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segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

À minha namorada Maria Eduarda

O que haveria de ser sem a tua (sensa)tez, tua parte que em mim cabe tão perfeitamente, tua alma imensa, que nem algarobeira florida? O mundo precisa experimentar o que sinto por ti, que a frieza coisificou as relações, aos poucos transformadas em retratos semiestanques em redes antissociais. Não, não vou dividir-te; vou multiplicar-te, divulgar teu nome, tua coragem de morena cor-de-piçarra, tua esperança de sertaneja que se retira e não se apequena, tua voz gota-de-orvalho-na-invernia, teu couro rijo e teus gestos nobres. Agradeço-te a ti e aos infinitos deuses do acaso pela oportunidade de ter contigo o desabrocho de minhas horas. Felizes são os dias, porque somos namorados!
Meu Deus, 
Eu não tirei fotos nem postei coisa que fosse em redes sociais dos lugares pelos quais passei! 
Será que realmente estive  lá?
Eu apenas improvisei quando começou a apresentação!
Será que fiz por merecer o pertencimento desse instante?
Eu não apostei neste ou naquele nome para seja lá o que for!
Será que ainda tenho direito ao voto?
Eu trabalhei demais nos andaimes da educação deste país!
Será que fiz algo verdadeiramente relevante?

Hoje, no meio da Praça do Ferreira, entre o bucolismo da capital e a concupiscência do capital, vi uma moça sentada em uma cadeirinha discreta. Ela trazia consigo um anúncio que dizia: "Escuto histórias de graça!". Quer saber, fiquei muito feliz de ver essa cena! Alguém que se preocupa em ouvir outrem! Ela não era uma foto estanque em uma rede social, uma lápide sorridente neste cemitério de iniquidades onde todos são bonitos, politizados, poéticos, religiosos, amigos. Ela era real como o mundo que a rodeava sem lhe dar atenção. 

Meu Deus,
Eu não tirei fotos da moça que queria ouvir histórias de estranhos!
Será que ela, algum dia, existiu mesmo?

ORAÇÃO PELO NATAL


Para este Natal, como em oração, apenas desejo que seus dias sejam mansos e que a voz com que se bradam preconceitos e incompreensões seja silenciada; que as fomes dos seus sejam saciadas e que estes, já saciados, busquem saciar as fomes do mundo; que a justiça não se meça pelo escantilhão de suas cegueiras e que as opiniões alheias sejam respeitadas; que os números e as estatísticas deem lugar a rostos e que as lutas diárias sejam honestas; que se apontem as armas para o coração das desigualdades e que sua ceia seja farta ao ponto de se multiplicar e de amparar a todos; que seus votos de amor e de paz não se resumam a um único dia e que sua caridade não se torne mera publicidade; que os seus tenham nomes e que os momentos bons possam ser compartilhados, mas que alguns instantes se guardem tão somente nas retinas, como em um retrato íntimo; que se visitem os amigos e que se abracem os mais antigos, ainda que não mais estejam entre nós; que não se traiam as próprias convicções, mas que não se sacrifiquem aqueles que vivem de uma forma diferente; que a saúde prevaleça e que dos minutos emane um cheiro de terra molhada, manhãzinha cedo; que os votos de Natal se proclamem em cada dia do ano e que se reconheçam a paixão e a natividade dos amanheceres. 

A seguir, alguns trechos de livros considerados sagrados por muitos. Um deles é atribuído a Jesus; outro, a Maomé; outro, a Allan Kardec. Por bem, achei melhor não revelar autorias. O que é dito é fundamental. Compreendamos isso!

“Deus não muda o destino de um povo até que o povo mude o que tem na alma.”

“O homem é assim o árbitro constante de sua própria sorte. Ele pode aliviar o seu suplício ou prolongá-lo indefinidamente. Sua felicidade ou sua desgraça dependem da sua vontade de fazer o bem.”

“Com o critério com que julgardes, sereis julgados. E, com a medida com que tiverdes medido, vos medirão também.”

UMA PERGUNTA SEM RESPOSTA

Um texto pela vida e pela morte covarde de Dandara, espancada até a morte.

O que torna alguém um covarde? Humilhar, torturar e matar um ser humano da maneira mais brutal possível sob o olhar indulgente de uma câmera e divulgar tudo isso com a certeza de que, mais uma vez, a impunidade prevalecerá? Negar que existem pessoas intolerantes, preconceituosas, extremistas, desumanas ou simplesmente hipócritas o suficiente para não admitir que o mundo está erguendo muros (reais ou imaginários) cada vez mais asfixiantes entre as pessoas? Obrigar o outro a repudiar sua essência, sua personalidade e sua sexualidade apenas para satisfazer a cegueira doentia dos que insistem em fechar os olhos para o inevitável: as diversidades existem, queira você ou não? Calar-se diante das cenas de bestialidade gratuita promovidas por débeis mentais fantasiados de jovens? Achar graça com o vídeo em que uma pessoa inocente e indefesa apanha até morrer? Botar a culpa na vítima? Indignar-se por alguns minutos e, como num relance, esquecer toda a barbárie que existe nestes tempos de insanos e reacionários? Não se sentir parte desse homicídio, seja como cúmplice, seja como vítima? Por favor, me digam o que é covardia, que eu já não sei mais! No frigir dos ovos, somos todos covardes, de uma forma ou de outra!

UMA BREVE RESPOSTA


Como é notório, não sou de divulgar coisa que o valha por estas paragens virtuais. Sou de um tempo em que a vida apenas acontecia, sem necessidade de publicidade. E assim permaneço, procurando viver em um mundo de verdade e não em um ambiente em que todos são perfeitos, politizados, religiosos, conscientes e gargalhantes.
Agora, o fato de eu não escancarar meus minutos em redes sociais não significa que não tenho minhas visões acerca dos absurdos que vivenciamos nos últimos tempos. 
Sim, meu caro, não sou um alienado ou um covarde por não me permitir entrar em bate-bocas virtuais. 
É que não preciso mesmo cair nos anacronismos estúpidos de quem ainda não saiu dos anos 60 e estabelece dicotomias sem sentido, defendendo o sacrossanto Capitalismo das garras profanas e avermelhadas do Comunismo.
Não vou mesmo discutir com quem não respeita as diferenças necessárias à construção de nossa humanidade.
Não vou mesmo perder saliva desconstruindo seus mitos políticos infanto-juvenis. 
Não vou mesmo me incomodar com sua incapacidade cognitiva de perceber que a democracia, mesmo com todos os seus problemas, é necessária à sanidade de uma nação.
Não pretendo perder tempo contrariando as almas nobres as quais, acreditando cavalisticamente que têm seu lugar loteado no céu, defendem a brutalidade, a agressão e a morte como formas de justiça, sem a decência de analisar cada caso com o mínimo de racionalidade.
Aliás, posso sim manifestar minha opinião sobre tudo isso e muito mais! Mas tem um problema: Só o farei pessoalmente, na base do olho no olho, com educação, sem agressão, sem sobressaltos ou afetações típicos de quem é contrariado em redes sociais. 
Enquanto você estiver escondido sob esta carapuça virtual, não tem conversa. 
Quer debater, é no "face a face"! Caso não queira, continue mostrando o "feice" a quem interessar possa!

ENSAIO SOBRE A IMBECILIDADE


* Texto dedicado a todos os companheiros professores, em especial, aos de História, Filosofia e Sociologia, que, todos os dias, lançam luzes sobre as trevas que nos consomem!

Por início, conveniente é estabelecer um conceito de IMBECIL. Consoante os mais reconhecidos dicionários, IMBECIL é aquele ser de inteligência limitada, de juízo impreciso e vago, de pensamentos tolos, ou seja, um idiota de estirpe e pompa. 
Uma vez expostas essas acepções, enveredaremos pelas várias maneiras de reconhecer um IMBECIL. Para melhor percepção do fato, optamos por elencar os procederes do IMBECIL nos parágrafos em seguimento.
O IMBECIL é uma figura peculiar, sobretudo quando decide, sabe-se lá por qual razão, repercutir suas ideias. À guisa de exemplo, um perfeito IMBECIL, diante da notícia de uma professora agredida por um aluno (leia-se IMBECIL imberbe), consegue encontrar atenuantes ou mesmo, pasmem senhoras e senhores, justificativas para a barbárie praticada pelo agressor. Com isso, o IMBECIL garante, em sua tão inspiradora opinião, que a professora é merecedora de uma cara quebrada por ser esquerdista, por ter aplaudido quando o outro levou ovada ou por ser feminista. Isso nos demonstra, de modo quase empírico, o quão débil é o pensamento de um IMBECIL. Haveria explicação ou justificativa para tamanho ato de violência? Que espécie de mente chucra conceberia tal raciocínio? Esses fatos nos levam a acreditar que o IMBECIL, em suas divagações pseudointelectuais, desconhece a noção do ridículo. Antes que esqueçamos, obviamente um IMBECIL, ao ler este texto, irá avermelhar-se, propagandeando jamais ter dito que a professora merecia ser violentamente agredida. Dirá, por certo, que suas palavras foram distorcidas irresponsavelmente. Qual nada! Esquece-se o IMBECIL de que suas ignóbeis postagens dúbias não deixam dúvida de que, no mínimo, não houve sequer a intenção de se solidarizar com um ser humano violentado por um IMBECIL, o qual, mesmo sendo um aprendiz de imbecilidades, já havia inclusive agredido a própria mãe e esta, pelo que consta, não se mostrava esquerdista ou feminista. 
O IMBECIL, ademais, defende causas as mais absurdas. A saber: Ele acredita ser doutrinação tudo que tangencia seu pensamento limitado; é naturalmente racista, elitista e sexista; arrota moral com santinhos de bom dia e mensagens de autoajuda e, logo em seguida, compartilha vídeos em que mulheres são apresentadas como um pedaço de carne para o deleite dos lobos no grupo do aplicativo de mensagens; vomita que uma mulher de roupa curta não se dá o respeito e que estaria pedindo para ser estuprada (claro que esse pensamento não se aplica à filha do IMBECIL); vaticina que Filosofia, Sociologia e História são fábricas de "comunistas" (termo utilizado com muita frequência no palavreado do IMBECIL); visa transformar as relações sociopolíticas em uma briga selvagem de arquibancada, regurgitando em suas pouco repercutidas postagens dicotomias sem sentido, apoiando-se no discurso de defesa da pátria contra os malvados e sanguinários "comunas".
Outrossim, o verdadeiro IMBECIL não acha que deva existir o termo Feminicídio, afinal de contas, violência contra a mulher, pelo fato de SER MULHER, isso é apenas MIMIMI. Aliás, essa onomatopeia, a meu ver tipicamente IMBECIL, encaixa-se bem nos propósitos argumentativos de um IMBECIL, afinal de contas, todo e qualquer grupo histórica e socialmente secundarizado, invisibilizado e marginalizado deveria mesmo era continuar como sempre esteve: calado. 
Por fim, saliente-se que o IMBECIL adora mitologia. Mas não a clássica, evidentemente. Esta o IMBECIL até mesmo despreza. O IMBECIL de verdade costuma instituir mitos que façam repercutir seu discurso de ódio, que apregoem a pena de morte aplicada de forma sumária e irrestrita para todos os "bandidos" (só não vale se o bandido for, por exemplo, da família do IMBECIL), que alardeiem escolas sem partido, mesmo sabendo que isso pode criminalizar educadores pelos motivos mais fúteis. 
Haveria mais, certamente, para discutir sobre essa criatura estranha, o IMBECIL, que há muito vem ganhando espaço em redes virtualizadas, que bem servem aos ofícios da imbecilidade. Mas encerramos por aqui, não sem antes dizer que não respondo a IMBECIS por uma razão simples: ainda não sei bem como me comunicar com tais seres. Bem que eu poderia tentar, mas não faço a mínima questão.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Eu matei Belchior!


   De princípio, chegamos a acreditar que as coisas novas nos encontram tarde demais. Mas esse pensamento costuma surgir bem depois, quando qualquer arrebatamento não passa de um cheiro enjoativo de incenso vendido em feira. Na juventude, quase tudo nos enleva e nos transporta a um tempo de descobertas que se torna instigante e melancólico por ser tardio.
    E foi exatamente assim, inebriado por uma penumbra de insatisfação com tudo que me cercava, que ouvi, pela primeira vez, a canção "A palo seco", de Belchior. 
    Estava pelos dezessete anos, já no curso de Letras da Universidade Federal do Ceará. Procurava me encontrar em meio a tantas caras novas, tantos gritos contidos, tantas faces ainda por se construir como peças de um mosaico. Era noite, pois assim deveria ser, e acontecia uma espécie de sarau no bosque Moreira Campos, outra figura que vim a conhecer muito tardiamente. Entre estranheza e desassossego, dei de sentar em um fio de pedra no tento de apenas observar o movimento. Até que uma figura de cabelos compridos surge de assalto, saca um violão e começa a entoar uma canção que falava de desespero de uma maneira misericordiosa e, ao mesmo tempo, essencialmente convidativa à reflexão e à revolta. 
     Não resisti a aproximar-me do camarada e perguntar se aquela belíssima letra era de autoria dele. Nunca me esquecerei daquele riso murcho e daquela expressão reprovativa ao me responder lacônico: "Não! É Belchior!". A maneira como me respondeu fez-me corar de vergonha, afinal de contas eu sequer sabia do que ele estava falando. Belchior? Não me vinha nada com esse nome, nem mesmo o jardineiro amolgado do romance - uma lástima, por certo, para um estudante das literaturas!
     O nome Belchior e a letra da tal canção ainda martelariam por dias sem fim na minha já tão acabrunhada memória. Se fosse hoje, bastaria puxar do bolso um "smartphone" qualquer e voilá, habemus papam. Naquele tempo, tudo era mais difícil e burocrático. 
     Só depois de muito inquirir e vasculhar, acabei por descobrir que um amigo de faculdade tinha um disco chamado "Alucinação", do dito Belchior. Tratei logo de pedir emprestado. Mas ele não queria emprestar, sob a alegação de que o material era uma raridade. Que banho de água fria! 
      Quem sabe por se comover com minha cara de frustração diante de sua negativa, ele sugeriu algo que me soou como presente. Se eu lhe desse uma fita cassete, ele gravaria o disco para mim. Assim o fiz. No dia seguinte, estava eu com uma Basf novinha, pronta para ser gravada. Prometeu-me, então, que traria no dia seguinte. Demorou quase um mês. Quando finalmente decidiu me entregar a bendita fita, já nem sabia se deveria mesmo agradecer. Agradeci assim mesmo e tomei rumo.
     Em casa, na privacidade do quarto, peguei meu toca-fitas portátil e botei a fita para rodar. O que veio depois nem sei como explicar. Ouvia cada faixa umas três ou quatro vezes, isso para poder entender mesmo, deglutir as letras, anotá-las em um caderno, quase como se me pertencessem. Com o tempo, fui estabelecendo com essas canções um acordo de pertencimento. Elas eram minhas, ao passo que eu me entregava a elas mansamente, como se por medo de me extasiar em demasia e não conseguir mais encontrar o caminho de volta. 
      Ao passar dos dias, apreendi também o nome das canções. "Apenas um rapaz latino-americano", "velha roupa colorida", "Como nossos pais" - que já tinha ouvido na voz de Elis Regina. E a canção que me despertou para tudo isso: "A palo seco". Duro foi saber o que essa expressão significava. Mas tudo veio em seu momento certo. E fui, enfim, apresentado a Belchior. 
     Ele me acompanharia por meses a fio, quase num ritual diário, um mantra. Não saía de casa sem antes ouvir o que quer que fosse de Belchior. Outras canções chegaram, as preferidas se estabeleceram. Mas, de susto, ele partiu de minha vida. Letras e leituras diferentes tomaram conta de meus dias. Belchior passou a ser um nome eventual. Suas músicas se distanciaram de mim. Migraram para o Sul, quem sabe. No começo, ainda mandavam notícias da nau. Depois, deixaram de me procurar, muito por não obterem resposta de minha parte. Eram como um amigo distante, que só fazia sentido ou despertava algo quando se materializava, mas, se não, desaparecia fácil da lembrança. Belchior, aos poucos, foi esvanecendo da memória;
    Meu Deus, em que momento mesmo eu matei Belchior? Quem me fez fazer isso? O pacto que estabeleci com a maquinação renitente do dia a dia? A concupiscência mercantilista a que submeti boa parte de minha sensibilidade? A indefectível pressa que me fizera queimar os escritos que outrora me protegiam? 
     Penso que sou esse assassino. Matei Belchior. Hoje até teria o poder de ressuscitá-lo. A tecnologia me permitiria esse feito. Mesmo assim não mais dividi com ele as mesmas sensações de desamparo. Para reencontrá-lo de verdade, eu deveria morrer também, mas, por enquanto, falta-me a coragem necessária para tanto. Talvez eu morra amanhã, só para experimentar mais uma vez o corte cego da primeira navalhada.