Amigos leitores que por aqui já passaram

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Sobre todas as infâncias

          
            Que coisa é o tempo. Tantas páginas em branco jogadas de lado, sem sequer um rabisco. Neste exato momento, meu filho cantarola alguma coisa sem nexo, uma musiquinha enfadonha de algum desenho animado japonês. E eu aqui, escrevendo sobre ele. Acabei de convidá-lo para darmos uma volta por aí, ver coisas e pessoas. Quando eu tinha a sua idade, a uma hora dessas estaria me esbaldando pelas praças, correndo feito louco atrás de uma bola. É que não tínhamos computador, internet, celular. Aliás, ninguém tinha. Tudo isso só virou coqueluche muito depois. Computador portátil dentro de casa era invencionismo hollywoodiano, nada mais. Para nós, pelos áureos doze anos, bastava o cheiro fresquinho de liberdade, manhãzinha cedo, domingo.
          Eram demais as presepadas que aprontávamos. Certa vez, por desafio, armaram que eu deveria encarar um terreno baldio que ficava na rua onde morávamos, plenas e longas onze horas da noite, sem lanterna nem vela, ir até os fundos do terreno, onde dormia um pé de mamona, pegar um cacho de mamonas e contar todas as vantagens do mundo. Foram os cinco minutos mais assustadores da minha vida. Outra foi quando deram de subir a velha caixa-d'água da praça do Conjunto Polar. Uma bela escalada, pelos seus quinze metros. Lembro que, no meio da subida, minhas pernas amoleceram. Uma cãibra. Eu era o terceiro da fila de intrépidos alpinistas de praça, mas havia uns quatro depois de mim, que estancaram comigo, ao menos até recuperar os movimentos. Por fim, nada de mais aconteceu e fincamos bandeira no alto da velha caixa-d'água. Descemos duas horas depois, tempo considerado suficiente para tomar coragem. 
         E como brigávamos meus camaradas e eu. Cães e gatos. E que capacidade tínhamos de regenerar nossas amizades. Se discutíamos ou mesmo chegávamos às vias de fato, seguíamos o manual de sobrevivência. Primeiro, chorávamos, porém sem demonstrar dor, pois homem não chora por dor, mas por raiva, fúria ou desejo de vingança. Segundo, mesmo com vontade de matar um ao outro, os brigões não podiam sair cada um para o seu lado: tinham que ficar ali, impávidos, feridos, esperançosos de que o outro tomasse a iniciativa das desculpas. Terceiro, alguém da turma tinha que puxar uma conversa diferente, descontraída, que fizesse esquecer o espisódio burlesco da briga. Por fim, na medida em que todos estavam imbuídos de novas distrações, buscava-se uma outra brincadeira e, voilá, como num passe de mágica, eis os recém-desafetos conversando, rindo, brincando como amigos que nunca deixaram de ser. Essa é a melhor receita de perdão que pode existir. Creio que, quando nos tornamos adultos, uma das primeiras atitudes que tomamos é rasgar essa receita.
         Não tenho mais contato com os amigos da época. Sumiram no tempo ou na memória, se é que há justeza nessa distinção. O pequeno Totonho, negrinho marrento, nosso cocheiro-mor, que todo final de tarde emprestava do irmão carroceiro a nossa carruagem oficial, e seguíamos pelas ruas, senhores de tudo, como nos velhos filmes de capa e espada. O terrível Claudionildo, o louco, um estraga-prazeres, que se vangloriava de bater em todos da rua. Certa vez, organizei um levante contra a sua tirania. Nove moleques contra um. Entanto, na hora h, todos deram no pé e sobrou para mim. Apanhei. Mas sempre acreditei que as verdadeiras mudanças são filhas das grandes mobilizações, mesmo sabendo que as consequências disso podem ser alguns hematomas. O inesquecível Jean, um companheiro sem igual, de uma solidariedade ímpar. Foi com ele que aprendemos que as pessoas que amamos não são eternas. Jean morreu por conta de uma leucemia. Estivemos em seu último aniversário. Ele sorriu muito nesse dia. Sem falar da esperteza de um Augusto e suas ideias descoladas, da ingenuidade de um  Rogério e suas gafes históricas, da boa-pinta de um Gilberto e seus indefectíveis olhos claros. Tantos. 
            O tempo passou. E o pior é que, com ele, todos aqueles amigos também se foram, de uma forma ou de outra. Meu filho está aqui, ao meu lado, perguntando sobre o que estou escrevendo. Não sei o que responder. De certa forma, não escrevo sobre mim, mas sobre tudo que se pode resgatar nesse mundo, sem a obrigação de um mouse ou de um modem. Sinto falta das velhas traquinagens. Não espero, é claro, que meu filho invente algo tão perigoso quanto escalar uma caixa-d'água. Mas, se fizer, que se torne uma lembrança tão boa quanto as que trago comigo hoje.  

domingo, 13 de novembro de 2011

Apenas uma carta

         
            Fortaleza, ... de ... de 2011.

            Caríssimo ...,

            Calma, isto não é um anúncio publicitário. É uma carta mesmo. Um carta, algo tão antiquado quanto curso de datilografia. Não, não é nostalgia, ou talvez seja, afinal, você me conhece, sou daqueles aficionados em velharias, colecionador de vinis, vasculhador de raridades cinematográficas. Sei que podia apelar para o providencial "e-mail", que não deixa de ser uma carta, mas o meio virtual não tem o mesmo charme, creio. Os tempos mudaram, e o glamour da carta se esvaiu. Antigamente, esperava-se ansiosamente o grito do carteiro. "Correio". Era uma festa. Cartinha da mãe, notícias do filho, fotos dos primos recém-nascidos, fofocas daquela cidadezinha há muito esquecida, palavras de amor. Tudo cabia em uma carta. Hoje o carteiro não grita mais. Não há necessidade de alarde para receber contas ou reclames. 
             Quer saber, não sei por que resolvi escrever esta carta. Talvez por não aguentar mais essas respostas imediatas e vazias impostas pela modernidade. Será que alguém ainda sabe o que é esperar? Nos bons tempos da comunicação epistolar, se enviávamos uma carta para ter notícias sobre o estado de saúde de alguém, depois de vinte dias ou mais recebíamos a resposta, o que, nesse caso, não era muito interessante, pois, em geral, as doenças menos sérias não são tão persistentes. E as velhas cartas dos admiradores secretos? Era assim que o amor, muitas vezes, principiava. Que frio na barriga, que vontade de ler e reler várias vezes aquelas palavras elogiosas, vindas de sei-lá-onde, das novelas ou das fantasias hollywoodianas. E o amor surgia, em contagotas, depois de inúmeras idas e vindas para se descobrir o autor das tão aguardadas cartas. Com o imediatismo que existe hoje, agir assim, com paciência e precaução, seria um sinal claro de desinteresse. As relações amorosas aderiram à era da banda larga, seguindo na velocidade dos milhares de bytes e pixels, e não me parece certo que, depois de dois ou três cliques, sem o menor vestígio de presença ou pele, haja vontade de rasgar todos os véus das sentimentalidades, ao cúmulo de acachapar-se com a entorpecência dos eu-te-amo. 
              Sou de cartas, das que comovem pela lentidão, das que destronam pela insitência, das que inquietam pela demora. Aliás, amigo velho de guerra, se quiser me contactar, é favor fazê-lo por meio de uma carta, recheada de notícias fresquinhas e vagarosas, feito pão matinal de domingo. Prometo que lerei várias vezes e guardarei com carinho cada palavra arremessada. Talvez, um dia, recebamos uma carta de amor. Já pensou? Um papel pefumado, uma letra rodopiante, quase melódica. Ali, da forma mais antiga possível, descansariam as melhores palavras que a limitação humana poderia conceber. Os amores de outrora eram mais precisos e resistentes, pois nasciam do inesperado da frase escrita, da admiração pura pelo ardil literário de um amor distante, mas não ausente. Tive poucos amores, e, de cada um deles, quase nada ficou. Eram possíveis demais. 
               Sabe por que as coisas acabam? Porque as palavras se findam. Sem elas, nada sobrevive. As cartas não são diferentes. Chego ao fim por não ter mais o que dizer. Desculpe-me por evitar as frugalidades. Apenas tentei fugir da frialdade de um "tudo bem?", um "espero que esteja com saúde" ou coisa parecida. É que gosto do inesperado. Não vou mais aborrecê-lo com minhas tolices. Seja feliz, que o tempo nos pertence, e, a cada volta nos ponteiros, um pouco de nós fica para trás. O que estanca a ganância do tempo é a alegria. 

               Com carinho,

               x x x


           

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

distração


se me falta teu cheiro, é que não decorei teus traços de noite aberta;
falta, por certo, tua voz, a de tantas desditas roucas, que de tuas palavras nada restou, senão respingos e uma fiada de gírias que muito pouco me diziam;
ainda me falta o olho de cão, esperto em cio, que do que miravas não me recordo, mas sei que eras distante, tanto que teu mirar redizia o itinerário das naus: querias o mar e mar não havia!
falta-me o êxito das promessas arremessadas contra as inúteis desesperanças, que gravei em teu colo o sinal da grande consoladora, e hoje crês mais em ti do que nas antigas sombras, porque te dei asas e não te alcancei no voo...
o que me foge é teu maquinal trejeito de criança arteira, pura arte ou manha, que, quando cresceste, tua imagem ganhou cores e formas abstratas e o que se tem por céu, o de Galileu, avermelhou-se por vexame e luxúria;
só uma breve rosa, pequena de doer, ainda teima, desabrochante em meio à esterilidade da memória: uma última promessa, a de que terás tua prole e teu sonhado conquistador d'além-mar, e os de tua casta verão em ti o apogeu do sangue...
quanto a mim, basta-me a rosa, não a que vejo, mas a que sempre houve, e outras virão, que roseiras tantas existem de lá para cá: em cada desabrocho, por um leve momento, todas as rosas te servirão de guia e retornarás, mesmo que não mais rosa, mesmo que apenas eu em tua forma, mesmo que nunca uma rosa houvesse.

* Texto dedicado a quem certamente não mais existe; por isso mesmo, é difícil de esquecer...

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Sobre todos os amores

          
          Como escrever é também, ou principalmente, tratar de assuntos sentimentais, não me posso esquivar diante da voracidade dos leitores que me exigem temáticas relacionadas ao coração. Dia desses, céu nublado pelas quinas de outubro, recebi uma mensagem de uma ex-pupila sugerindo que eu desse cabo à infame pergunta "O que é o amor?", tarefa não muito fácil, sequer prazerosa, entanto me propus o desafio de palestrar sobre amor em tempos de íntimos distanciamentos proporcionados pela modernidade.
          Que faz um ser falível, conformado com quase tudo que lhe ocorre do firmamento, crer-se indomável ao ponto de entregar-se a uma dádiva tão ancestral quanto o amor? Quem ama é resignado, tolerante com todas as falhas do ser tido como amado. O amor é o apogeu da solidariedade. Isso lhe dá um caráter divinal e, por isso mesmo, distante da iniquidade humana. Mas, mesmo assim, amar é tão necessário quanto acreditar que existe qualquer pormenor sobrenatural capaz de garantir que não somos criaturas dotadas do utilíssimo mecanismo da solidão. 
          Por certo, o ser amante, ao confundir-se com o ser amado, forja os mais ignotos e surreais planos para que, em dia de brevidades e amparos, tudo saia como planejado. Antes de qualquer entusiasmo, é preciso selecionar com cautela a figura contra quem se arremessará todo o sentimento do mundo. De preferência, que seja calminho, sem muitos rompantes, que até solte seus impropérios, mas de forma comedida, sem acordar a vizinhança. Deve também ser apresentável diante da alta sociedade novelesca, que impõe padrões retangulares de beleza, portanto, se for branquinho, lourinho e riquinho, arrefece boa parte das futuras cefaleias por conta do falatório das gentes. Não esquecer que o amor pressupõe prestação de serviços também, como uma espécie de ação social, mas para amparar apenas um ente, o amado, se é que me fiz entender. Explico: quem ama sente necessidade de demonstrar, com mimos e doces, a sentimentalidade que o acomete, e isso é maravilhoso, pois nos faz exibir a mais nobre das virtudes, a tolerância. Só amando para tolerar uma palma de mão suada, um buço de piaçaba, um olho estrábico, uma perna torta, um dente caído, essas coisas decerto banais perto da credulidade de quem se entrega à cegueira lassa do amor.   
           Não obstante o cumprimento do protocolo, é preciso poetizar o mundo. Entender os benefícios do acaso é um bom começo. Amor e acaso vivem de mãos dadas, como siameses. Nada mais instigante que um entrecruzar de olhares em tempo de calmaria, mais que suficiente para chacoalhar as descrenças, para traduzir do peito para a alma o mistério da revelação amorosa. E amar é revelar a si e ao outro, extrair de nós o que aparentemente nunca houve.
        Melhor que a presença é a ausência do ser amado, que se metamorfoseia em desejo, espera, lembrança, e como é confortante ter de quem se lembrar, não em hora marcada, mas a qualquer tempo, por um simples despertar sugerido em um cheiro, uma música, um momento de mirar fixamente um ponto qualquer. É como se, finalmente, encontrássemos o espelho ideal, que nos revela o melhor de nós, sem conceitos prévios, sem definições, somos apenas nós no corpo de outro. Em verdade, basta a mínima insinuação de um toque para que o corpo enrijeça, retomando cada momento ao lado do ente querido, revisitando as palavras ditas e inauditas. E o bom do amor é o não-dito, o que fica por ser feito, por ser decifrado. É fundamental que se deixe algo para a manhã seguinte, um suspiro novo, um tom de voz ainda oculto, uma inesperada maneira de sugerir um carinho. Somente quem ama sabe o valor do dia seguinte, do que está por vir, do que se guarda não pelo capricho de quem se acomoda, mas pela esperança de que o caminho seja revelado enquanto se trilha, e cada passo sugere a certeza do passo seguinte. 
           Sim, há nobreza no amor, apesar de ser nuvem ou onda, como diria Cecília. Sem ele, o que fazer com tantos poemas, tantas canções, tantos instintos e desejos. Aos jovens, aconselho que amem despudoradamente, que os amores vêm e vão, mas ficam os aprendizados. Aos velhos, como eu, amar talvez seja um retrocesso, uma tentativa vã de resgatar uma alma imberbe. Que seja! "Acho que não me sinto mais tão velho!" 

domingo, 23 de outubro de 2011

Sobre insônia e ausências

        
        Sinto profundo cansaço. É que quase não durmo. Na verdade, a noite me é convidativa e instiga-me a acompanhá-la, como se precisasse investigá-la ou conspurcá-la com meu vulto. Pelos caminhos noturnos, muito de mim já ficou, o tempo de todas as coisas retorna e estanca, não se consegue dormir. Encontrar a saída desse labirinto de formas e vozes não é tarefa simples. Tenho que me espedaçar para trilhar o caminho de volta. 
         Se me faltam braços ou pernas, não são os meus que exijo, mas os de que me fizeram promessas pelas vias da ternura e do encantamento, sem as burocracias de aras e altares. Redivivo, penso não ter tino para esquivar-me das ausências, insuportavelmente ausentes, comprimo a vista, estico o pescoço e busco em vão no horizonte algum vestígio que seja, como quem persegue inutilmente uma utopia. Essa é uma boa imagem. Existem pessoas utópicas.  O que são as utopias, senão sombras? À noite, deixo velas acesas, cada uma a chiar por uma sombra hesitante, cinzas em borrasca, impregnadas de pensamentos distantes, inverossímeis: utopias. 
         Um mão leve, dedos estéreis a pressentir distrações, pousa-me sobre os ombros. É uma noite larga, meu Deus, em que me desespero por nada. Passeio incestuosamente pelo ventre dos que, por muito pouco, não vieram ao mundo com o sangue que me identifica e amarga. Grito com os olhos, que lá fora me parece menos seguro, mas é no mundo do qual me aparto que residem as respostas. Preciso encontrar um pouco de paz, nem que para isso tenha que reatar as amarras do tempo, as que rompi por enfado e impaciência. Pouco me importa se os que poderiam ouvir ora dormem. São covardes, por certo. Eu não. Desafio a noite e todos os seus sussuros. Quero seus gemidos de langor, balbucios na escuridão que afluem ao pensamento. O tempo me carrega em rede de cortejo. Ouço vozes de ladainhas. Alguns rangeres são familiares, outros são meus, os mesmos que deixei para trás, sim, estão lá, no exato dia em que alguém me disse que ficaria, a despeito de tudo, entanto era mentira. A noite se contorce, as verdades adormecem.  

domingo, 2 de outubro de 2011

UTOPIA DE UM PROFESSOR QUE SANGRA


SITUAÇÃO: DURANTE UMA MANIFESTAÇÃO POR MELHORIAS DAS CONDIÇÕES DE TRABALHO, UM PROFESSOR ENSANGUENTADO, APÓS UMA CONTENDA COM POLICIAIS MILITARES, PEGA UM MICROFONE, PEDE A ATENÇÃO DE TODOS QUE ALI ESTÃO E INICIA UM DISCURSO EMOCIONADO.

DIRIGINDO-SE AOS COLEGAS PROFESSORES:

Companheiros, 
Vejam isto! (Segura a camisa com ênfase, de modo a destacar as manchas de sangue) Este sangue é o símbolo de tudo que doamos, diariamente, àqueles que se dispõem a aprender conosco. Ao menos assim, com as roupas manchadas de sangue, todos podem enxegar nossa humanidade, que as lágrimas e o suor que derramamos ao exercermos com afinco nossa profissão de educar são incolores. Esta vermelhidão, brotada da violência gratuita, é a prova de que não somos criaturas sacerdóticas, alimentadas de esperanças distantes, sem os pés no chão. Somos, acima de tudo, humanos, profissionais que sonham com mudanças efetivas para que haja uma verdadeira valorização do magistério. Somos brasileiros, e uma das prerrogativas de nosso ofício é crer neste país, viver por ele e, se preciso, sofrer, para que as gerações futuras não precisem lutar tanto, para que os jovens nos reconheçam não por heróis, como os dos filmes ou gibis, mas como homens e mulheres que assumiram o risco de acreditar que a educação é o princípio de todas as revoluções. Sinto dor, uma imensa e torturante dor, não pelas pancadas que levei, que meu sofrimento e o de meus pares é perene; a dor que me incomoda e atordoa vem de dentro, num sopro de arrependimento por ter escolhido ser quem eu sou: professor. Mas sei que não há motivo para arrependimentos. Sou professor porque me foi dada a missão de manter viva a chama da revolução. Somos peças fundamentais de qualquer sociedade que se proponha crescer com dignidade, respeito e igualdade social. Nunca baixaremos a cabeça, jamais esmureceremos diante da barbárie e da arrogância. Levantamos a voz em prol de uma mesma lição. Hoje, ensinamos ao país e ao mundo o que é a verdadeira democracia; hoje, desmascaramos tiranos; hoje, revisitamos os inglórios tempos de 68, quando a juventude mundial mostrou que não era apenas um mero joguete nas mãos dos poderosos; hoje, sentimos na pele a essência da palavra PROFESSOR (pausa para enxugar as lágrimas, misturadas ao sangue que lhe escorre da testa). Que todos tenham aprendido conosco essa lição, e que se juntem a nós educadores, pais, filhos e todos que, de uma forma ou de outra, já se sentiram marcados pelas palavras de um professor. Tenhamos orgulho de ser o que somos. Se um dia o mundo, depois de uma catástrofe natural ou humana, tiver que recomeçar, estejamos certos de que isso não ocorrerá pelas mãos de um político ou de um burocrata. Nesse momento, todos clamarão por alguém que ensine a dar novos passos, com sensibilidade, firmeza e criticidade. Enquanto houver professores, o mundo terá a oportunidade de renascer. Ai do país que agride seus professores. "Se você acha a educação cara, experimente a ignorância" (o professor se dirige agora aos policiais que o agrediram).

DIRIGINDO-SE AOS POLICIAIS:

Amigos policiais,
Sei que cumprem ordens, mas percebo no olhar de vocês a mesma gana de luta, a mesma indignação que sentimos agora. Larguem suas armas, seus cacetetes, seus sprays de pimenta. Ergamos a mesma bandeira. Procuremos os reais inimigos, aqueles que, a esta altura, devem estar fechados em gabinetes climatizados, tomando uísque importado. Pensem nos seus filhos, e nos filhos de seus filhos. É essa a herança que pretendem deixar? É assim que entrarão para a história? Como algozes de professores? Escrevam sua própria história, meus amigos. Juntem-se a nós. (Alguns policiais largam suas armas e se misturam aos manifestantes, gritando palavras de ordem). 

DIRIGINDO-SE AOS ALUNOS:

Caros alunos,
Onde vocês estão? Venham conosco. Esqueçam por um minuto a segurança da virtualidade e gritem. Rasguem suas gargantas, sangrem também, pois é tempo de luta. O que vão conseguir? Cicatrizes, lembranças, amizades, vitórias e derrotas. Vocês serão o assunto da aula do dia. Gritem liberdade. Defendamos com todas as forças a educação brasileira, que depende tanto de vocês, como de nós. Mostrem a todos que há tempo de aprender e ensinar. É o tempo de aprender com vocês. Venham.

AOS FUTUROS PROFESSORES:

Que este sangue respingue em cada um de vocês e deixe marcas profundas, para que todos entendam que não há ofício mais imperioso, mais enfadonho e, a um só tempo, mais essencial, que o de professor. Os que pensam em desistir, façam, pois jamais seriam bons professores. Os que têm dúvida, desistam também. Apenas aqueles em cujas veias pulsa um sangue verde-amarelo, apenas os que se comovem com a fome, a miséria, os que se indignam com a corrupção e a falta de ética, apenas esses devem seguir, que serão educadores essenciais e transformarão a vida de cada aluno. E nunca morrerão. O olhar e a memória de nossos alunos não nos permitem morrer. 
(O professor, já sem forças, senta-se um pouco. Prestes a desfalecer, ergue com dificuldade o braço e conclama a multidão a gritar)

NOSSO ORGULHO É EDUCAR!



domingo, 25 de setembro de 2011

Sobre ficar velho...


          Estou ficando velho, e não há nada de extraordinário nisso. O problema é que estou me sentindo velho, e isso é preocupante. O fôlego não me apetece como antes, já não exercito a tolerância com a mesma habilidade, sinto-me preguiçoso, acomodado, alvo fácil de punguistas e manipuladores. Detesto espelhos. Por isso mesmo, não os tolero. São como lâminas em brasa causticando feridas antigas, mortificando cada filete de memória que se espalha pela retina.
        Por certo, as coisas não são tão cruéis quanto se pinta. Mas como acreditar nisso sem parecer tolo, sem tirar o véu daquela ingenuidade desnecessária que fazemos questão de ocultar para que as pessoas admitam nossa humanidade? E o que deveríamos fazer? Sucumbir? Renovar? Que tal a velha e providencial espontaneidade?
         Precisamos tomar providências urgentes para que o tempo não nos venha exigir pedágio. Em primeiro lugar, precisamos abrir mão de qualquer ponteiro indesejado que nos recorde, por indelicadeza, a passagem das horas. Joguemos os relógios ao mar, e estendamos esse ritual aos calendários, aos celulares, aos computadores portáteis ou a qualquer outra bugiganga que nos obrigue a acreditar que ficamos obsoletos. Em seguida, respiremos. De verdade. Não a ofegância da correria insana do dia a dia ou o sopro desordenado de uma bem sucedida empreitada amorosa. Refiro-me à respiração que internaliza, que nos faz ligar a tela do passado e rever tudo que gostaríamos de ter feito, e como seria gostoso se tivéssemos ouvido os instintos em vez de desistir só porque as pernas tremeram um pouco. À medida que o tempo passa, tendemos a ficar mais transigentes com o passado e conseguimos nos alegrar até mesmo com as dores que escondemos nos ossos.
          Agora, nada disso adiantará se não considerarmos a indecifrável arte da convivência. Se alguém importante surge como por encantamento e, por motivo qualquer, apenas parte, sem rastro ou aviso prévio, é entender que não foi abandono, mas a ausência necessária à saudade, mãe de quase todas as certezas e prima da maioria dos arrependimentos; se veio chuva em vez de sol, tomemos vinho e guardemos a cerveja para quando o sol retornar, e ele sempre retorna; se estamos a um passo de enlouquecer de tanto trabalhar, chegou a hora de afrouxar as gravatas, descalçar os sapatos, sentar em um gramado verde e mais nada, pois quem se entrega de forma desumana ao trabalho sabe reconhecer o valor de uma palavra como "nada"; se os amigos enchem-nos de e-mails de autoajuda ou de mensagens pseudofilosóficas nas redes sociais e sequer perguntam se estamos bem, é sinal de que precisamos levar nossas amizades um pouco mais a sério; se olhamos para trás à procura da tal felicidade e só encontramos breu, e se o futuro parece reservar a mesma escuridão, talvez devêssemos ter mais cuidado com o que sempre esteve ao nosso lado, sem desertar do posto nem nos momentos de indiferença.
          Sim, estou ficando velho. Talvez não possa, ou não queira, seguir meus próprios conselhos. A única vantagem de viver muito é ter um pouco mais de tempo para compreender os infundados motivos da vida. Mesmo assim, prefiro ter o mundo pelos olhos imberbes da juventude.