Amigos leitores que por aqui já passaram

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Feliz Ano Novo


          Noite de reveillon. Centenas de pessoas reunidas à beira-mar. Principia-se uma estridente contagem regressiva anunciante do ano novo.
          10. Um homem distante, renitente, desnudado pelo clarão dos fogos, gira em êxtase, desencontrando seus pares, sacolejando a garrafa de sidra, asprejando com o mundo vermelho e cinza que o comprimia, retomando as dores, o câncer, a quimioterapia, fugira do hospital por algumas horas, o senhor não pode beber, faça o que fizer mas nada de bebida, tolice, o mundo gira, os fogos inebriam, a vida desliza pela garganta suavemente, tem sabor de maçã, tem gosto de irmã, a mãe preocupada, e quando não foi?, os abraços, quem o abraçaria, está só, há muito o tempo o abandonou, eis o desafio, fazer as pazes com os ponteiros, danem-se, o mundo é uma girândola, a música, tons e mais tons, tudo se torna rápido demais, ele cai, e sorri, sorri por tudo que ainda sofreria, sorri pelo que resta, ninguém perceberia sua presença.
            9. A pequena perdera-se dos pais. Um instante para alguns cumprimentos, e a menina simplesmente desapareceu naquele mar branco de gente e areia. A pobrinha chorava. Pela primeira vez, experimentava o abandono. Não sabia o que fazer, estava pálida, derramava-se em desespero. Ninguém a percebia. O barulho ensurdecedor dos fogos abafava-lhe o choro. O vestidinho branco servia-lhe de amparo. Encolhia-se toda dentro dele. Estava só, perdida em um mundo de hienas gritando e rodopiando. O céu, quase sempre hospitaleiro para ela, recheava-se de luzes que hipnotizavam a multidão. Quem a notaria debaixo de tantas cores e formas? Ela chorava cada vez mais alto, tentando chamar a atenção de alguém. Em vão. Os fogos. A música alta. Os gritos. Ela preferiu silenciar. Acocorou-se. Mirou o mar. Que breu. Um homem com uma garrafa de sidra caiu ao seu lado. Todos celebravam. Apenas ela, uma chispa em meio ao fogaréu, teimava em sofrer. Decidiu esperar tudo acabar. Prendeu o choro e mirou as cores que distorciam o céu. Aquilo não seria para sempre.
            8. A primeira vez que passavam juntos um reveillon. Abraçavam-se com volúpia. Os dedos marcavam a pele. O cheiro forte dos perfumes, a camisa encharcada de suor, os clarões. Quero dizer algo muito importante. O hálito morno no ouvido. Você me ama? A resposta veio com os olhos e um gesto. Ficaria comigo, enfrentaria tudo? Novo gesto. Estou grávida. Melhor não ter ouvido. Exigiu confirmação com um ríspido movimento de cabeça. Estou grávida. De repente, não havia mais fogos estalando. O tempo de celebrar havia acabado. Não esboçou reação. Deixou-se estático, enquanto ela descobria o valor do silêncio. 
          7. O cãozinho desabou na carreira. O barulho dos fogos, das gentes entorpecidas, tudo era ensurdecedor, zunindo nos ouvidos do bicho, desafinando-lhe os sentidos. Se pudesse falar, certamente esbravejaria contra aquele mundo torpe de humanos sem direção. Tantas pernas por desviar, tantos pisões. Corria sem rumo, fugindo da iniquidade daqueles seres. Disparou pela avenida, sem notar a moto que o espalharia pelo asfalto. Mais um cão morto. O motoqueiro parou por um segundo para avaliar o cadáver, mas logo o clarão dos fogos chamou-lhe a atenção. Que noite linda, pensou. 
           6. Um homem delirava, teimava em mergulhar, queria chegar mais perto das cores, dos clarões. A família o desencorajava. Homem feito, deixe fazer. Mas ele bebeu, bebeu muito. Que seja, ficamos de olho. Ele foi, sob o olhar protetor dos seus. A água enregelava os ossos. Os fogos estavam próximos, esticou-se para apanhá-los. Descuidou-se. A família já não o encontrava em meio à escuridão das águas. Um dos irmãos tentou mergulhar. Escuro demais. Basta um para procurar. Vez em quando, um clarão. Nenhum movimento na água. Ele deve estar bem.
           5. A contagem proseguia. Um jovem, de rosto encoberto pelos cabelos lisos, destoava. Dentre tantos que festejavam em trajes tradicionais, ele surgiu de preto, como um oásis diante dos olhos cansados do mundo. Pôs-se estrategicamente diante do palco. Sacou de um revólver e deu dois tiros para cima. Nada. Todos em êxtase por causa dos fogos. Ele gritou. Enfiou o cano da arma na boca e disparou. Poucos notaram.
           4. O velho criava coragem para dizer a todos que iria fazer uma viagem. Sozinho. Não suportava mais o asilo, apesar de ser bem tratado. Sentia falta da liberdade. Vinha-lhe à memória os tempos do exército, as viagens, as condecorações, os aplausos orgulhosos dos filhos ainda molecotes. Sentia-se um fardo, algo a ser descartado. Não queria morrer assim. Papai, não beba, o senhor tem que ir cedo para casa. Casa? O que faz de um lugar qualquer nossa casa? Faltava-lhe o amparo familiar. Todos gostavam dele, mas sua presença aborrecia de alguma forma. Sentia-se uma espécie de cartão de visitas da morte. Ninguém quer um velho estorvado dentro de casa. Achou por bem não contar sobre a tal viagem. Apenas faria. Sorriu para todos. Deixou que a música e os fogos penetrassem seus ossos.
          3. Amigas de infância, inseparáveis, cúmplices. Dividiam os mais íntimos segredos. O primeiro beijo, a transa furtiva na festa, as brigas com as rivais da escola. Os fogos avermelhavam-se. Um abraço longo selou o compromisso de amizade eterna entre as duas. Uma delas tomou a iniciativa de um beijo. A outra esquivou-se enojada. Que foi? Melhor procurar meus pais, devem estar preocupados. E saiu, limpando dos lábios o gosto da amiga.
          2. O mestre de cerimônia mirava aquele mundo de gente. Não mais suportava tamanha mediocridade. Queria estar em casa, tomando conta de seus cachorros. Estava ali por obrigação. Precisava do dinheiro. Era um pessimista. Tanta celebração para nada. Mais fome, mais miséria, mais violência. É isso que comemoram? Pensou em dizer tudo isso no microfone. O dinheiro é bom. Melhor dar prosseguimento à contagem.
          1. Uma ligação. Não se ouve nada. Ele já estava fora de casa há um mês. Deixou a mulher grávida. O trabalho o obrigava a fazê-lo. Procurou um lugar mais calmo. Nada. Muito barulho, em todos os lugares. Correu para detrás do palco. Menos gente. Conseguiu ouvir alguma coisa. Sua mulher. Que tem ela? Sua mulher. A ligação interromia-se a todo instante. Que tem ela, pelo amor de Deus? Sua mulher deu à luz. Um menino. Sua cara. Ele não se conteve. Gritou. Pela primeira vez, sentiu a alegria de um ano novo.
           E quem ali estava chorou, sorriu e cantou. Era tempo celebrar a chegada de um novo ano.

domingo, 25 de dezembro de 2011

TRÁGICA ANEDOTA NATALINA


        Véspera de Natal. Sinal fechado. Trânsito caótico. Uma mulher no conforto de seu automóvel foi abordada por um menino. O olho do pequeno estirou-se. Nada de mais, senão pelo fato de o garotinho andrajoso arfar e latir, simulando um cão.
         - Que gracinha de cachorrinho! 
         - Moça, me dá um trocado de Natal?
         - Claro! Pegue...
         O menino já mirava outro carro, quando a mulher, sem resistir à curiosidade, indagou:
         - Por que a imitação de cachorro?
         - A moça tem cachorro?
         - Sim.
         - Quantas vezes ele come por dia?
         - Três.
         - E quando ele fica doente?
         - Levo ao veterinário imediatamente.
         - Ele dorme na rua?
         - Não, dorme em um colchãozinho térmico.
         - Quantas vezes a moça já bateu nele?
         - Nunca.
         - E a moça ainda pergunta por que eu quero ser cachorro!
       O menino sai correndo à cata de outro carro. Arfava e latia como nunca se viu. Satisfeita a curiosidade, a mulher cumpre seu destino. Toda criança, pensa ela, devia imitar cachorrinho. Fica bem mais fácil ganhar trocado. E ela se vê inundada pelo espírito de Natal.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Sobre todas as infâncias

          
            Que coisa é o tempo. Tantas páginas em branco jogadas de lado, sem sequer um rabisco. Neste exato momento, meu filho cantarola alguma coisa sem nexo, uma musiquinha enfadonha de algum desenho animado japonês. E eu aqui, escrevendo sobre ele. Acabei de convidá-lo para darmos uma volta por aí, ver coisas e pessoas. Quando eu tinha a sua idade, a uma hora dessas estaria me esbaldando pelas praças, correndo feito louco atrás de uma bola. É que não tínhamos computador, internet, celular. Aliás, ninguém tinha. Tudo isso só virou coqueluche muito depois. Computador portátil dentro de casa era invencionismo hollywoodiano, nada mais. Para nós, pelos áureos doze anos, bastava o cheiro fresquinho de liberdade, manhãzinha cedo, domingo.
          Eram demais as presepadas que aprontávamos. Certa vez, por desafio, armaram que eu deveria encarar um terreno baldio que ficava na rua onde morávamos, plenas e longas onze horas da noite, sem lanterna nem vela, ir até os fundos do terreno, onde dormia um pé de mamona, pegar um cacho de mamonas e contar todas as vantagens do mundo. Foram os cinco minutos mais assustadores da minha vida. Outra foi quando deram de subir a velha caixa-d'água da praça do Conjunto Polar. Uma bela escalada, pelos seus quinze metros. Lembro que, no meio da subida, minhas pernas amoleceram. Uma cãibra. Eu era o terceiro da fila de intrépidos alpinistas de praça, mas havia uns quatro depois de mim, que estancaram comigo, ao menos até recuperar os movimentos. Por fim, nada de mais aconteceu e fincamos bandeira no alto da velha caixa-d'água. Descemos duas horas depois, tempo considerado suficiente para tomar coragem. 
         E como brigávamos meus camaradas e eu. Cães e gatos. E que capacidade tínhamos de regenerar nossas amizades. Se discutíamos ou mesmo chegávamos às vias de fato, seguíamos o manual de sobrevivência. Primeiro, chorávamos, porém sem demonstrar dor, pois homem não chora por dor, mas por raiva, fúria ou desejo de vingança. Segundo, mesmo com vontade de matar um ao outro, os brigões não podiam sair cada um para o seu lado: tinham que ficar ali, impávidos, feridos, esperançosos de que o outro tomasse a iniciativa das desculpas. Terceiro, alguém da turma tinha que puxar uma conversa diferente, descontraída, que fizesse esquecer o espisódio burlesco da briga. Por fim, na medida em que todos estavam imbuídos de novas distrações, buscava-se uma outra brincadeira e, voilá, como num passe de mágica, eis os recém-desafetos conversando, rindo, brincando como amigos que nunca deixaram de ser. Essa é a melhor receita de perdão que pode existir. Creio que, quando nos tornamos adultos, uma das primeiras atitudes que tomamos é rasgar essa receita.
         Não tenho mais contato com os amigos da época. Sumiram no tempo ou na memória, se é que há justeza nessa distinção. O pequeno Totonho, negrinho marrento, nosso cocheiro-mor, que todo final de tarde emprestava do irmão carroceiro a nossa carruagem oficial, e seguíamos pelas ruas, senhores de tudo, como nos velhos filmes de capa e espada. O terrível Claudionildo, o louco, um estraga-prazeres, que se vangloriava de bater em todos da rua. Certa vez, organizei um levante contra a sua tirania. Nove moleques contra um. Entanto, na hora h, todos deram no pé e sobrou para mim. Apanhei. Mas sempre acreditei que as verdadeiras mudanças são filhas das grandes mobilizações, mesmo sabendo que as consequências disso podem ser alguns hematomas. O inesquecível Jean, um companheiro sem igual, de uma solidariedade ímpar. Foi com ele que aprendemos que as pessoas que amamos não são eternas. Jean morreu por conta de uma leucemia. Estivemos em seu último aniversário. Ele sorriu muito nesse dia. Sem falar da esperteza de um Augusto e suas ideias descoladas, da ingenuidade de um  Rogério e suas gafes históricas, da boa-pinta de um Gilberto e seus indefectíveis olhos claros. Tantos. 
            O tempo passou. E o pior é que, com ele, todos aqueles amigos também se foram, de uma forma ou de outra. Meu filho está aqui, ao meu lado, perguntando sobre o que estou escrevendo. Não sei o que responder. De certa forma, não escrevo sobre mim, mas sobre tudo que se pode resgatar nesse mundo, sem a obrigação de um mouse ou de um modem. Sinto falta das velhas traquinagens. Não espero, é claro, que meu filho invente algo tão perigoso quanto escalar uma caixa-d'água. Mas, se fizer, que se torne uma lembrança tão boa quanto as que trago comigo hoje.  

domingo, 13 de novembro de 2011

Apenas uma carta

         
            Fortaleza, ... de ... de 2011.

            Caríssimo ...,

            Calma, isto não é um anúncio publicitário. É uma carta mesmo. Um carta, algo tão antiquado quanto curso de datilografia. Não, não é nostalgia, ou talvez seja, afinal, você me conhece, sou daqueles aficionados em velharias, colecionador de vinis, vasculhador de raridades cinematográficas. Sei que podia apelar para o providencial "e-mail", que não deixa de ser uma carta, mas o meio virtual não tem o mesmo charme, creio. Os tempos mudaram, e o glamour da carta se esvaiu. Antigamente, esperava-se ansiosamente o grito do carteiro. "Correio". Era uma festa. Cartinha da mãe, notícias do filho, fotos dos primos recém-nascidos, fofocas daquela cidadezinha há muito esquecida, palavras de amor. Tudo cabia em uma carta. Hoje o carteiro não grita mais. Não há necessidade de alarde para receber contas ou reclames. 
             Quer saber, não sei por que resolvi escrever esta carta. Talvez por não aguentar mais essas respostas imediatas e vazias impostas pela modernidade. Será que alguém ainda sabe o que é esperar? Nos bons tempos da comunicação epistolar, se enviávamos uma carta para ter notícias sobre o estado de saúde de alguém, depois de vinte dias ou mais recebíamos a resposta, o que, nesse caso, não era muito interessante, pois, em geral, as doenças menos sérias não são tão persistentes. E as velhas cartas dos admiradores secretos? Era assim que o amor, muitas vezes, principiava. Que frio na barriga, que vontade de ler e reler várias vezes aquelas palavras elogiosas, vindas de sei-lá-onde, das novelas ou das fantasias hollywoodianas. E o amor surgia, em contagotas, depois de inúmeras idas e vindas para se descobrir o autor das tão aguardadas cartas. Com o imediatismo que existe hoje, agir assim, com paciência e precaução, seria um sinal claro de desinteresse. As relações amorosas aderiram à era da banda larga, seguindo na velocidade dos milhares de bytes e pixels, e não me parece certo que, depois de dois ou três cliques, sem o menor vestígio de presença ou pele, haja vontade de rasgar todos os véus das sentimentalidades, ao cúmulo de acachapar-se com a entorpecência dos eu-te-amo. 
              Sou de cartas, das que comovem pela lentidão, das que destronam pela insitência, das que inquietam pela demora. Aliás, amigo velho de guerra, se quiser me contactar, é favor fazê-lo por meio de uma carta, recheada de notícias fresquinhas e vagarosas, feito pão matinal de domingo. Prometo que lerei várias vezes e guardarei com carinho cada palavra arremessada. Talvez, um dia, recebamos uma carta de amor. Já pensou? Um papel pefumado, uma letra rodopiante, quase melódica. Ali, da forma mais antiga possível, descansariam as melhores palavras que a limitação humana poderia conceber. Os amores de outrora eram mais precisos e resistentes, pois nasciam do inesperado da frase escrita, da admiração pura pelo ardil literário de um amor distante, mas não ausente. Tive poucos amores, e, de cada um deles, quase nada ficou. Eram possíveis demais. 
               Sabe por que as coisas acabam? Porque as palavras se findam. Sem elas, nada sobrevive. As cartas não são diferentes. Chego ao fim por não ter mais o que dizer. Desculpe-me por evitar as frugalidades. Apenas tentei fugir da frialdade de um "tudo bem?", um "espero que esteja com saúde" ou coisa parecida. É que gosto do inesperado. Não vou mais aborrecê-lo com minhas tolices. Seja feliz, que o tempo nos pertence, e, a cada volta nos ponteiros, um pouco de nós fica para trás. O que estanca a ganância do tempo é a alegria. 

               Com carinho,

               x x x


           

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

distração


se me falta teu cheiro, é que não decorei teus traços de noite aberta;
falta, por certo, tua voz, a de tantas desditas roucas, que de tuas palavras nada restou, senão respingos e uma fiada de gírias que muito pouco me diziam;
ainda me falta o olho de cão, esperto em cio, que do que miravas não me recordo, mas sei que eras distante, tanto que teu mirar redizia o itinerário das naus: querias o mar e mar não havia!
falta-me o êxito das promessas arremessadas contra as inúteis desesperanças, que gravei em teu colo o sinal da grande consoladora, e hoje crês mais em ti do que nas antigas sombras, porque te dei asas e não te alcancei no voo...
o que me foge é teu maquinal trejeito de criança arteira, pura arte ou manha, que, quando cresceste, tua imagem ganhou cores e formas abstratas e o que se tem por céu, o de Galileu, avermelhou-se por vexame e luxúria;
só uma breve rosa, pequena de doer, ainda teima, desabrochante em meio à esterilidade da memória: uma última promessa, a de que terás tua prole e teu sonhado conquistador d'além-mar, e os de tua casta verão em ti o apogeu do sangue...
quanto a mim, basta-me a rosa, não a que vejo, mas a que sempre houve, e outras virão, que roseiras tantas existem de lá para cá: em cada desabrocho, por um leve momento, todas as rosas te servirão de guia e retornarás, mesmo que não mais rosa, mesmo que apenas eu em tua forma, mesmo que nunca uma rosa houvesse.

* Texto dedicado a quem certamente não mais existe; por isso mesmo, é difícil de esquecer...

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Sobre todos os amores

          
          Como escrever é também, ou principalmente, tratar de assuntos sentimentais, não me posso esquivar diante da voracidade dos leitores que me exigem temáticas relacionadas ao coração. Dia desses, céu nublado pelas quinas de outubro, recebi uma mensagem de uma ex-pupila sugerindo que eu desse cabo à infame pergunta "O que é o amor?", tarefa não muito fácil, sequer prazerosa, entanto me propus o desafio de palestrar sobre amor em tempos de íntimos distanciamentos proporcionados pela modernidade.
          Que faz um ser falível, conformado com quase tudo que lhe ocorre do firmamento, crer-se indomável ao ponto de entregar-se a uma dádiva tão ancestral quanto o amor? Quem ama é resignado, tolerante com todas as falhas do ser tido como amado. O amor é o apogeu da solidariedade. Isso lhe dá um caráter divinal e, por isso mesmo, distante da iniquidade humana. Mas, mesmo assim, amar é tão necessário quanto acreditar que existe qualquer pormenor sobrenatural capaz de garantir que não somos criaturas dotadas do utilíssimo mecanismo da solidão. 
          Por certo, o ser amante, ao confundir-se com o ser amado, forja os mais ignotos e surreais planos para que, em dia de brevidades e amparos, tudo saia como planejado. Antes de qualquer entusiasmo, é preciso selecionar com cautela a figura contra quem se arremessará todo o sentimento do mundo. De preferência, que seja calminho, sem muitos rompantes, que até solte seus impropérios, mas de forma comedida, sem acordar a vizinhança. Deve também ser apresentável diante da alta sociedade novelesca, que impõe padrões retangulares de beleza, portanto, se for branquinho, lourinho e riquinho, arrefece boa parte das futuras cefaleias por conta do falatório das gentes. Não esquecer que o amor pressupõe prestação de serviços também, como uma espécie de ação social, mas para amparar apenas um ente, o amado, se é que me fiz entender. Explico: quem ama sente necessidade de demonstrar, com mimos e doces, a sentimentalidade que o acomete, e isso é maravilhoso, pois nos faz exibir a mais nobre das virtudes, a tolerância. Só amando para tolerar uma palma de mão suada, um buço de piaçaba, um olho estrábico, uma perna torta, um dente caído, essas coisas decerto banais perto da credulidade de quem se entrega à cegueira lassa do amor.   
           Não obstante o cumprimento do protocolo, é preciso poetizar o mundo. Entender os benefícios do acaso é um bom começo. Amor e acaso vivem de mãos dadas, como siameses. Nada mais instigante que um entrecruzar de olhares em tempo de calmaria, mais que suficiente para chacoalhar as descrenças, para traduzir do peito para a alma o mistério da revelação amorosa. E amar é revelar a si e ao outro, extrair de nós o que aparentemente nunca houve.
        Melhor que a presença é a ausência do ser amado, que se metamorfoseia em desejo, espera, lembrança, e como é confortante ter de quem se lembrar, não em hora marcada, mas a qualquer tempo, por um simples despertar sugerido em um cheiro, uma música, um momento de mirar fixamente um ponto qualquer. É como se, finalmente, encontrássemos o espelho ideal, que nos revela o melhor de nós, sem conceitos prévios, sem definições, somos apenas nós no corpo de outro. Em verdade, basta a mínima insinuação de um toque para que o corpo enrijeça, retomando cada momento ao lado do ente querido, revisitando as palavras ditas e inauditas. E o bom do amor é o não-dito, o que fica por ser feito, por ser decifrado. É fundamental que se deixe algo para a manhã seguinte, um suspiro novo, um tom de voz ainda oculto, uma inesperada maneira de sugerir um carinho. Somente quem ama sabe o valor do dia seguinte, do que está por vir, do que se guarda não pelo capricho de quem se acomoda, mas pela esperança de que o caminho seja revelado enquanto se trilha, e cada passo sugere a certeza do passo seguinte. 
           Sim, há nobreza no amor, apesar de ser nuvem ou onda, como diria Cecília. Sem ele, o que fazer com tantos poemas, tantas canções, tantos instintos e desejos. Aos jovens, aconselho que amem despudoradamente, que os amores vêm e vão, mas ficam os aprendizados. Aos velhos, como eu, amar talvez seja um retrocesso, uma tentativa vã de resgatar uma alma imberbe. Que seja! "Acho que não me sinto mais tão velho!" 

domingo, 23 de outubro de 2011

Sobre insônia e ausências

        
        Sinto profundo cansaço. É que quase não durmo. Na verdade, a noite me é convidativa e instiga-me a acompanhá-la, como se precisasse investigá-la ou conspurcá-la com meu vulto. Pelos caminhos noturnos, muito de mim já ficou, o tempo de todas as coisas retorna e estanca, não se consegue dormir. Encontrar a saída desse labirinto de formas e vozes não é tarefa simples. Tenho que me espedaçar para trilhar o caminho de volta. 
         Se me faltam braços ou pernas, não são os meus que exijo, mas os de que me fizeram promessas pelas vias da ternura e do encantamento, sem as burocracias de aras e altares. Redivivo, penso não ter tino para esquivar-me das ausências, insuportavelmente ausentes, comprimo a vista, estico o pescoço e busco em vão no horizonte algum vestígio que seja, como quem persegue inutilmente uma utopia. Essa é uma boa imagem. Existem pessoas utópicas.  O que são as utopias, senão sombras? À noite, deixo velas acesas, cada uma a chiar por uma sombra hesitante, cinzas em borrasca, impregnadas de pensamentos distantes, inverossímeis: utopias. 
         Um mão leve, dedos estéreis a pressentir distrações, pousa-me sobre os ombros. É uma noite larga, meu Deus, em que me desespero por nada. Passeio incestuosamente pelo ventre dos que, por muito pouco, não vieram ao mundo com o sangue que me identifica e amarga. Grito com os olhos, que lá fora me parece menos seguro, mas é no mundo do qual me aparto que residem as respostas. Preciso encontrar um pouco de paz, nem que para isso tenha que reatar as amarras do tempo, as que rompi por enfado e impaciência. Pouco me importa se os que poderiam ouvir ora dormem. São covardes, por certo. Eu não. Desafio a noite e todos os seus sussuros. Quero seus gemidos de langor, balbucios na escuridão que afluem ao pensamento. O tempo me carrega em rede de cortejo. Ouço vozes de ladainhas. Alguns rangeres são familiares, outros são meus, os mesmos que deixei para trás, sim, estão lá, no exato dia em que alguém me disse que ficaria, a despeito de tudo, entanto era mentira. A noite se contorce, as verdades adormecem.