Amigos leitores que por aqui já passaram

domingo, 25 de outubro de 2009

O bordado pelo avesso

A viagem prosseguia morna e o tempo se esticava. Olhar pela janela dava uma aflição. A paisagem estorricada, a sequidão dos riachos, os arremedos de bichos a farejar qualquer esboço de pasto. O sol das quase três horas derretia-lhe a maquiagem. Faltavam ainda uns bons quilômetros. Retocava os lábios, os lados do rosto, queria parecer bem. Poucas poltronas ocupadas, um silêncio de dar dormência.
Quinze anos sem dar notícias. Um suspiro, uma ligação, a morte da mãe anunciada. Decidiu então voltar, rever a casa materna, engolir as mágoas. Empurrava os seios com força, arrumava-se na poltrona, cruzava as pernas, sacudia os cabelos.
A vermelhidão das horas riscava o horizonte. A modorra lhe trazia o velho pai. Seu Estênio, olhar grosso, sobrancelhas grudadas. Sobreveio o dia em que parou a lida para improvisar um penteado numa espiga de milho. Apanhou para a vida toda. O pai, dizem, morreu de desgosto, quando, no caminho da cacimba, flagrou os dois primos. De nada adiantou bater, xingar, amarrar no pé da cama. Quando é para se soltar, não tem quem segure. O velho não resistiu. Adoeceu, prostrou-se e dias depois morreu.
Ainda jovem, decidiu sair de casa. Tinha sede de mundo. A mãe, D. Felícia, de alguma forma entendia, mesmo calada, consentindo com o olhar distante, perdida no terreiro, tangendo as galinhas. Vivia do marido, que a tirou da família ainda moleca, numa partilha de gado. De dia, era tratada como uma criada, com tudo pronto na hora certa. De noite, o velho se chegava, fétido dos bichos, e a embuchava. As crias não vingavam. Cinco sequer vieram ao mundo. Dois saíram cedo demais e viraram anjos. Olhando pela janela, sentia-se sobrevivente. Agora a mãe, próxima, traços delicados, tornava-se um remorso. Tempo demais sem dar notícias. Era tarde.
Saiu da brenha para as terras do Sul com as roupas do corpo e uma escolha. Prostituiu-se em postos de gasolina, conheceu toda espécie de homens, até se agüentar como manicure em São Paulo. A vaidade era a única virtude que lhe restava. Os cabelos vinham na cintura, as unhas vermelho-sangue, o carmim, as lentes cor-de-mel. Por onde passasse, um assobio distante, uma piadinha. Olhando pela janela, a beleza refletida, o tempo cuspia-lhe a cara.
- Quem vai descer na Passagem da Onça!
Tanta exuberância atrapalhava os movimentos. O salto agulha, a insegurança nos passos, o olhar inquiridor dos passantes. Não trazia bagagem, só uma bolsa tiracolo. Apanhou uma moto-táxi, não tinha segurança do caminho.
- O sítio de D. Felícia, por favor!
Puxou o vestido, aprumou-se na moto e, aos poucos, começou a reconhecer a trilha. O açude do Traguçu, a cancela da fazenda dos Mota, a velha cacimba, agora desativada.
- D. Felícia era mulher boa, decente, não merecia tanta solidão...
- Com certeza!
A porta do sobradinho era familiar. O chão de cimento queimado, o forno de pedra, os quadros em feitio oval. O quarto, o cheiro. Da janela, o mesmo vazio que a mãe sempre procurava. Sentou-se diante da penteadeira, os frascos vazios de perfumes, os gavetões emperrados, o espelho. O tercinho da mãe. Sempre se apegava ao tercinho, quando o velho Estênio dava de surrar quem estivesse na frente. Retocou a maquiagem, apanhou o terço e saiu.
O vestido esvoaçava, o salto afundava na piçarra mole. Tinha chovido. Tirou os sapatos, jogou na ribanceira.
- Pra que lado fica o cemitério, seu moço?
- Depois do matadouro.
Que ironia, um cemitério e um matadouro. Caim e Abel. Riu-se. Apertou o passo, o calor era insuportável. Na entrada do cemitério, um senhor enfiado no chapéu apontou o lugar. Felícia Neves de Araújo.
Não havia mais nada a fazer. Apertou com força o terço. Esticou o pescoço. Ninguém no cemitério. Pouco a pouco foi se desfazendo. Tirou as unhas postiças, os cílios, limpou o batom. Enfiou a mão no vestido e sacou o enchimento do sutiã. Por fim, puxou a peruca e jogou no tempo.
Da tiracolo, um revólver. O cano na boca, um disparo. Umas galinhas ciscando tomaram um susto. Continuaram a bicar a terra.

Perdão

Na véspera da ordenação, resolveram comemorar. Átila esquivava-se, não achava necessário ostentar, mas a insistência dos amigos foi mais forte.
Preparou-se à exaustão para o grande dia em que se tornaria sacerdote, conhecia os afazeres religiosos melhor do que os padres com quem convivia no seminário carmelitano. As provações por que tinha de passar já não o atormentavam, tudo era consumado em seus pensamentos, um sonho, desde que era acólito, ainda molecote, e levava puxões de orelha do padre Álvaro. Sabia que as vestes do mundo não mais lhe cabiam. Era tempo de concelebrar, e para isso tinha os amigos, os mesmo que na infância caçoavam. Lembrava com nitidez os tempos em que o chamavam “boneca de padre”. Agora nada mais importava, senão o dia seguinte, em que se entregaria a uma vida de serviços à igreja e a Deus.
Aceitou o convite. Mal não haveria. Uma confraternização apenas. Os três que organizaram a despedida eram irmãos. Átila veio depois, conheceu-os de brincar no meio da rua, de correr atrás das menininhas. Combinaram então de encontrar-se às oito e meia na frente da matriz, que já estava toda enfeitada para os festejos de Nossa Senhora das Dores, padroeira do distrito. Pela primeira vez um fruto da terra se ordenaria padre, um orgulho para todos, principalmente para D. Nila, mãe de Átila, mulher que a duras penas conseguiu dar estudo e juízo ao filho.
D. Nila nunca foi de prender menino em casa, mas com Átila foi diferente. Era o caçula. Além dele, mais quatro. Todos se perderam na bebida, mas o último a mãe conseguiu segurar, pôs cabresto. Depois da morte do marido, D. Nila perdeu o prumo, ficou doente, teve de ser internada, e confiou a criação do filho mais novo ao pároco da época. Sempre fora mulher de igreja, daquelas de contribuir em todos os eventos, de não faltar a uma novena, de se confessar a cada mês, de ajudar nos preparativos de todas as festividades santas. O padre devia favores a ela, daí aceitar cuidar do menino.
Com oito anos, Átila era o acólito mais jovem e mostrava vocação para o serviço, via-se que fazia com gosto, com dedicação. Assim cresceu no meio dos padres, freqüentando a escola episcopal, estudando com afinco os textos sagrados, afinando o vocabulário. Aos treze anos, era de citar frases em latim, de comentar as epístolas, de puxar ladainhas e terços. Até os erros dos aspirantes a padre, que à noite pulavam a janela do quarto e iam ter com as mocinhas no mato, não o fizeram perder o vislumbre da vida sacerdotal. Certa vez, numa noite chuvosa, a porta de um dos aposentos entreaberta, flagrou um padre, pelos seus sessenta anos, e um seminarista, um dos mais jovens, fazendo coisas estranhas. Voltou correndo para o quarto, trancou-se e ali, em prantos, rogou perdão para as almas de todos os pecadores. A vocação amadureceu. Com dezoito anos, mal saía do seminário. Mesmo nas férias, preferia ficar, preparar liturgias, organizar sacrários, desempoeirar as prateleiras da biblioteca.
Os amigos de Átila preferiram os caminhos do mundo. Viviam de farras, não trabalhavam, sustentados pelos pais, que já haviam decidido entregar o destino dos filhos nas mãos de Deus. Quando pequenos, arrumavam briga com outros meninos, avançando no primeiro que olhasse torto para qualquer um deles. Com Átila não foi diferente, mas entre eles, sem explicação aparente, nasceu uma simpatia. Passaram a querer que Átila andasse com eles, protegiam-no como se fizesse parte da família. Com os acontecimentos, acabaram por se distanciar, mas ainda o tinham em grande estima, tanto que, sem muito porquê, decidiram fazer uma espécie de despedida da vida mundana, um bota-fora para o colega que no dia seguinte se tornaria padre.
Na hora marcada, Átila chegou. A matriz estava um primor, toda iluminada para a celebração da padroeira, preparada para a chegada do bispo e para o grande momento da ordenação. Os irmãos ainda não tinham chegado. Os que passavam faziam questão de cumprimentar o quase novo padre.
- Deus abençoe você, meu filho! Deus abençoe!
- Amém! – respondia.
Átila já estava para ir embora, quando os três apareceram.
- Então, para onde vamos?
- Para a barragem. – respondeu um deles.
- Que tem lá?
- Nada, só nós. – e riram.
Rumaram em direção à barragem. Havia um barzinho, que não funcionava àquela hora, mas, por uma combinação prévia com o dono, um rapazinho ficara de prontidão para cuidar das carnes e das bebidas.
- É aqui.
Sentaram, pediram uns copos e sugeriram um brinde ao mais novo pároco da região.
- Não sei se devo.
- Deve sim! Não fizemos isso tudo à toa! Agora que está aqui, brinde conosco.
Átila pensou não haver mal em um copo de cerveja.
A conversa animou-se de tal maneira, que as bebidas desciam como se o copo não secasse. Os quatro já não se agüentavam, riam de tudo, contavam do passado, das vezes em que levavam carreiras dos meninos mais velhos porque levantavam as saias das meninas na praça.
A carne assada servida como tira-gosto começava a entalar. Átila não previa beber tanto, não era de seu costume, embora não fosse a primeira vez. Àquela altura, os irmãos contavam suas histórias, e o aspirante a padre apenas ouvia, rindo, mesmo sem saber por quê.
- ...E agora vai virar padreco.
- Não fale assim! – retrucou Átila.
- É verdade o que dizem sobre os padres? – indagou um deles.
- E o que dizem?
- Você sabe!
Os três irmãos esticavam-se nas cadeiras.
- Dizem que não são santos...
- Ninguém é santo, a não ser que mereça...
- Não é isso!
- E o que é então?
- Dizem que padre gosta de fazer safadeza.
As gargalhadas estouravam.
- Safadeza?
- Vai dizer que não sabe!
- Sabe o quê?
- Você morou com os padres...
- E daí?
- Sabe que tem safadeza.
Por um breve momento, a cena do velho padre e do seminarista tomou conta dos pensamentos de Átila.
- Melhor ir embora.
- Que foi? Não agüenta a verdade?
- A sua verdade, irmão.
- Você não é nosso irmão!
- Somos todos irmãos...
- Vai dizer que você nunca foi boneca de padre.
Os três cantarolaram no ritmo de uma marcha nupcial.
- Boneca de padre! Boneca de padre!
Um dos irmãos passou as mãos pelas costas de Átila, descendo até a cintura. A cantoria não cessava, o apelido da infância, o velho padre e o seminarista. Átila passou a mão numa das facas que estava sobre a mesa, apertou-a com força e cravou-a no pescoço do que o acariciava.
- Meu Deus!
Os outros dois não sabiam como reagir, apenas tentavam estancar o sangue que jorrava do pescoço do irmão.
Átila correu em direção ao banheiro. Ali, uma corda. Subiu no sanitário, jogou a corda por sobre um caibro, amarrou as pontas no pescoço e matou-se, não sem antes rogar perdão pelos pecados do mundo.



Rastros

A manhã despontava, e o menino Caçula já descia o alto, tangendo os bichos, vindo do Jitó, puxando pelo cabresto a teima do jumento, grajaús carregados de manga coité. A molecada do sítio Ladeira Grande, às ordens de D. Ambrósia, enfileirada no alpendre, cabelos lambidos, blusas perdidas, o pé da barriga à mostra. Dia de visita, uma primalhada do Sul, gente de outros hábitos, meneios de cidade, difícil de agrado.
Caçula, assim era conhecido, foi o último a se arrumar, o rosto ainda riscado da noda das mangas. O povo chegou às sete. Apenas um deles parecia familiar, os demais tateavam as coisas e as pessoas, os sorrisos soltos, falas estridentes de forasteiro. Bastou um sopro, ficaram de casa. Os mais velhos tomaram conta das cadeiras do alpendre. Os meninos amontoaram-se no terreiro, vendo de longe, esbugalhados, curiosos.
- Traz café, Nana! – gritou Ambrósia.
O povo do sítio era amarronzado, diferente dos visitantes, anêmicos, uma brancura de dar dó. Ambrósia, sempre solícita, de instante em instante oferecia alguma coisa, elogiava os cabelos lisos dos pequenos da trupe de estrangeiros.
- Tão loirinho! Branquinho, meu Deus! – derramava-se.
Entre os chegantes, um menino, de nome Ariel, olhos cor-de-fumo, cabelos escorridos. Os pequenos do sítio puseram-lhe o apelido cabelo-de-macarrão. Caçula, a essa altura, tinha se despido da camisa e começava a separar as mangas. Era rude, entroncado, olhos e nariz esticados. Apalpava com ligeireza as frutas, expulsava o mosquitaral.
- Çula...ô Çula, cadê as manga?
As melhores foram para as visitas. Caçula separou uma três para chupar na ribanceira do engenho. Os capotes ciscavam pelo terreiro. Vez em quando as camionetes, carregadas de gente da Feira, riscavam a piçarra, a poeira cobria o cimo.
Ariel se chegava, catando palhas, vistoriando os pés de jaca.
- Não tem medo de cair? É alto!
Caçula, sem mirar o outro, a boca entupida de casca de manga, respondeu com a cabeça.
- Como subiu aí?
Apontou com um gesto de queixo a pedraria que dava para o alto da ribanceira. Continuou a chupar as mangas, enquanto o outro se metia a subir. No alto, Ariel despercebeu-se da presença de Caçula, mirou até onde pôde o estirão de terras, admirou-se da imensidão do sertão e das nuvens deitadas no azulado dos serrotes.
- Dá pra chegar até aquela nuvem? – apontou sem esperar resposta.
Caçula escondia-se por detrás dos joelhos ossudos, cercado de mosquitos, o focinho amarelado da meladeira das mangas.
- Qual?
- Aquela...que parece um tapete. Lá em casa tem um tapete parecido com ela.
Os dois no cume da ribanceira mal falavam. Entre eles havia um abismo tão cavado quanto o da Pedra dos Índios. Caçula era um curumim arredio, bicho de andar descalço pelas veredas, de subir na jaqueira com faca no cós, que as jacas de vez costumam ser as do topo. Desde meninote, costumou-se com a lida de serrano, acordando antes do sol, tangendo o gadinho até a beira do açude do Careta. A insistente presença de Ariel o acuava, como se lhe pusesse em cercado, qual as reses do curral. Um menino de brancura igual à dos coroinhas do padre Sebastião de certo não saberia amansar um jumento brabo, arregaria da primeira coiçada. Os olhos de Caçula não desgrudavam do outro, que já se mostrava incomodado com os mosquitos, gemia, estapeava-se. Se vira moleque tão frágil, não se lembrava, a não ser os meninos do prefeito, que em época de campanha levava a família toda para os palanques. Esses não contavam, eram vistos de longe, figuras desfocadas. Ariel era diferente, de uma alvura próxima, um olhar curioso, uma quase agressão a todos os instintos de Caçula.
- Vem comer alguma coisa, Ariel! – gritaram do sobrado.
O menino desceu numa rapidez de baladeira. Sequer escorregou. Caçula quase sorriu.
À tardinha, os curumins do sítio costumavam se juntar para o banho na bica do Jitó. Caçula já esticava na frente.
- Çula!...ô Çula, leva o Ariel contigo, que ele quer conhecer o Jitó!
E o menino aproximou-se, tenso, medroso do que poderia encontrar no meio do caminho. Caçula farejava o medo do outro, mas seguia calado, riscando o terreiro com um galho de Juá.
A vereda estreitava a cada ladeira, e o mato rompia os cercados. Caçula pegava do chão umas manguitas, cheirava, jogava com força até estourar nos troncos grossos das antigas jaqueiras. Ariel repetia o gesto, mirava o mesmo ponto. Os dois ali, sem palestra, sem maiores intimidades, dividiam o caminho e as brincadeiras. Caçula percebia o esforço do outro, ensinava o melhor lugar para pôr os pés, alertava para as cobras, esticava o dedo para o chiado das cigarras. Ariel firmava-se a cada passo, e a rudeza daquele mundo invadia-lhe os pensamentos, atiçando a vontade de descobrir.
Os dois chegaram à bica sedentos de um banho. Deitaram as roupas em uma pedra e caíram na água, que enrijecia os ossos de tanto frio. Caçula demorava no mergulho, prendia a respiração por um bom tempo, depois emergia, fitando com olhar traquina o colega, como se o desafiasse. Ariel arriscava uma ou outra mergulhada breve, que a asma e o frio não o deixavam à vontade.
Ariel correu para a margem, agarrou-se com a toalha que trouxera, reclamou do frio. Caçula permaneceu na água, mirando o moleque trêmulo, esbranquiçado como as imagens de porcelana da sala de ex-votos da igreja. Como figura tão frágil, tão necessitada de alguém que o ampare, pode sobreviver neste mundo? Ao menos perdesse o olhar de anjo, de peça sacra; ao menos engrossasse as carnes. As gotas escorriam-lhe pelo corpo, em rastros parecidos com os veios das árvores.
Caçula sentia as palmas das mãos engelhadas, calosas. Chegou a sentir pena do outro. Saiu da água e sentou-se ao lado de Ariel, que lhe ofereceu um espaço na toalha. O curumim da serra nunca havia sentido tanta maciez. Nos seus doze anos, despidos, cobertos pelo alvor do instante, entreolharam-se e riram-se, até o vento apagar os rastros.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

apartamento 305

as mesmas horas...o ar-condicionado do carro incomoda, recém-instalado, uma novidade, o jornal no banco do passageiro, alguma notícia sem importância para os minutos, o relógio no painel, ontem as crianças no colégio encenavam uma peça, dom Quixote, os dois pequenos em papéis secundários, os moinhos, sorrio, não lembro de ter lido, mas os moinhos são conhecidos, sonhos, gigantes, são conhecidos, na próxima esquina à direita, uma algaroba, boa sombra, o número, 305, uma loja de animais, coelhos, nunca gostei de coelhos, o portão, o velho espremido numa cadeira de palha, dorme, o espasmo, sono profundo, sonho, o relojoeiro, a lente obtusa, disforme, o olho do relojoeiro é acusador, a escada, passo, lento, o azulejo esverdeado, algo na parede, a música, mas chegou o carnaval e ela não desfilou, as falhas lembram reticências, a criança de sempre chora, a televisão, tudo vem do mesmo lugar, ecos, riscos obscenos, convites para um encontro às escuras, telefones, primeiro andar, vultos, um casal, o olho mágico, alguém sabe, de tudo se sabe um pouco, aperto o passo, segundo andar, latidos, o último jogo de escadas, 305, sua a palma da mão, a campainha, de novo, outra vez, barulho de chaves, a porta semi-aberta, só um instante.

apt. 305

a puta breve, olhar sobrecarregado, ressaqueado, seca no falar, reticente, exigia o soldo, batia com a unha exagerada do indicador na penteadeira, deixa aqui o dinheiro, primeiro o dinheiro, do lado de um porta-retrato, dois jovens se beijando, foto de revista, e no canto uma três-por-quatro de criança, da idade de minha filha mais nova, sua filha?...não se espera resposta, pegou o dinheiro, ia banhar-se, Luana, o nome dado por ela na última vez, essas mulheres se ocultam por trás de nomes pomposos, Luana, não tem cara de Luana, tem cara de maria alguma coisa, francisca sei lá de quê, marcas arroxeadas no corpo, um cheiro de sol saía da toalha, não vai se banhar?, ou se banha ou nada feito, assim é mais real, o chuveiro era um cano, uma bica, a água vinha de repente, um chicote, fria, indecentemente fria, dói nos ossos, rio, não se espera reação, se incomoda que fume?, não se espera que incomode, não sou de fumar, me dá um, fumamos juntos, não sou de fumar, isso eu não ensino, riu, você é tão sério, só um pouco, tem cara de safado, longe de mim, tem que ser safado para estar aqui, sou não, tem cara, e você?, que tem?, é safada?, faço o que posso, rimos, a conversa segue por quatro ou cinco tragos, o cigarro acabou, dá vontade de fumar outro, vamos começar, como você se chama, Larissa, mudou o nome, não tem cara de Larissa, tenho cara de quê?, maria alguma coisa, como sabe?, não sei, quer um filme, uma música?, uma música, gosta dessa?, pode ser, não gostei, pode ser, gosta de quê?, deslizava as unhas pelo braço, qualquer coisa, por isso está aqui, por quê?, porque gosta de qualquer coisa, não é bem assim, você é casado, não, não diria nunca a ela, tem cara de casado, não era safado?, por isso mesmo, se fosse casada meu marido não ia buscar nada fora de casa, a garotinha da foto, minha filha, já gostei de um homem, não foi pra durar, não, as unhas nas minhas costas, e você?, que tem?, já se apaixonou?, íntimo demais para uma puta, todo mundo já se apaixonou, e hoje?, prefiro beber, rio, por quê?, amar é tão bom, beber é melhor, não acho, quer uma bebida?, quero, tem cerveja, serve, beber pra quê?, beber e amar são coisas muito parecidas, não acho, ambos entorpecem, ambos fazem dizer coisas que não seriam ditas em estado normal, ambos causam euforia e tristeza, ambos nos jogam num mundo irreal, se é assim por que prefere beber?, beber tem uma grande vantagem, qual?, no dia seguinte se está curado, você é engraçado, as unhas abrem a toalha, acaricia-me o sexo, você é inteligente, que faz da vida?, trabalho com informática, sabia que era estudado, como pode saber?, fala de um jeito esquisito, como?, fala de professor, não é pra tanto, uma vez um professor saiu comigo, divertido, era de me comparar com mulheres de livros, de falar poesia, de beber vinho, casado, quase me deixei levar, apaixonou-se?, quase, que faltou?, eu não quis, nisso não se manda, eu mando, não seja tão fria consigo mesma, é meu jeito de me defender, pra que se defender do que é bom?, não é bom depender de alguém, falo de amor, falar assim não combina com quem prefere beber, você é bem esperta, também sou estudada, é formada?, terminei o segundo grau, pretende continuar?, vou fazer faculdade de estilismo, bem sua cara.
Continua...

Táxi

Toda a claridade do meio-dia pendia sobre o pára-brisa. Corria a mão pela testa de quando em quando, muito por sinal de enfado do que para resolver a quentura. A senhora repuxava a roupa do filho, grudava-o no encosto, impacientava-se com o calor que fazia. Mal se distraía a mirar a janela, lá ia o fedelho escorregando pelo banco, como vasculhasse algo, como sentisse falta do safanão da mãe ao esticar-lhe a blusa. Foi assim três ou quatro vezes, enquanto no rádio davam a notícia de um tal empresário que havia cometido suicídio.
Palestrava com todo tipo de passageiro, mas não me sentia à vontade para comentar o que fosse com aquela dona. Poderia aproveitar a deixa, um homem que se mata é sempre razão para um bom prato de filosofia. Ademais, havia o calor, os buracos das ruas, a eleição próxima. Contudo, o olho trágico da mulher, rasgado na direção da janela, repelia qualquer intromissão. Só o filho ainda lhe arrancava algum movimento.
A reação veio num repentino sinal de pare, esticando a mão e apontando um homem que saía de uma revenda de carros. Segurou-me firme no ombro para que parasse o táxi sem que ele percebesse. A senhora esticou os olhos, quase com a face encostada na minha – sentia-lhe o hálito, estava ofegante, chegava a bufar. O menino aquietou-se, entretendo-se com as pessoas da calçada. Sugeri buzinar, descer do carro, o calor me roía os nervos, mas o não veio rápido.
- Vou só nesse bar comprar algo gelado, que o calor é grande! A senhora quer alguma coisa? O menino quer?
Outro não. Sequer indagou o filho, que a essa altura já tomava ares de sono. Desci do carro. Do dito bar, percebi a senhora ainda imóvel, mirando o outro. Só assim, de longe, pude realmente notar que não era uma mulher feia, via-se que se cuidava, tinha postura. Deu vontade de levar um refrigerante para ela, mas tive receio de que isso a denunciasse ao homem que esperava na calçada, encostado em um carro. O filho já dormira a essa altura. O homem fumava um cigarro, era lento nos gestos, não aparentava mal-estar, não se escondia, até cumprimentava um ou outro conhecido.
Aquilo só podia ser coisa de mulher enganada, dessas que desconfiam do menor sinal de mudança no comportamento do marido. Deveriam ser casados. Ali, enfurnada num táxi, no pico do meio-dia, espionando homem, com o filho a tira-colo, só podiam ser casados. Imagino o que não teria feito a boa peça da calçada. Traição. Não tem outra desculpa para uma situação dessas. Cheguei a ter pena daquela senhora, mas quem é que conhece as pessoas. Sabe-se lá se não é uma desvairada, que prefere um casamento medíocre, que luta até o esgotamento para manter o que já não se sustenta. Talvez queira apenas confirmar os próprios devaneios. Talvez o marido nunca a tenha traído, e é esse o dilema que aquela senhora experimentava: se foi traída, perde pela vergonha de ser trocada, mas ganha pela intuição certeira de mulher; se não, perde por se achar paranóica, mas ganha por ter um marido direito. De uma forma ou de outra, a sensação é terrível.

Continua...

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Desisti de buscar veredas incompreensíveis, de rasgar bestialidades em prol de ideologias de shopping, de enfrentar, a cada dia, o leão da discórdia, de reinventar instantes, como se o que houvesse para viver fosse, necessariamente, uma continuidade. Vivemos de interrupções. Desisti de pensar, de procurar vampiros, de assustar criancinhas, de demolir esculturas clássicas, de espionar o quintal do vizinho. Não tenho mais vizinhos nem quintais. Desisti de apelidar os outros, de sorrir sorrisos vãos em sinal de cordialidade, de engolir palavrões por ofício, de vomitar poemas por segundas intenções. Desisti de arremessar insultos contra todos os que crêem em sentimentalidades, de refrescar a moleira nos olhares que, por serem íntimos, são impenetráveis. Desisti de perfurar poços artesianos, de mirar a calçada pelas persianas, de ter bichos de estimação, de refugar desejos, de ouvir, à meia-noite, alguma canção de Bob Marley. Desisti de correr atrás de solicitudes, de escalar colinas áridas, de gritar em grutas, de revelar, por torpeza, nos cálidos momentos de embriaguez, decadências e fragilidades, das que nos fazem perder as máscaras sob as máscaras sob as máscaras... Desisti de pagar por um amor cronometrado, de viver a expensas de leprosos e cegos, de aprender truques novos, de negar velhas experiências, de cerrar a alma para tudo que arrefece esperanças, de teorizar sobre o vácuo, de irromper de asfaltos, de amar sem ser amado. Desistir de ler as cartas amareladas, de ter de volta a tão bem-vinda paciência, de emocionar manequins, de ver lágrimas escorrendo no rosto de porcelana dos que se julgam inocentes, enquanto condenam a humanidade ao desterro. Desisti de ver televisão, de perder tempo racionalizando o incômodo crepúsculo do domingo, de ir à igreja, de ter fé em qualquer porta que se me abra. Desisti de procurar em muros e fachadas a sofrível carinha do tenha-um-bom-dia, de participar de folguedos e reisados, de desfechar escrúpulos nos tolos momentos desejosos, de dominar asperezas, de resgatar impossibilidades, de alienar os mais moços, de parir o futuro. Desisti de manter as aparências, de insistir em decências, de angariar simpatias, de ser o primogênito do mundo, de cobrar esterilidade, de balbuciar jingles publicitários, de escrever sem pensar no outro, de ser as coisas, de coisificar o ser. Desistir de felicitar por casamentos, de emprestar alianças, de encarar finais felizes, de mecanizar Drummond, de desartificializar Spielberg, de ironizar Bush, de esfriar Clarice. Desisti de responder mensagens apócrifas, de fotografar infelizes, de implorar abraços, de sussurrar paquidermes, de abrigar gostos antigos, de revisar linhas retas, de esclarecer fantasias, de aparecer de repente, de fomentar receios, de esconder botijas, de esfacelar artérias, de morrer. Desisti de retaliar frugalidades, de desrespeitar os dogmáticos, de invejar estrangeiros, de envelhecer por remorso, de remoer aflições, de culpar o espelho, de fumar por terapia, de ceder no primeiro blefe, de buscar o que não me busca. Desisti de tentar, de tramar seqüestros, de parafrasear lingüistas, de lamber macerações, de perscrutar juventudes, de perecer inocente.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Ao poeta de lavras e hinos

Ao mestre Linhares Filho

Tuas cãs em feérica lida
a captar a essência das coisas
e dos seres,
tuas tímidas mãos na moldura verde
a coser vocações no etéreo
olhar dos que, por arrebatamento,
seguem pelos meandros de tua
madura topografia.
Tua nau ainda em desbravo
singra a vida em pulsante faina
que a Poesia, tabernáculo do Ser,
orienta,
em teu peito emerge, lavra e hino,
o grato torrão lavrense, Pasárgada
de rio, alazão e saudade.
Em teu engelhado toque,
inventas um tempo, insumo memorial
de um mundo que recuperas
e colhes.
És presença em Pessoa,
companheiro do alquimista,
de Trás-os-Montes a Lavras
vais em um cavalgamento.
Quando em inexato espaço,
tornas-te ente e preso
no mar ou sótão, no halo ou cio,
no velejar onírico de teu presente
jamais ausente de teu passado.
Transfiguras o simplório, o intelecto
em festa, e em tua modernidade
guias-te pelo farol dos que antes de ti
cumpriram tantas míticas jornadas.
Tua invocação poética, teu talmude,
tua erudição inflexiva, tua apreensão de mestre –
tudo-nada amalgama Ser e Coisa.
Se reinventares, se doares, se ensinares,
apenas se, Linhares.


P.S.: Esse poema fiz em homenagem ao poeta Linhares Filho. Segundo o próprio, será publicado em seu próximo livro. Às vezes, gosto de brincar de ser poeta.