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sábado, 24 de novembro de 2012

Síntese



Quantos anos? Quem sabe?
Quantas horas sinuosas, movediças;
Quantas faces quebradiças,
Quantos pontos emergindo do que é passível de ser!
Quanta aptidão para sentir...
Quantos se encontrarão pelos prolongamentos do que se oprime?
Quanta simulação!
Quanta síntese de mim em ti.







domingo, 18 de novembro de 2012

Um corpo vestido de asfalto


         Por uma viela escura, recém-asfaltada, sentaram para descansar. Ele, desenhado por uma bermuda e mais nada, ossos manchados, as canelas como dois tocos fincados na calçada; dobrava-se sobre si mesmo, contorcia-se para buscar uma posição que deixasse as costas menos queixosas da parede áspera. Ela, escondida sob o lençol encardido, catava algo das unhas dos pés; passava os dedos pelos cabelos engrenhados e lavava-os com saliva, cultivando o que sobrou da vaidade de fêmea.
          Mais algumas latas ou garrafas, e encheriam o carrinho. 
       Não havia palavra entre eles. Passavam os dias na lida de catadores, dividindo lixo com outros de mesma sorte. Sequer se conheciam. Encontravam-se por acaso, separavam-se e, como premeditassem, novamente se tinham lado a lado. 
         Com o tempo, firmaram uma silenciosa parceria. Enquanto ele puxava a carroça, cabia a ela investigar o lixo, catar latinhas pelos bares, selecionar o que poderia ou não servir. Por necessidade, desenvolveram formas peculiares de comunicação, entre gesticulações e grunhidos. Aprenderam, pois, como identificar as necessidades que se permutavam entre eles, embora a fome e o cansaço quase sempre sobreviessem concomitantes, o que tornava a convivência mais penosa.   
          O asfalto novo fervia, chegando a estalar vez em quando. Ele até cochilou por alguns minutos, mas o hálito fétido de um esgoto próximo despertou-o repentinamente. Com os olhos semicerrados ainda, não compreendeu o vulto que se erguia à sua frente. Esfregou as mãos com força no rosto, como se precisasse urgentemente acordar de um sono profundo. O que sucedeu dali por diante não se explicaria pelo vazio que o oprimia desde molecote, tampouco pela torpor de uma vida de miséria e lixo. A mulher com quem involuntariamente se propusera dividir os desassossegos agora aparecia nua e extasiada, como em um transe ou algum tipo de paranoia. 
         Parecia convidá-lo para rodar e sentir o escaldo na palma dos pés em contato com o betume. Ele preferiu não esboçar reação, não cria no que os olhos ainda riscados de remelas teimavam em revelar. Uma criatura esquálida pulando e contorcendo-se, abrindo e fechando a boca vorazmente, sacudindo com força os braços, que rebentavam com fragor nas costas ossudas, produzindo um som como o de um chicote; pressionava a si própria contra as paredes, curvava-se de maneira a enfiar a cabeça entre as pernas. Em meio a tantos movimentos lancinantes, o que se podia fazer a não ser esperar o pior. Ele pensou em dar-lhe na cabeça com uma pedra, mas desistiu. Esperaria mais um pouco, o tempo que fosse preciso, não faria mal a ela, não sem motivo; tudo que via era uma mulher em seu estado mais bruto, sem amarras, desfrutando de tudo que lhe fora negado. O que via era consentimento, nada além disso.
          Como cansasse, estancou de repente, estirando-se no asfalto. Emitia sons delicados, a lembrar o ronronar de um gato. Mesmo no chão, fazia movimentos sinuosos, talvez para testar os instintos do companheiro, que até então se contentava em observar. Foi quando ela parou definitivamente. Havia movimento em seu peito, mas os arroubos cessaram.
           Ele resolveu averiguar. Caminhou devagar. O corpo magro, cor da noite sem estrelas, estirado no asfalto escuro e reluzente, induzia-o a um pensamento lascivo. Os olhos dela fechados, pálpebras ajuntadas com firmeza, como se sofresse; curvou-se sobre ela, apanhou-a nos braços e trouxe-a para a calçada. Achou-a morna. Em seguida, cobriu-a e vigiou. Até o sol despontar, velou o sono da única companheira que tivera na vida. Quando ela despertou, seguiram a catar lixo, sem dizer palavra, sem desvelo e sem cansaço.
             
       
          

indecente língua, coloquializadamente 
multilinguística,
anacoluto pela falência dos órgãos
fonadores; ai sintaticoração,
bate algo ou em alguém, 
transitiva idade de sofrer em vão,
adverbializando o que não é circunstante,
blagues, blogs, busto inundado
de clichês abundantes,
unipessoalidade de cada um,
ambiguidade dependurada
nos seios oblíquos, sujeitos reflexivos
e belicosos, dística analepse:
fêmea em frenesi, frêmito furioso
de ferocidade;
ainda alcanço teu aliterar!

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Criogenia


          Não faz muito tempo, ou que faça, que não se detém em ponteiros o dia das descobertas, que não importa se o tempo teima existir, ou não, entre os acontecimentos; por certo, nos arcabouços da memória, não faz muito tempo que encontrei e perdi as razões as mais intrínsecas possíveis para crer em um futuro bom, um amanhã promissor, fecundo, como vésperas de aniversário, como bodas de qualquer coisa, como celebração por estar-se junto, simplesmente assim, lado a lado, comemorando a primeira semana que inauguraria uma vida inteira.
           E não seria a voz o instrumento maior do encantamento, ainda que soasse familiar, que invadisse os poros com a intimidade do colo materno, o seio encantado, eivado de vida, o néctar provinha dessa voz melodiosa, sem cântico, sem celebração, apenas a voz a espantar os pensamentos mais simplórios, até deu de esquecer o entupimento das artérias, o supermercado e as famílias insones que por ali circulam, as pontes  que se jogam das vidas alheias, não seria essa mesma voz que me condenaria a mim mesmo, mais ninguém. 
           Ainda sorver o corpo pálido, raríssimos pelos, contar-lhe os poros, um a um, e apalpá-los, senti-los agudos como estacas, viciosos, pequenas bolsas de ar daquelas embalagens plásticas, e uma alvura enternecedora, olhos por toda parte, as curvas miram arredores, desprezam passantes, insegura é essa morada, não para a proprietária, mas para os condôminos, os que nela amparam-se momentaneamente, os que partem dela para outras moradas, há vãos ali jamais ocupados, empestados de ansiedade, intensamente carregados de um algo confuso e disperso, como na incerteza do que se possa restituir. 
       Se não os olhos, o olhar de esquina, o jeito dobradiço de correr vista sobre os veios menos interessantes, as cavidades tão pouco evidentes, pomba acastanhada de voo raso, perscrutando as fontes, invasores é o que são, fontes inesgotáveis de indagações a confundir o interpelado, mansos quando se entregam à dor, longos como dedos, íntimos quais as pegadas que a maré poupa, levemente aquosos, não pela lágrima, que lhes é natural, senão por sua natureza especular, que me vi nascer e morrer em suas águas medicinais.
            Reservaria uma noite para palavras que lhe descrevessem o ventre, as mãos, os dentes, as íntimas partes, desde que as houvesse em segredo, em perfeito estado de hibernação, criogenia, que assim é o que mantivemos e não mais nos ampara, um algo que teima em não secar, mesmo nas estações mais estiosas, mesmo no assédio do esquecimento. 
              Se resolver dormir, que o faça serenamente: os erros cometidos humanizaram-te a ponto de resgatá-la de um profundo estado de torpor. Que as noites restantes recuperem-nos as forças e as auroras desmintam sonhos e lancem luzes sobre as dores, cauterizando-as. 
          
             

sexta-feira, 5 de outubro de 2012


Prefiro-te assim, inexistente,
guarnecida por metros e metros
de um sentimento farpado,
cujo padrão aferi com palmos 
furiosos e desproporcionais.

Prefiro-te assim, indelével,
marouço invasor iludindo rotinas,
baixio nas costas marítimas,
faixa de mato que escolho cuidar,
tolher sem a menor comiseração.

Prefiro-te assim, distraída,
concebida na mornidão de uma manhã
sôfrega e intrusa, a luz a penetrar
a pele confusa por tanta ira
estagnada nos igarapés da descrença.

Prefiro-te assim, paciente,
à espreita de um momento fixado
que altere o estado das coisas,
que deslize, feito saudade,
pelos últimos resfôlegos do peito errante. 

Palavras ainda existem.
O que não encontro são as familiares alpercatas,
os indícios de movimento pelos corredores,
a grisalha partitura, a voz.

Palavras ainda insistem.
Faltam-me as horas leves do recomeço,
as cordas do violão sem ferimentos,
o marasmo das fantasias vãs, o silêncio.

Palavras ainda escorrem.
Sombras são os entes de amanhã,
a matéria que extingue a aflição dos ossos,
a carne viva dos porta-retratos, a memória.

Palavras ainda invadem.
O espelho é a antiga sinuosidade do corpo,
a alvura dos passos na calçada alta,
a leva de reminiscências sem data e jornal, a crença.

domingo, 9 de setembro de 2012

maktub


Não lembrar não é o mesmo que esquecer.
Esquecer exige angústia,
horas a fio de inanição puríssima,
de esgotamentos nervosos,
de clausuras nos mais infaustos porões.
Esquecer exige mágoa,
um ressentimento incontido,
algumas lágrimas por passatempo,
quiçá um lastro de desespero.
Agora, em alerta fiquemos todos,
que ao mínimo perfume coincidente,
ao mero passo por ruas antes expugnadas em mãos entrelaçadas,
às indeléveis suavidades do lençol manchado de memórias,
o olhar transbordará e a vida recomeçará,
sem pudores ou crenças,
que os deuses alimentam-se dos arrependimentos
e dos consentimentos,
e uma tenra mágica iluminará o que se torna azul
e o tempo esgotará suas artes,
e o que se punha gravado em pedras,
há tempos,
finalmente se realizará,
e os amores de todos os homens
ressuscitarão.
Algo nos espera pelos arcos da existência.
Preferível não lembrar.
Não é o mesmo que esquecer.