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segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

O encontro

          O ônibus deveria ter chegado há quinze minutos. Como não acreditasse na ineficácia do tempo, perguntei as horas a um passante, que respondeu desconfiado, olhando para o meu relógio. Prestava atenção nas conversas alheias, criava pretextos contra o incômodo do atraso. Vasculhava os bolsos com insistência, desviava-me da plataforma de desembarque para verificar os ponteiros, escrutava cada detalhe da antiga rodoviária.
          A três dias do Natal, o lugar fervilhava de senhoras de todos os tamanhos, carregadas de curumins, mirando sem pressa o corredor por onde os ônibus entravam e saíam. Em outro ponto, mochilas multicoloridas derramadas sobre o banco de cimento cru. A voz estridente dos vendedores de bugigangas salientava-se. No refeitório, um grupo de freiras, alheias à vozearia, tirava um terço lento. Um senhor de gestos antigos socava fumo no cachimbo. Amealhavam-se pelo acinzentado do lugar encontros e despedidas. Vendo de longe, não era possível diferi-los. Apenas sucediam, sem interrupções. Mães apegadas aos filhos, numa ladainha quase ensaiada, eivadas de recomendações e bênçãos. Filhos distantes, o pensamento no meio da rodagem antes mesmo do embarque. E mulheres de todos os matizes, chorosas de seus maridos, umas por remorso, outras por saudade. Decerto a maioria dos que se atalhavam pelas plataformas planejavam as festas ao lado da família. Pelas palestras, facilmente se notava essa intenção. Eu apenas esperava, todo malfeito, derreado num canto de parede, como se estivesse sob efeito de pancadas.
          - Mas demora esse ônibus! Você também espera o que vem da Parnaíba?
          - É sim ...o de Parnaíba ...já devia ter chegado! – respondi aturdido, sem saber direito de onde rompia a indagação. Olhei de lado e ali estava, sentada sobre um garajau, a dona de tão inoportuna intervenção. Uma senhorinha de ar brejeiro, jeito de moleca arteira, conquanto os vincos na cara repicassem-lhe a idade avançada. A velha deu seguimento à inquisição.
          - É parente?
          - Como?
          - Estou perguntando se você espera algum parente. Eu espero filha, genro e três netos. Vieram passar o Natal comigo.
          Quase todos que ali estavam, senão todos, assim o faziam por causa de algum parente. Não importasse a patente genealógica, os laços familiares compeliam seus motivos. Pais, filhos, irmãos, cônjuges, todos se amontoavam na esperança contígua de recuperar as horas usurpadas pela necessidade. Aquela mulher perguntadeira, ao aceitar a prodigalidade dos seus, redimia a si e a todos de sua árvore familiar, que os galhos podados agora ressurgiam mais fortes e viçosos. Se não fora abandonada por merecimento, ao menos tinha por expiação a distância dos que, quando de casa, nunca acreditaram numa total aproximação.
          - Não é parente não...
          Faltava-me dever explicações a uma desconhecida, uma velha enxerida que deveria apegar-se a um terço, como as freirinhas empoleiradas no refeitório, e deixar de lado o falatório inquiridor. Ela nunca entenderia.
          - É não?
          Como descortinar o motivo de tamanha insistência? De onde viria esse apego a alguém tão pouco confiável como eu?
          - É minha namorada...
          Melhor assim. Sem pormenores. Sem esgarçar toda a minha vida para justificar uma simples espera em rodoviária.
          - E já faz tempo que ela está longe?
          Como tossisse, afastei-me um pouco, mirei o atracadouro dos ônibus. Fiz um gesto num estalar de dedos para indicar um longo tempo. A senhora deu-se por vencida, grunhiu, gesticulou e, finalmente, concluiu o interrogatório.
          O cansaço já me cobrava assento, quando o ônibus de Parnaíba despencou pelo corredor. O pulso disparou. Rangia os dentes como se mascasse um chiclete. E ela, como estaria? Com a mesma apreensão ou, quem sabe, mais segura de gestos e falas. Como tocá-la, se é que o devo fazer? Talvez um simples aperto de mão indique certo descaso ou mesmo indecisão. Um abraço parece-me ousado demais. Somos namorados, acordamos isso, mas o fato é que nunca nos encontramos de verdade. Sempre confidenciamos nossos porquês pelas vias seguras do computador. Um ano e cinco meses de intimidades digitais não me garantiam segurança no momento mais aguardado por nós dois. E se ela não gostar do meu cheiro, da textura de minha pele, da espessura de meus cabelos? E se tudo que a tela e o teclado escondiam não for suficiente para ela?
          O motorista pôs-se à porta para recolher os bilhetes. Seria ela a primeira a descer, como em cena de novela? Não foi. Um senhor de ossos engelhados roubou-lhe a cena. Mas ela veio. Deve estar no aguardo, assim como eu, do momento certo de aparecer, como na hora marcada para entrar na internet e traçar longas conversas, ternas e silenciosas, outras vezes até picantes, dada a intimidade que adquirimos com o passar dos acessos.
          Depois de alguns minutos de expectativa, ela surgiu, trajando o suéter vermelho que lhe enviei seis meses atrás, quando ainda embrionávamos o primeiro encontro no mundo real. Acenei timidamente. Seu sorriso cercou-me de alívio. Estacou em minha frente e abriu os braços. Já não me sentia um estranho naquele lugar. Agora eu tinha a quem esperar ou por quem chorar quando partisse. Abracei-a com força, sentindo sua complacência.
          - Adorei seu cheiro!

sábado, 18 de dezembro de 2010

3o lugar no XIII Prêmio Ideal Clube - Conto

Compartilho aqui minha absoluta felicidade por ter alcançado o terceiro lugar no XIII Concurso Ideal Clube de Literatura, categoria texto inédito. Levando em conta que foram mais de quatrocentos inscritos, acho que vale a pena investir nas letras. Segue abaixo o conto agraciado.

                                                        O BORDADO PELO AVESSO


           A viagem prosseguia morna e o tempo se esticava. Olhar pela janela dava uma aflição. A paisagem estorricada, a sequidão dos riachos, os arremedos de bichos a farejar qualquer esboço de pasto. O sol das quase três horas derretia-lhe a maquiagem. Faltavam ainda uns bons quilômetros. Retocava os lábios, os lados do rosto, queria parecer bem. Poucas poltronas ocupadas, um silêncio dormente.
          Quinze anos sem dar notícias. Um suspiro, uma ligação, a morte da mãe anunciada. Decidiu então voltar, rever a casa materna, engolir as mágoas. Empurrava os peitos com força, arrumava-se na poltrona, cruzava as pernas, sacudia os cabelos.
          A vermelhidão das horas riscava o horizonte. A modorra lhe trazia o velho pai. Seu Estênio, de olhar grosso e sobrancelhas grudadas. Veio-lhe o dia em que parou a lida para improvisar um penteado numa espiga de milho. Apanhou para a vida toda. O pai, dizem, morreu de desgosto, quando, no caminho da cacimba, flagrou os primos. De nada adiantou bater, xingar, amarrar no pé da cama. Quando é para se soltar, não tem quem segure. O velho não resistiu. Adoeceu, prostrou-se e dias depois morreu.
          Ainda jovem, decidiu sair de casa. Tinha sede de mundo. A mãe, D. Felícia, de alguma forma entendia, mesmo calada, consentindo com o olhar distante, perdida no terreiro, tangendo as galinhas. Vivia do marido, que a tirou da família ainda moleca numa partilha de gado. De dia, era tratada como uma criada, com tudo pronto na hora certa. De noite o velho se chegava, fétido dos bichos. As crias não vingavam. Cinco sequer vieram ao mundo. Dois saíram cedo demais e viraram anjos. Olhou pela janela do ônibus e sentiu-se sobrevivente. Agora a mãe, tão próxima, traços delicados, tornava-se um remorso. Tempo demais sem dar notícias. Era tarde.
          Saiu da brenha para as terras do Sul com as roupas do corpo e uma escolha. Prostituiu-se em postos de gasolina, conheceu toda espécie de homens, até se agüentar como manicure em São Paulo. A vaidade era a única virtude que lhe restava. Os cabelos vinham na cintura, as unhas vermelho-sangue, o carmim, as lentes cor-de-mel. Por onde passasse, um assobio distante, uma piadinha. Olhando pela janela, a beleza refletida, o tempo cuspia-lhe a cara.
          - Quem vai descer na Passagem da Onça!
          Tanta exuberância atrapalhava os movimentos. O salto agulha, a insegurança nos passos, o olhar inquiridor dos passantes. Não trazia bagagem, só uma bolsa tiracolo. Apanhou uma moto-táxi, não tinha segurança do caminho.
          - O sítio de D. Felícia, por favor!
          Puxou o vestido, aprumou-se na moto e, aos poucos, começou a reconhecer a trilha. O açude do Traguçu, a cancela da fazenda dos Mota, a velha cacimba, agora desativada.
          - D. Felícia era mulher boa, decente, não merecia tanta solidão...
          - Com certeza!
          A porta do sobradinho era familiar. O chão de cimento queimado, o forno de pedra, os quadros em feitio oval. O quarto, o cheiro. Da janela, o mesmo vazio que a mãe sempre procurava. Sentou-se diante da penteadeira, os frascos vazios de perfumes, os gavetões emperrados, o espelho. O tercinho da mãe. Sempre se apegavam ao tercinho quando o velho Estênio dava de surrar quem estivesse na frente. Retocou a maquiagem, apanhou o terço e saiu.
         O vestido esvoaçava, o salto afundava na piçarra mole. Tinha chovido. Tirou os sapatos, jogou na ribanceira.
          - Pra que lado fica o cemitério, seu moço?
          - Depois do matadouro.
         Que ironia, um cemitério e um matadouro. Caim e Abel. Riu-se. Apertou o passo, o calor era insuportável. Na entrada do cemitério, um senhor enfiado no chapéu apontou o lugar. Felícia Neves de Araújo.
          Não havia mais nada a fazer. Apertou com força o terço. Esticou o pescoço. Ninguém no cemitério. Pouco a pouco foi se desfazendo. Tirou as unhas postiças, os cílios, limpou o batom. Enfiou a mão no vestido e sacou o enchimento do sutiã. Por fim, puxou a peruca e jogou no tempo.
          Da tiracolo, um revólver. O cano na boca, um disparo. Umas galinhas ciscando tomaram um susto. Continuaram a bicar a terra.



segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O Rio de Janeiro continua indo

          - Vamos brincar de Rio de Janeiro?!
          - Vamos! Eu sou do BOPE!
          Eram meninos, dez ou doze anos, por aí. Crianças que, com tranqüilidade, simulavam brincadeiras de polícia e bandido. Uma simples e necessária traquinagem infantil, se não fosse pela forma como se referiam à travessura. Rio de Janeiro agora é sinônimo de guerra, como o Kansas City de antigamente. Acontece que, nos faroestes de tempos idos, o bangue-bangue pipocava em um universo tão fantasioso quanto o criado pela pueril imaginação dos curumins. Não havia, por exemplo, balas que se perdessem, pois os pistoleiros do velho oeste não desperdiçavam mira com tiros sem direção. Um apertar de gatilho e pronto, o adversário já era, sem sangue, mas com uma boa dose de contorcionismos faciais.
          No Rio, a coisa é bem diferente. A violência é escrachada, quase um deboche, uma afronta àqueles que duvidavam de tamanha insensatez. É aterrador ver a organização da bandidagem, que segue uma hierarquia estabelecida na base do quem mata mais. Ademais, a quantidade de entorpecentes faz indagar de onde viriam as toneladas de maconha, as milhares de pedras de craque, os quilos e quilos de cocaína. Quanto ao armamento, é difícil explicar a origem de tantas pistolas, fuzis, granadas e outros apetrechos bélicos de arrepiar o mais truculento dos skinheads. Agora que o enfrentamento policial está devolvendo os morros aos seus pacíficos moradores, resta saber o que fazer depois, quando tudo estiver calmo e as pessoas recomeçarem suas vidas no sobe-e-desce das ladeiras da favela.
          O fato é que ainda não bolaram um caveirão capaz de barrar o avanço das milícias do abandono social e do descaso político. Imaginemos um Rio de Janeiro sem traficantes, mas com milhares de pessoas sedentas de amparo e igualdade. No meio desse povo todo, algum garotinho, acuado pelos porcos devoradores de lixo e sonhos, assumirá a responsabilidade de sair das vielas da pobreza, nem que, para isso, tenha que criar uma nova droga ou um novo Comando Vermelho. A imprensa e os setores interessados mostram as favelas como locais pacificados. Entanto, não existe paz sem liberdade. E ser livre é usufruir plenamente da condição humana, longe dos monturos que absorvem esperanças. A impressão que dá é de uma limpeza de quintal, para que os rostos alvos do Leblon possam passear tranquilamente, sem esbarrar com o cheiro da pobreza ou com os estilhaços da indigência.
          Agir energicamente é necessário, até porque é assim que os bandidos costumam fazer. Porém, sem uma intervenção efetiva para que os moradores das comunidades recuperem a plena cidadania, outros Marcolas ou Fernandinhos Beira-mar não tardarão a surgir, talvez mais violentos e sanguinários, por se sentirem enganados por uma sociedade que se perde em moralismos estrábicos. Enquanto isso, vamos torcer para que os meninos do início da conversa achem outro tipo de brincadeira.

domingo, 28 de novembro de 2010

Reticências


          Você acredita em coisas predestinadas, traçadas meticulosamente antes de qualquer balbucio humano no planeta, ou mesmo antes de qualquer conceito de planeta que pudéssemos ter? Por certo, isso não é uma verdade universal. Entanto, permito-me corromper as algemas do tempo, das horas, e criar uma nova realidade, da qual eu faria parte se não fossem os tortuosos caminhos da existência. De qualquer forma, recriar a vida é a vantagem mais dolorosa do ato de escrever, portanto usufruo dela para fazer o que deveria ter feito, como estava previsto sei lá onde.
          Que tal flores, para começar? Um irrepreensível buquê de rosas vermelhas, no meio da noite. Talvez um pouco de chuva, não muita, apenas o suficiente para criar um clima noir. E o presente? Não se pode chegar ao aniversário de alguém sem presente, principalmente por se tratar de quem se trata. Que presente ela gostaria de receber? Não faço a mínima ideia. Quando convivíamos, não nos importávamos muito com pormenores materiais. Mas alguma coisa eu levaria, ainda que fosse um simples livro, que ela é afeita à leitura, como eu. Enfim, chegaria de surpresa, quando todos já estivessem postos à mesa e não houvesse mais expectativas de que mais alguém chegasse. Sorrateiro, em passos silentes, me aproximaria pela popa, solicitando a condescendência dos que me notassem. Ao pé do seu ouvido, com languidez, insistiria no clichê do “adivinha-quem-é?”. Por alguns segundos, correria por nossas veias uma sensação antiga, pois chegara o momento do terrível e inevitável reencontro. Um abraço seguiria, como quem retorna ao canto de origem e aconchega-se no colo materno, depositando ali todas as inseguranças e desejos. Então, no solo do seu abraço, sem desapegar-me de seu corpo, eu diria:
          - Há quanto tempo, não é mesmo?! Vim pelo teu aniversário, que nada nesta vida me privaria de te abraçar! Aliás, não me deixa partir. Dize uma palavra, uma que seja para me permitir acreditar. Pede, que eu fico. Não importa o que vives agora, pois sei que teu mundo é outro, as pessoas que te cercam agora são outras, com outros porvires, outras viagens. O que vale neste momento é que ainda és viva em mim. Aprendi, a duras penas, a desacreditar do amor, das sentimentalidades. Eis que tu chegaste, como quem naufraga e se abriga no peito de outrem, para deliberadamente corromper tudo que sempre defendi. Em ti, o que se entende por amor fala mais alto, irrompe violentamente, deixando no rosto uma cicatriz em forma de sorriso. Pode parecer impossível, mas amo-te da forma mais fecunda. É tarde, direis, e eu te respondo que sim. Todavia não importa. Não tenciono retribuições, apenas peço que escutes. Que linda estás com cabelos novos, mais madura, mais inteiriça. Que fazes da vida agora? Tudo bem, sei que não é mais da minha conta. Quero apenas que não te iludas com a ideia de que, em qualquer instante, eu tenha te esquecido. As circunstâncias do tempo não me permitiram continuar te amparando, mas te velei do meu jeito, como um faroleiro ciente de que, ao longe, vela pela segurança dos que navegam. Que fique, pois, muito claro: ainda não tomamos nossa última dose, ainda não houve um ponto final, ainda não encontrei quem me renovasse tanto. Vivo a vida em reticências. O que realmente importa é que, hoje, celebro a minha vida na tua, pois é teu aniversário. Tenho plena certeza de que em tua felicidade é possível erigir a minha. Posso te dar mais um abraço? Prometo não ser breve.
         E assim, com olhos e pensamentos enervados de sentimento, teríamos nosso encontro, marcado desde sempre em nossos genes. Em seguimento, com tudo já exposto, lançaria, pela enésima vez, um adeus com ar de até breve. Seguiria sem olhar para trás, mas com a certeza de que não seria a última conversa. Aliás, como aprendemos um dia, sempre é a penúltima. Eu não devia dizer, mas essa tal saudade bate que até assusta.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Pedras, chumbos e revoltas

          De um lado, um homem branco, jovem, empresário bem-sucedido, atirador de chumbinhos, péssima mira (ou não...), orgulho dos pais, dos amigos e das incautas da meia-noite. De outro, um flanelinha, foragido da justiça, da família, da vida, intruso em qualquer lugar que não seja de asfalto, desacordado das drogas, repulsivo, escarnado pelos olhares de asco e ódio.
          O primeiro estudou nas melhores escolas, e lá, provavelmente, destacou-se por suas inofensivas brincadeiras, dessas de se escolher uma vítima, de preferência solitária e tíbia, e arquitetar uma brutal perseguição, com apelidos insistentes, agressões constantes, macerações morais de toda espécie. Por ser a alegria da turma do shopping, o garotinho do papai expandiu seus negócios, franqueando a violência, criando uma corrente de bestialidade jamais vista. Os muros escolares já não podiam conter seus instintos. Agora, em qualquer lugar, sem prévio aviso ou hora marcada, irrompia uma agressão gratuita contra quem se predispusesse a compartilhar o mesmo oxigênio do sobrinho preferido da titia que mora em Miami. As meninas o tinham como um vingador, um herói troiano, um mártir a arriscar a própria vida para levar o lixo do mundo para a reciclagem. Ora, diria ele em sua infinita pequenez, ninguém suporta estar em um barzinho, balbuciando anedotas sem sentido, e deparar com uma mãozinha trêmula, estendida miseravelmente à cata de um trocado ou, quem sabe, um resto de tira-gosto ainda sem dono; é de causar enjôo aquele povo torturado, maltrapilho, esquálido desde sempre, interrompendo a tranqüilidade do canteiro central com suas caras de fome que a miséria iguala; não se pode conviver com aquela mãe parideira, com setecentos filhos espraiados no calçadão, torta e manca, mal se levanta, com os moleques fazendo todo o trabalho sórdido, matando a fome com uns trocados e algumas brincadeiras. Ocorre que, um dia, com todo o futuro devidamente engatilhado, esse representante mais do que legítimo das grandes mansões, das gordas porcas de clubes recreativos, dos bigodes retilíneos borbulhados de champanha; esse exemplo maior de que o planeta já tem dono e são poucos os que possuem o passe livre para a liberdade social e financeira; esse pedaço de moleque travesso que, sem saber, estapeou a todos nós com suas atitudes aplaudidas desde cedo pela miopia familiar; é justamente esse indivíduo que, por um ato insano de galhofa ou justiça, empunhou uma espingarda de chumbinhos, apontou para um flanelinha, mirou e atirou. Seguiu-se a isso uma risada frouxa, acompanhada de uma débil sensação de poder.
          A outra personagem dessa história é breve demais para ser notado. Não há vestígios do pai. Cresceu assolado pelos tapumes que o cercavam, no favelal do sopé do morro. Quando pequeno, apanhava da mãe, que exigia dinheiro e impunha-lhe um expediente. Apanhava dos irmãos, que lhe tomavam o dinheiro do final do expediente. Apanhava dos estranhos, que lhe queriam tomar o dinheiro que já não havia. Apanhava dos nãos que recebia, das vistas enojadas, das crianças curiosas repreendidas por chegarem perto demais, dos guardas municipais cumpridores de seu mister, da polícia cidadã, das milícias, dos cães, da chuva e do sol. Aos quinze anos, debutou na marginalidade, presenteando a si próprio com o primeiro revólver. Viu que era fácil assustar os otários de tênis bonitos, de bons carros. Bastava se chegar. Só sacava do “berro” se fosse ameaçado, o que raramente acontecia. Um dia, um comparsa de esquinas e pequenos furtos chegou com a salvação de todas as fomes. Era uma pedra, branca, macilenta, uma pedra de fumar. E como se houvesse desvendado o segredo das pedras filosofais dos alquimistas de outrora, aquilo lhe vinha como a maior de todas as invenções, superior à criação da roda ou à manipulação do fogo. As coisas, então, começaram a fazer sentido. Ele era um caçador, uma fera instintivamente preparada para agir e matar a fome. Os outros eram presas, caminhando em bandos, indolentes, patéticas, nascidas para sucumbir. Assim seguiu, sem rumos ou expectativas, sem a mínima idéia do que fosse amor ou esperança. Com aquelas pedras providenciais, ia construindo seus castelos de penúria e sectarismo. Vez ou outra, tirava uns trocados pastoreando carros. Em uma dessas, manhãzinha aflorando, ao virar-se para atender o chamado de um estranho, sentiu uma lágrima adensada misturando-se à noda entranhada no rosto. Era a forra do mundo que ele barbaramente caçou durante toda a sua vida. Inutilmente sentou no meio-fio. Alguém riu disso tudo.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Mauro

          Pelo cair da tarde, ouvia-se o assobiado de Mauro, de pescoço estirado no rumo da ladeira do Croatá.
          - Bora!
          Depois de alguns assobios e resmungos, o cachorro saía dos matos, sacolejando os carrapichos. O curumim então principiava a caminhar de volta para o sítio, a enxada pesando no ombro.
          - Bora!
         Mauro era o mais novo de cinco irmãos. Criou-se na lida serrana, tangendo bicho pelas trilhas, caçando preá no mato. Quando se dava fé, lá estava ele trepado na jaqueira mais alta. Com o tempo, tornou-se rijo, calado. Para ganhar uns trocados, limpava os terrenos alheios. Olhava fixamente para o chão toda vez que cruzava com alguém pelas passagens. Melhor lidar com bicho que com gente. Trazia no cós a faquinha amolada, presente de Vô Xicute, que sangrou um lobisomem pelos lados da Passagem da Onça.
          Durante os festejos de Nossa Senhora das Dores, a cidade se enchia de gente de fora. As camionetes subiam e desciam, dando carona aos caminheiros. Os leilões no salão paroquial, a missa campal, os fogos de artifício espraiados no céu. Mauro arregalava o olho a cada pipoco.
          - Vai não, Mauro? A cidade tá uma belezura...
          - Vô não!
         De longe, as luzes da cidade guiavam as vistas. Sentado à beira da rodagem, Mauro admirava, no meio da escuridão, o movimento dos carros, os faróis altos riscando o breu na subida da ladeira. Ao lado, o cachorro, perplexo com todo aquele movimento.
         Diziam que aquele cachorro parecia com Mauro. Arredio, cismado com tudo. Por um pouco não cresceram juntos. E o bicho demorou a ganhar a confiança do menino, que enfim cedeu às insistências do cão. A partir daí, um tornou-se a sombra do outro. Desse um assobio, o cachorro brotava. Desse um latido, Mauro aparecia.
         Mauro já havia decidido voltar para o sítio, quando ouviu uma música alta, estridente. A primeira reação do curumim foi tapar os ouvidos. Era uma camionete grande, barulhenta, iluminada de ponta a ponta. Passou feito bala.
         O menino se esticou até não poder mais para acompanhar o rastro daquele monstro. Foi então que deu por falta do cão. Não deu tempo de assobiar. O bicho estava estirado no meio da rodagem, arfando. Mauro estancou diante do corpo amolecido do cachorro, a piçarra ainda mais avermelhada. Arrastou o bicho até a margem da estrada, e de lá até o sítio. Estava sem jeito. Mauro estirou o cão num tapete de palha de bananeira e entrou.
         Dias depois, pelas horas mais longas, Mauro cavava um terreno próximo do açude Careta. Até que ouviu por ali uma falação solta, animada. Encontrou um jeito de não ser visto e foi reparar o que se passava. A mesma camionete enfeitada. A mesma música estridente. Dois homens, duas mulheres e um menino. Gargalhavam com força.
         O pequeno que fazia parte do grupo afastou-se dos convivas, indo em direção ao mato. Era branco feito gomo de jaca. Mauro chegou mais perto, acocorou-se. Tirou a faca do cós e riscou a terra. Se soubesse as letras, teria dado um nome ao cachorro. Se soubesse, escreveria o nome na piçarra.



















terça-feira, 9 de novembro de 2010

          Sou filho único. Nasci sob essa condição. Vim ao mundo como que por piedade, depois de outras cinco gestações mal sucedidas. Um sobrevivente, alguém que forçou a entrada e fincou pé na existência, numa espécie de daqui-ninguém-me-tira. Ocorre que, passadas as glórias do nascimento, sobreveio o estigma do ser solitário. Irmãos, nunca os tive; amigos, sempre os de passagem; amores, apenas os efêmeros.
          Na convivência com a solidão, aprendi a ter com ela, apreciá-la, decifrá-la, dormi-la, acordá-la. Todavia a condição de especialista nessa área não me causa amparo, tampouco me dá a segurança necessária para fugir. Na verdade, tornou-se um visgo, como se a própria solidão, ciente de sua veia de maestrina, regesse meus passos, apontando a batuta, ditando o ritmo como devo aplainar a vida. O fato é que a conheço, e conhecê-la é uma forma de violentar-me, quase como quebrar mil espelhos para fugir de mim próprio, quando na verdade o que fiz foi espalhar-me em dezenas de milhares de pequenas imagens lancinantes, tão cortantes e sangrentas quanto meu corpo derramado sobre os estilhaços. Sendo assim, é preciso viver sem a consciência de que a solidão nos é inerente. Se apenas enxergamos, não existem olhos, que passam a existir no momento em que se toma consciência do mecanismo da visão. Mesmo agora, quem se propõe ler este texto fazia-o desprendido de qualquer técnica ocular superior. Ainda que durante a leitura os óculos sejam, vez ou outra, solicitados com a ponta do dedo, o que se tem é a consciência, mínima ainda, de que existem óculos. Mas os olhos estão lá, cumprindo seu papel, embora não os agradeçamos ou os reconheçamos como parte de uma mecânica íntima e latente. A solidão não nos é diferente, já que apenas está lá, aparentemente inerte, mas sempre produtiva. Basta que tomemos tento de sua existência para que de pronto notemos nossa íntima condição de solitários.
          Não pretendo ser pessimista. Fique claro que também não quero ser apologista de campanhas em prol do abraço coletivo. O que me vem é a pura vontade de incompreender. Dizem que não ter como compreender já nos basta como uma forma de compreensão. O que sei é que há um incômodo na solidão, e isso me tortura, conquanto todas as suas faces sejam, de alguma maneira, justas. Imaginemos o solitário poeta, embebido de estrelas, amante da madrugada boêmia, da mulher sem castas, do espório noturno das meretrizes. Seu enleio poético apazigua a solidão, que encolhe as asas por um tempo, como num sopro de vida no proscênio da morte.
          Já a solidão dos pensadores é torpe, pois ignoram o impacto, fingindo, em oposição ao poeta, não sentir dor, tomando tudo por patologia, pânico, abstinência ou coisas do gênero. Uma boa solidão é a da criança, por ser imagética e contemplativa, embora se conceba ali o pior dos retratos: a do menino sem amigos. Porém a criança nunca está completamente sozinha, uma vez que faz da pedra uma fortaleza, da espiga um confidente, da batata e dos palitos um animal de estimação. Não queiramos a solidão dos idosos, que se traveste de abandono, que anula todas as capacidades.
          Espantam-me os que negam a condição de solitários. Exercitam amizades, tornam-se o centro das atenções, impactam, clareiam, perdem-se na primeira curva, renegam-se, mas, quando desfeitos da noite, entregam-se pacificamente à solidão dos ponteiros e das coisas, convencendo-se de todas as inevitabilidades. Assumo que me custou crer na impossibilidade de não haver solidão. O que me sobra é o conforto do não-questionar. Se Ela existe, que seja sem desespero ou pressa. Que desenvolva sua tortura com pingos d´água, macerando-me a carne para que, a duras penas, me reconheça humano.