das calçadas baixas e recém-capeadas, perscrutando com a ponta de uma bengala imaginária cada centímetro possível para não encontrar surpresas no caminho. Entanto - talvez por ordem desse apuro excessivo - nessas viagens aparentemente seguras, é inevitável que o imprevisível irrompa. Aliás, não menos pelas vezes de um bom jogo de palavras, nada mais previsível que essa inevitabilidade.
       Uma das vezes em que experimentei essa ruptura foi no mais corriqueiro dos acasos. Era começo de tarde, e o cenário, uma rodoviária: o entra-e-sai de sempre, bagagens amontoadas, crianças correndo, outras chorando alto. Uma rodoviária.     
       Ao pino do calor, eu aguardava a condução que me presentearia com infindáveis quatro horas de viagem. Chegava a duvidar do relógio, que insistia em apenas dez minutos de atraso do ônibus. Impaciente, começava a ser tomado pela sensação de que não deveria estar ali, de que alguma coisa poderia dar errado - tantos acidentes noticiados! sei não, mas, se pudesse escolher, não gostaria de morrer assim, num ônibus de viagem, uma batida violenta, um incêndio, uma capotagem, ninguém escapa! morte coletiva! parece casamento coletivo, perde a solenidade, vira algo impessoal, um número: não se pergunta quem morreu, mas quantos!
       Então, de alguma verdade ainda não dita, ele apareceu. Um homem apenas, pedindo trocados a um e a outro, entornado em muletas, arrastando-se entre os que por ali, assim como eu, esperavam impacientemente. Até aí, nada de se registrar, mais um desafortunado tentando a sorte com a boa vontade alheia. Mas ele não pedia apenas. Ele contava sua história. A voz quase não saía, mas aproximava-se o quanto seu interlocutor permitisse para poder se comunicar, mostrar suas feridas, algum receituário médico, caixas de remédio.
       Entre as gesticulações e a afecção da  voz, alguma coisa se entendia. Era filho de qualquer cidade interiorana, tinha fome, apanhava dos seus pares, sentia-se mal, dormia pelas sarjetas, não bebia. 
       Muito mais do que um trocado que fosse, ele queria mesmo era conversar. O problema é que ninguém se propunha ouvir. Dar uma moeda, uma cédula de pouca monta, tudo bem! agora, disponibilizar tempo, ter atenção a uma criatura que não passa por invisível pela ousadia de insistir em contar sua vida, isso já é demais!
         Mulheres torciam o rosto, como num entojo. Pareciam incomodadas com o cheiro. Não o que se capta pelas narinas, mas o que é despertado pelo que se vê, ou melhor, pelo modo como se compreende o que é visto. Não seria, pois, o odor, mas o que aquele homem representava naquele instante. Era o fartum da miséria, que interrompia as conversas, mudava os assuntos, desviava rotas! uma miséria que solicitava atenções, que registrava sua origem, que relatava seus sofrimentos!
          Homens não desertavam de seus lugares. Irritadiços, mantinham-se firmes, fingiam ter atenção, despejavam trocados. Repeliam com veemência qualquer insistência. Se recebeu moeda, o que mais quer? o que mais pretende com esse palavreado todo? 
         Foi quando o pobre homem, já despejado pela maioria, estancou nas muletas por uns minutos. Tirou o boné e o suor da testa. Inevitavelmente, amunhecou. 
        Mas o imprevisível veio e tinha bigode. Chegou-se manso, sem sustos iniciais. Estirou a mão, não para dar moedas. Queria mais. Ouviu atentamente as histórias do outro, acompanhou-lhe os gestos longos, vasculhou-lhe as feridas. Tudo isso sem ares de surpresa. Por fim, com o ônibus já na plataforma de embarque, aproximou-se do senhor de muletas e abraçou-o sem pressa. A partir dali, eles não mais pertenciam àquele lugar. Eles se pertenciam.
         Não se poderia prever esse abraço, como não se prevê a forma que a nuvem vai nos trazer daqui a alguns minutos ou os desenhos que a água da chuva deixa ao escorrer pela parede do quintal. O certo é que, para essas imagens existirem, tem-se que acreditar nelas, buscá-las, imprimir a elas um necessário toque de realidade. Assim também deve ser feito com os que nos estendem as mãos. Às vezes - apenas às vezes - é preciso romper a casca etérea dos planos distantes, das pretensões vagas, dos sonhos e vestir-se do alheio, sem distanciamentos acadêmicos ou compaixões monásticas. Talvez, ao mundo, um abraço baste para iniciar uma revolução.
               

             

quinta-feira, 31 de julho de 2014

estranheza

A minha Casa é guardiã do meu corpo
E protetora de todas as minhas ardências.
E transmuta em palavra
Paixão e veemência
Hilda Hilst 


         cultivo algumas familiaridades com o tempo,
         dou-lhe de beber e, quando sobra, de comer,
         deixo-o teso, ereto como num primeiro abraço,
         finjo não tê-lo, importar-me, reportar-me,
         traduzo-o em saliva, em cheiro acre,
         virginal, adenso-o.

         minha parede não suportaria um Van Gogh,
         minha fibrose septal prefere o desvelo de ser
         uma cicatriz em forma de estrela
         do lado esquerdo do coração,

         minha biblioteca é módica, de papel apenas,
         os filmes que coleciono não são cult, mal sei deles,
         senão os poucos trechos arremedados na memória,

         minhas mãos não são grandes o suficiente 
         ao ponto de fazer a menina levada dormir,

         não sei dos teóricos, nem eles de mim,
         meus triglicerídeos estão em pleno sangradouro,
         meus músculos faltosos rejeitam exercícios,
         nunca senti o peso de uma arma de fogo,

         minhas pernas não se enrijecem por nada,
         nunca entrei num avião ou num trem,
         não sei mais dos livros que o suficiente,

         deixo a quem queira a tarefa de escolher nomes
         para os que ainda não os têm
         por não terem ainda chegado,

         não saberia me comportar em bistrôs, num petit déjeuner  
         ou dîner,
         meu paladar é excessivamente pífio, piegas,
         não me acomodo em grifes,

         minha sobrancelha de nada vale que me imprima ares de coerência,
         nunca errei suficientemente ao ponto de ser  perdoado por vezes a fio,
         sustento mimos do presente, 
         do passado, apenas colesterol em demasia,

         se vou, não mais volto, que não resguardo voltas,
         não curvo o joelho por formalidade,
         à distância, minhas falhas ampliam-se,

         costumo perder sonhos, exceto o que me traz a imagem
         da mulher feliz ao lado de quem ela, por disposição, amou,

         sinto imensa falta do torpor, do cansaço morno dos bares,
         da fumaça que, por me queimar, me salvava,

         não procuro a fonte das palavras,
         que, para mim, as origens corrompem-se na busca,

         ninguém mudou a vida por minha causa,
         não me encolho por amor ou raiva,
         não ensinei nada verdadeiramente inesquecível a ninguém,
         tenho medos também, meu tempo sempre foi agora,
       
         acredito, tolamente, estar na palavra o motivo de todas as ações,

         nunca me aceitaram os defeitos ou me relevaram os erros,

         sou tedioso como o tempo
         que segue em passos desastrados:
         vez em quando a hora suplica um afago,
         ainda que por fingimento.
         

sexta-feira, 11 de julho de 2014

Crônica a perder-se no tempo



          Em outras ditas, perceberia o tempo como uma injeção mal aplicada na veia. Um inchaço, uma gangrena. Chegava a ouvir as desditas das horas, ter com os ponteiros intermináveis conversas, muitas vezes noturnas, campeadas por lâminas afiadíssimas e persistentes delicadamente postas sobre a pele. Os dias irradiavam uns longes de esperança que incomodavam, e tudo que restava das páginas rotas do calendário era uma solene presença do que não se viveu. 
           Ainda assim, pelas conveniências dos instantes, confortava-me a ideia da antecipação, de poder, paulatinamente, estrangular a fonte de todas as dores. Por essa convicção, dei-me ao trágico e descobri na fumaça lenta dos cigarros a inspiração que me faltava para encarar os dias da maneira mais covarde possível. Entanto, nesse bordado às avessas, criava as mais falsas circunstâncias de amparo, o que, de certa maneira, devolvia-me algum prazer. Se os tantos anos aspergindo as sabe-lá-quantas substâncias tóxicas do cigarro abreviariam abruptamente o porvir, os momentos mais pungentes da criação nasceriam desse sfumato. Palavras e mais palavras escorreram pela lividez das virtualidades, que algo havia por escrever, embora nem sempre houvesse necessariamente algo a ser dito. O véu alvacento dos fumos descortinava-se à frente, revelando certa aspiração de valentia que, na verdade, não passava de algo como desamparo. Sobreveio uma sensação de brevidade, uma crença de que minha existência estaria limitada aos quarenta anos. Os vícios, pois, aproveitaram-se dessa desesperança e fizeram de mim colmeia. O tempo, por demais curto, cobraria as dores da inexperiência, perpetuaria em meu desânimo as flores amarelas do irrealizável, tornaria os ossos frágeis e a respiração ofegante de cansaço.
            Ironicamente, esse mesmo tempo, arraigado no pleno exercício do esquecimento, é o que me impele a esses devaneios. Em vez de tratá-lo como simples período de duração das coisas, posso tê-lo em outras acepções, como a que é empregada pelos que plantam e colhem, pelos criadores de animais, os que preveem o amadurecimento da vinha, o cio dos vacas. Nesse sentido, o tempo é comensal, oportuno sem ser oportunista. Agrada-me a comparação com a fruta de vez, suculenta e adocicada, à espera de ser devorada. Apesar das intempéries, o que é da estação irrompe, eclode por ser de sua natureza partir a casca, transpor o envoltório. Decerto, nem todo fruto torna-se alimento. Alguns se perdem no limbo, enlameiam-se pelas veredas, tornam à terra e enriquecem o solo. Ainda assim, nesse pensamento, cumprem sua sina de vida. Nem todo ser que rebenta resiste ao caos da existência. Entanto, seu corpo alimentará outros bichos ou servirá de húmus. Esse é o tempo que me apetece.
             Há exatamente um ano, fiz as pazes com o tempo. As horas, outrora lancinantes, sentaram comigo à beira do abismo e, da maneira mais afável, deram-me de ombros, como se esperassem em troca um agradecimento ou, ao menos, uma cortesia. Foi neste tempo de borrasca e calmaria que reconheci Maria, que me veio sem relógio, cingida pela voracidade dos que apreciam as coisas mais simples que o mundo pode oferecer. Em um ano, amei, noivei, casei. Como estivesse escrito, os passos seguiram rumos tão naturais quanto os de uma fruta temporã. Pela primeira vez, a cancela do futuro se abriria, e as Parcas, irmãs fiandeiras, zelariam pelo novelo que me determina o destino. Há um ano, decidimos caminhar lado a lado. Certa vez, Maria me disse que o importante é ter um ao outro, em seja qual for o lugar. Como aprendo com Maria! E o tempo, a despeito da ferocidade, amansou-se. Há um ano, graças à Maria, o tempo me presentou com o amor que sempre quis ter. Há um ano, Maria docilizou o tempo.  

sábado, 21 de junho de 2014

Crônica a bem da felicidade



          Como expugnar o que, na maioria das vezes por pura conveniência, convém tachar de felicidade? Pelos poucos anos que a vida me ofereceu até agora, talvez muitos perto do que ainda me resta, aprendi pouca coisa sobre essa estranha sensação de satisfação plena. O fato é que, para ser feliz, penso eu, é preciso estabelecer metas, ou não, que se danem as metas, mas é necessário ter o mínimo de fé naquilo que, por acasos ou certezas, poderá trazer os segundos de paz necessários ao reconhecimento dessa tal felicidade. 
           Creio que o passo mais urgente para encontrar trilhas suaves que levem à felicidade seja estabelecer um pacto fronteiriço com o futuro. Para isso, é de bom grado romper definitivamente com os acordos do passado, criar vínculos novos e limpar de vez a poeira do tempo que insiste em se acomodar nas gavetas. Para ser feliz, tese minha, tem-se que desobstruir artérias e, em alguns casos, implantar marcapassos. Como diria meu saudoso pai, não pode faltar sangue no olho, coragem de reagir, indignação de ruborizar a face. É como saciar um vício há muito desamparado pela abstinência. 
          Há quem vincule felicidade a amor, à religião, ao encontro, à perda, à esperança. Entanto, melhor mesmo é destinar ao tempo os principais motivos para ser feliz. E o tempo, esse personagem de farsas, caminha lenta e melancolicamente, desliza impressentido pelas horas, em voo brando, como as corujas no nosocômio do velho contista. Às vezes, falta-me tempo de escrever, de doar um pouco mais de atenção ao amigos, de ser pai afetivo ou marido dedicado. Os ponteiros me fogem, riscam os dias como para lembrar que, a cada translação, a vida se esvai, os natalícios deixam de ser importantes, as datas comemorativas perdem o amadurecimento prematuro. Tenho pés e mãos cansados do tempo. Os joelhos, sobretudo o esquerdo, doem. Sinto profundas oscilações de pressão. O tempo me cobra, me enerva. Contudo, foi nesse mesmo tempo, eivado de frentes frias, que me desatei a ser feliz. Encontrei aos poucos, que sempre me dediquei ao exercício da impaciência, razões sólidas para crer na constância da felicidade. O que me veio, muito a conta-gotas, sem vexame, foi como uma exortação do tempo, uma singela advertência de que as oportunidades, essas que vêm e vão num piscar de estrela, existem e merecem ser aproveitadas da melhor maneira possível. 
             Não posso, em verdade, apalpar as frutas de vez de cada pé para testá-las o amadurecimento. Sei das que cultivo. Assim, digo do que me faz feliz. Certamente alguém há de se reconhecer no que exponho. Outros apenas desconhecerão. Devo dizer, portanto, que os pontos fundamentais de minha malfadada explanação sobre a felicidade não se encravam em paredes suntuosas, roupas de grife ou automóveis de luxo. Deixando de lado a pieguice, entendo que, de nada vale a mais ininteligível das mansões, se não é possível tê-la como um lar. Todo lar é erigido sobre a égide da família. Não me contenta uma marca caríssima do mais fino tecido de seda Charmeuse, se o que pretendo mesmo é correr nu pela praia. Isso sim é liberdade. Carros de alta escuderia não me impressionam. Ideal mesmo é uma estrada e uma cabocla com a gente andando a pé. 
             Agora, justiça seja feita, não existe sensação mais eloquente do que a de saber que somos o motivo da felicidade de alguém. Esse é o ponto. Acordar de madrugada para velar o sono de quem se põe ao seu lado, surpreender com uma palavra de abrigo, acarinhar sem esperar nada em troca, utilizar todas as impressões sensoriais para dizer que ama, elogiar, perdoar, recordar, esquecer. Se o tempo é por demais curto, estendê-lo com gestos de carinho e amparo é uma boa saída. Até que mais poderia ser dito, mas paro por aqui. Estou um pouco atrasado. Preciso urgentemente aguar a felicidade das pessoas que amo.  

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Carta à Maria, por seu aniversário.




          Amor,

       Nasço contigo. Passaram os dias em águas tão mansas, tão demasiadamente leves, como dedos de mãe, que me distancio a contragosto e, assim mesmo, alcanço teu cheiro de maracujá. As ruas emolduradas de gentes famintas levam teu nome; por teus olhos, entre ternura e espanto, levantam-se os meios-fios com cartazes e palavras de ordem, que tens a trena da mudança. Tua delicadeza caligráfica ergue-se em letras navalhantes, circuncidando a alma escandalosa dos políticos. Não há discurso, por mais torpe, que em ti não encontre aprumo. 
        Os anos nos abraçam e nos confortam, como se estivéssemos em coma, sem movimento qualquer, sem voz que fosse, apenas a faculdade da audição, o suficiente para manter viva a esperança de um novo começo. Por teus passos, descobri a razão das lendas que encantam, dos mitos sobre os quais se erige o germe do sonho. Nasceste assim, feito sonho. Vieste ao mundo pelo acaso dos encontros e nunca deixaste de regar tuas raízes, nunca afiaste suficientemente o fio do rancor; ainda que sem tempo, ou mesmo razão, não julgaste os atos levianos que sucederiam por correr em tuas veias sangue alheio. Em ti, resguarda-se a sina da compreensão. Por isso mesmo, estreitaste os laços genéticos com atitudes de extrema maturidade, com desproporcional obstinação por orgulhar os entes queridos, com eximia habilidade de mãe, ainda que tão menina quanto os que em ti depositavam olhos lactentes. Aos poucos, teus braços rijos transformaram-se em colunas jônicas a sustentarem os templos onde os teus, cegos ainda, rogavam a um deus desconhecido. Tua face, encantatória e venusta, passou a chamar a atenção dos viventes. Entanto, é em teus gestos de profunda nobreza que os dias se desenham. Apesar da perfeição íntima de tuas carnes, buscaste no rigor da simplicidade os motivos de teus passos. Assim, passaste a ser responsável por tudo que te é caro e, a um só tempo, doloroso. Se não tiveste livros novos, mantiveste a vontade de aprender; se não recebeste o primeiro abraço, conservaste a importância de defender os teus; se não foste presenteada com a melhor máquina, jamais viste o mundo de forma maquinal; se sofreste pelas mãos dos que te prometeram amor, procuraste motivos e não culpas; se o passado te obscurece, lançaste luzes sobre o futuro; se as mãos cerravam-se em tua direção, criaste, por isso, uma nova maneira de cumprimentar; se poucos te guardaram amizade, provaste a eles que não estavam sós; se o tempo empacou, quebraste relógios; se espelhos não havia, descobriste a beleza nas poças d'água, após a chuva; se duvidaram de tua força, aprimoraste tua erudição de mestra. 
           Morena, de traços modernistas, trouxeste contigo o destino de todas as brasileiras. Saíste de tua terra com a mala entupida de dúvidas. Pela janela do ônibus, descobriste uma cidade movediça, eivada de solidão. Tua alma de sertaneja tremeu por um instante. Em teu nome, cultivaste o amparo necessário. Maria. Maria de todas as formas que se poderiam conceber. Maria da Aurora. Maria do Desterro. Maria das Dores. Maria dos Prazeres. Maria dos Remédios. Maria da Esperança. Maria de Deus. Nesse nome, que cinge o destino de tuas ancestrais, percebeste os motivos vários de teu novo destino. No proscênio dessas horas desgovernadas, entrei em tua vida, feito texto antigo que se perde, por descuido, na gaveta da cômoda. Quando notaste o lugar sem vida que te aguardava, ornaste as esquinas com flores russenses, com peixes coloridos; azulaste o céu e estrelaste a noite. Aos poucos, o mundo tornou-se mais familiar. A partir daí, já sem medo, sem tantas dores, propuseste um pacto à vida: virias a ser a primeira, não por vaidade, mas por compreenderes que, assim ocorrendo, poderias amenizar os caminhos dos teus. Choraste porque os grandes choram. Sofreste porque é doloroso plantar em solo arisco. Temeste porque é preciso respeitar o mar antes de singrá-lo. Até hoje, depois de tamanhas batalhas, na sua maioria vitoriosas, trazes a grandeza da fé. 
            Em teu aniversário, Maria, desejo-te banhos de chuva no quintal de casa, manga verde com sal, noites em sonhos macios. Desejo-te palavras de alento, ruas sem sinais vermelhos, coletivos sempre vagos com lugar à janela. Desejo-te um abraço silencioso de mãe, um conselho certeiro de pai, um olhar remoçante de irmão. Desejo-te a hora precisa da amizade, o elogio despretensioso dos mestres, o pelo suave de tua cadelinha Pit. Desejo-te a batida desesperada de um coração surpreendido, a lágrima incontida em um instante de certeza, a cheiro morno do café de tua avó Maria. Desejo-te outra viagem inesquecível, o vinho tinto suave em meio à cerração de Guaramiranga, um banho de mar à noite. Desejo-te um poema de Adélia Prado, uma foto com Lenine, um dedo de prosa com Lula . Desejo-te uma casa de paredes ensolaradas e muitas janelas, uma varanda voltada para o oriente, uma cadeira preguiçosa posta à calçada no final da tarde de domingo. Desejo-te surpresas mil por parte de teus amigos, o contato inesperado de alguém querido há muito distante, as estórias cor-de-infância de teu avô. Desejo-te a seiva mais doce, a praça mais iluminada, o conforto mais insistente. Desejo-te um dez com louvor, o abrigo dos anjos da guarda, a proteção de todas as santas ditas Marias. Desejo-te um mundo sem trevas e fomes, faces sem cores, madrigais sem rimas obrigatórias. Desejo-te muito mais tempo. Desejo-te vida em vapor pleno. Quando não mais por aqui eu estiver, continuarei desejando-te. 
              Feliz aniversário, minha vida.