Eliza era universitária. Depois de muito penar, finalmente conseguira a tão sonhada vaga em uma universidade pública. Aproveitara o sistema de cotas. Com o início do curso, a velha dificuldade: não conseguia acompanhar o ritmo frenético das aulas. O olhar inquiridor dos colegas de sala parecia denunciar que ela era mais um desses cotistas. Os que conseguiram a vaga por meio das cotas andavam sempre juntos, como que se protegendo. Com o tempo, percebendo que os cotistas precisariam de acompanhamento especial, os diretores dos cursos decidiram criar turmas exclusivas para eles. Não tardou e essa separação impregnou outros setores do campus. Construíram banheiros exclusivos para os cotistas. No refeitório, setores eram reservados para os cotistas. Chegou-se ao ponto de construir-se um enorme muro, atravessando o campus, para evitar que os cotistas mantivessem contato com os outros, pois, segundo alguns teóricos, havia razões científicas para acreditar que os não-cotistas seriam uma raça superior. Contrataram seguranças, deram-lhes armas e ordens expressas para atirar em qualquer um que se atrevesse a burlar as normas do muro. Aos poucos, esse muro, voraz e frio como qualquer outro muro, estendeu sua sinuosidade para fora dos campi. Eliza e outros passaram a ser identificados por um código de barras tatuado no pulso direito. Não havia mais o que fazer. E pensar que tudo isso poderia ser evitado com investimento maciço na educação básica pública. Agora é tarde.
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Canção para uma ausência
canção de alvo ventre,
espirais douradas,
tenra pele, tez de outono,
estepe a perder-se de vista.
alongada como o tempo
ou o espelho; existe algo de mel
a escorrer dos teus olhos:
à distância, vê-se uma luz viva.
a frialdade é tua ausência
assinalada a ferros na retina
que busca como quem tateia:
a saudade é áspera.
compuseste um estribilho,
Debussy, Clair de Lune;
claves e teus dedos
e um pentagrama em mim.
assimetria
clamaria,
dia,
companhia,
alegria
quereria,
iguaria,
afrontaria,
judiaria.
calmaria
obstruiria,
alvenaria,
minoria,
alegoria,
assimetria.
terça-feira, 14 de agosto de 2012
brotei de ti, mirrado que nem passarinho;
de tuas mãos zelosas, sorvi chuva e sol;
de menino, teu vulto guiava-me, feito oração;
descobri o ventre e um guia, talvez nem tanto imberbe;
chegou a malfadada primavera,
e, com ela, a vontade de alçar voo.
tomei distância e disparei, bala arredia;
sequer um susto, um sopro que fosse,
um grito distante que me fizesse olhar para trás.
vejo-me sem semente, sem pólen,
sem semeio,
e a carne que plantaste inda vive
como paga.
segunda-feira, 30 de julho de 2012
Quase ainda
Quase tudo ainda é pleno;
Quase chuva ainda é sereno;
Quase abraço ainda é aceno;
Quase verso ainda é cosseno;
Quase amor é solidão.
Quase noite ainda é dia;
Quase ponte, moradia;
Quase irmão, bastardia;
Quase vida, covardia;
Quase dor é coração.
Quase voz ainda é coral;
Quase dez, duodecimal;
Quase pranto, batismal;
Quase lavra, vindimal;
Quase ser, recordação.
Quase leito ainda é distância;
Quase encontro, circunstância;
Quase luta, consonância;
Quase grito, militância;
Quase sonho, ilusão.
Quase aqui ainda é degredo;
Quase verde, arvoredo;
Quase voo, passaredo;
Quase conto, desenredo;
Quase tempo é cerração.
Quase hora ainda é quando;
Quase sussurro, comando;
Quase mestre, educando;
Quase fim, iniciando;
Quase tela é distração.
Quase ela ainda sou eu;
Quase mito, Prometeu;
Quase pólen, androceu;
Quase queda, apogeu;
Quase frio é floração.
Quase hora ainda é momento;
Quase tempo, firmamento;
Quase um, experimento;
Quase dois, amalgamento;
Quase três é discussão.
Quase espelho ainda é retrato;
Quase desespero é fato;
Quase desamor, contrato;
Quase passo, substrato;
Quase nada é distração.
quinta-feira, 19 de julho de 2012
Surrealismo
Se as passadas não fossem tão sem aprumo, a lembrar os cães de pernas amolecidas e dependuradas que rondavam a rodovia; se não arrastasse a carcaça como se quisesse, a todo custo, obrigá-la a seguir pelo acostamento aferventado pelo pino do meio-dia; se não alegasse conversar com as gentes mortas do lugar, se não tecesse longas palestras com as pedras e os postes; se nada disso distraísse, Faustino por certo seria um dos convivas mais respeitados no lugar por onde se abancava.
Filho de um ex-vereador, desde molecote manifestava intenções de correr mundo, conhecer outros países, ser gente de verdade, como dizia sua mãe, D. Generosa, que Deus a tenha em bom espaço. Futuro embaixador, diplomata de primeira linha, era o que o pai previa para o pequeno Faustino, menino curioso das rotas globais, dos idiomas, das capitais. Nas reuniões familiares, o pai, menos para entreter, mais para gabar-se do filho promissor, convocava Faustino e desafiava qualquer um a ventilar o nome de um país para que o menino, de pronto, devolvesse a capital. Síria. Damasco. Noruega. Oslo. Canadá. Ottawa.
O pai, pesado de orgulho, escanchava-se na poltrona de couro, regalado por sua promitente cria.
Faustino interessava-se cada vez mais nos estudos. Prepara-se vorazmente para as provas do Instituto Rio Branco. Finalmente poderia conhecer todos aqueles países de cujas capitais utilizava-se para impressionar as pessoas. Rapaz de ouro. Filho assim não se pensa mais em ter nos dias de hoje. Que bênção. Que dádiva. Não namora. Há quem diga que não gosta de mulher. Puro despeito de quem não pôs no mundo criatura tão abençoada.
Foi pelos dezessete, quase dezoito, que começou a ter as primeiras visões. Eram como vultos, borrões do tamanho de um ente esgueirando-se pelas paredes. De princípio, ignorava, acreditando ser fruto do cansaço por tantas horas de estudo. Mas as aparições ficaram cada vez mais frequentes. Chegavam a tomar formas, traços familiares, como no dia em que jurou ter visto o finado Chico da Boa Vista sentado no alpendre, tomando cachaça e mostrando o único dente que jazia na boca.
Não deu muito tempo e os pais perceberam a aflição de Faustino. Não queria mais estudar até tarde da noite, como tinha por hábito. Passou a acender velas por toda a casa. Prostrava-se no meio da sala para rezar, e rezava com vigor, como se a própria existência dependesse daquilo. Aos berros, confessava-se a alguém que ninguém conseguia ver, a não ser Faustino. Ele vê anjos, meu Deus, são os anjos de Nosso Senhor que visitam Faustino. D. Generosa tentava, em vão, conformar-se com tudo aquilo. O pai buscava soluções mais práticas: psiquiatras, umbandistas, exorcistas; nada parecia tirar das costas de Faustino o peso da insanidade.
É o que dá estudar demais. Enlouqueceu. Melhor internar.
Faustino foi levado para uma clínica especializada em distúrbios mentais. Lá, os vultos, até então individuais e, de certa forma, organizados, passaram a surgir aos montes, em expressões semelhantes às dos quadros surrealistas de que costumava achar graça por achar aquilo incompreensível demais.
Hipnotizado pelos remédios que lhe eram dados em doses homéricas, apenas observava o que se lhe apresentava: uma renitente desorganização de formas, sons, até mesmo odores.
Com o tempo, fora desenganado pelos médicos, que aconselharam aos pais que o mantivessem em casa, sob forte medicação, e que, em hipótese alguma, permitissem que ele saísse sem a tutela de algum responsável, pois isso poderia colocar a sua vida e, principalmente, a de terceiros em risco.
Assim foi feito. Faustino tornou-se homem feito quase sem ver direito a luz do sol, a não ser pelos veios luminosos que se lançavam das venezianas. No mais, trancavam-no no quarto por horas, que logo se transformaram em dias, meses. Mal ficou sabendo da morte de D. Generosa. Morreu de desgosto a pobre. Não é qualquer cristão que suporta uma cruz assim.
O pai vendera tudo que pôde para bancar o tratamento do filho. Em um final de tarde de domingo, depois de uns goles de zinebra e das lembranças de quando Faustino entretinha os parentes com sua memória aguçada, decidiu pôr fim a tudo aquilo, pendurando-se pelo pescoço nos punhos da rede.
Faustino, a partir dali, não possuía mais ninguém que interviesse por ele. O vizinhos, como se realizassem o mais nobre dos atos, livraram-no do quarto. Está livre. Pode ir. Quem vai dar de comer a ele? É de assustar alguém assim rondando pela vizinhança.
Sem o cuidado dos pais, pelos escorridos no corpo feito bicho sem dono, unhas salientes e repartidas, rosto grave escondido pela barba espessa; Faustino segue, saco de pancadas dos bêbados, alvo das chacotas dos moleques, motivos das orações das beatas mais antigas.
Final de tarde, corre para o mato e conversa com os vultos, que agora são como companheiros, tão incompreendidos quanto ele, tão precitos quanto ele, tão sem amigos e parentes; Faustino descobrira naquelas aparições o mesmo alento de quando os pais estavam vivos. Conta-lhes histórias, diz das viagens que nunca fizera. O céu avermelhado dobra-se para ouvir. As plantas espinhentas encolhem as unhas para não machucá-lo. O gato maracajá, o único da região, aparece só para rir das anedotas de Faustino. Ao lado, o pai, bonachão como sempre, orgulhoso de ver o filho angariando a atenção de todos. D. Generosa contabiliza anjos, que tudo aquilo só podia ser obra de Deus. Os vultos, alguns familiares, outros retorcidos, apenas recebem atentos as palestras de Faustino. O melhor momento é quando ele devolve as capitais. Austrália. Camberra. Não seria Sydney? Faustino ri como nos tempos de menino.
quarta-feira, 11 de julho de 2012
O surrealismo das infâncias (o mar e a chuva)
A pequena correu em direção ao mar, mergulharia se o pai tão prontamente não interviesse. A chuva morna caía indolente. Que horror essa menina, desatinada mar adentro. E a pobrinha apenas tentava justificar a inconsequência da maneira mais inocente possível. Está chovendo, está chovendo. Entraria na água para escapar da chuva? Pensamento sem lógica alguma, essa garotinha está cada vez mais avoada, na idade dela o Alvinho já dava de tramar algumas maliciazinhas.
As críticas advinham principalmente da avó materna. Criara onze filhos com o orgulho de, até aquela altura, não ter perdido um que fosse. Todos vivos e muito bem vivos, os mais velhos já com netos. E as palavras da avó repercutiam no grupo. Tios e primos cochichavam sem o devido zelo de ocultar os comentários. A coitadinha deve ser retardada. Os primos mais velhos contorciam a face e balbuciavam palavras disformes, como para representar a incapacidade mental da garotinha. Mesmo alguns que nada tinham a ver com a conversa davam de olho, apontavam, despendiam todas as piedades do mundo direcionadas à pobre criatura que, na concepção deles, não merecia um destino tão trágico. Afinal, era uma criança, que Deus tenha piedade. Quantos olhos desfigurariam a menina que tentou entrar no mar para escapar da chuva?
Ao perceber os olhares entre piedade e acusação lançados sobre a filha, o pai pegou a menina no colo e seguiu a caminhar calmamente em direção ao mar. A chuva apertava, e o vento fazia a areia bater com força no rosto, nas costas. A filha tem a quem puxar, é um louco, debaixo de um aguaceiro desses. Com os pés espumados das ondas que se estiravam, o pai pôs a pequena no chão, abaixou-se para que seus olhos tomassem os dela. Apenas sorriu, e ela entendeu que não era a única a acreditar em absurdos.
De mãos entrelaçadas, os dois caíram na água, que estava fria. Ouviam-se as gargalhadas ensandecidas daqueles loucos, pai e filha. Parecia divertido fugir da chuva mergulhando no mar. Os olhares, antes inquiridores, vagavam curiosos por aquele cenário de profunda alegria. Aos poucos, outros pais experimentariam levar seus filhos para o mar, fugindo da chuva, e perceberiam a alegria de estar junto e o querer bem necessário à convivência. Apenas a avó materna permaneceria na barraca, sozinha e abrigada da chuva. Alguns dariam de olho e apontariam a velha. A pobre bem que devia estar numa casa de repouso.
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