Amigos leitores que por aqui já passaram

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Receituário



Fechar a mente, senão entra mosca;
calar a alma, partitura tosca;
deixar o enredo misturar-se à roupa;
olhar de banda para não dar sopa;

Ser Natal de dia e carnaval à noite;
Fingir que é gente pra escapar do açoite;
Cair nas graças de quem te apedreja;
Saber que a vida, quando quer, pira e te despeja;

Acertar os ponteiros no céu de Dali;
Levar um tapa na cara de Mahatma Gandhi;
Gritar injúrias no ouvido direito de Bethoveen;
Dar um tiro em Bob Marley por negar One Love;

Bababarizar os filhos com marcas genéricas;
Injetar fast-food direto na artéria;
Chorar ao ver a corte do Maracatu passar;
Lembrar que o dia é hoje e que amanhã já não dá;

Fazer pazes com o espelho antes que ele se vingue;
Virar índio, ter um cão e batizar de Sting;
Magoar não por maldade, mas por estar na moda;
Entender que, mesmo morta, toda roda é roda;

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Sobre as primeiras vezes


          A primeira vez em que chorei ensinou-me a reciclar perdões, a abraçar os antigos medos como se fossem velhos amigos dispostos à vigília, a pagar todas as dívidas antes que se tornassem inimaginavelmente dolorosas; a primeira vez em que amei deu-me noção de como somos microscópicos diante da ausência, mesmo que cegamente nos agigantemos, crendo estar no outro o derradeiro encontro de todos os caminhos; a primeira vez em que feri revelou-me a proporção verdadeira de um eu esgotado de farpas e arroubos, disposto a esfacelar tudo que se diz espelho por nunca ter reconhecido o não necessário à sobrevivência; a primeira vez em que me afoguei alertou-me para os perigos de um mar há muito afastado das veleidades poéticas; a primeira vez em que morri deixou-me duvidoso sobre os benefícios de um possível retorno e uma nova morte, quiçá menos nobre, menos desejosa (dessa forma, como a desejaria?); a primeira vez em que abandonei arrancou de mim um resto de ânima, derramando-me sobre olhos sequiosos de retorno e vingança; a primeira vez em que resgatei trouxe-me as antigas formas, deformadas por defesa da memória, sem um olhar que sugira qualquer beleza, mas sempre de mãos famintas e pouco firmes; a primeira vez em que menti tornou-me animal instintivo, dotado de uma ancestral autopreservação; a primeira vez em que me entreguei causou-me asco, como soubesse ser caminho sem volta, como pressentisse a escravização em que me precipitaria; a primeira vez em que mirei a cria adociquei o futuro, maneirei a voz e elenquei todos os erros da infância para que se repetissem mansamente; a primeira vez em que escrevi angustiou-me, e a voz de nada valia, e o tempo contorceu-se, e os outros perderam a segurança do distanciamento; a primeira vez em que perdi meu pai confiou aos ponteiros a solene tarefa de cicatrizar o que sangrasse em jorro (haveria de sangrar por tempos a fio!); a primeira vez em que falhei desviou-me providencialmente da imortalidade; a primeira vez em que senti fome massacrou-me, como se antes a renúncia parecesse mais fecunda que a dor; a primeira vez em que me entorpeci incitou-me à verdade; a primeira vez em que pensei ter ressuscitado matou-me de novo; a primeira vez em que adormeci sonhou-me; a primeira vez em que sonhei adormeceu-me; a primeira vez em que criei asas caminhou; a primeira vez em que me arrancaram as pernas voou; a primeira vez em que doeu lembrou-me de todas as primeiras vezes de todas as coisas. 

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

lugar cerrado



os muros erguidos,
rijos como sonhos,
retêm-me a vista
por alguns instantes.

meus olhos distantes,
cansados de ver,
encontram um passado
ferido, sem asas.

não há mais palavra,
sequer pensamento:
apenas o muro
cinzento e voraz

devorando o tempo,
detendo desejos,
por pouco inocente,
como sonho antigo.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Tem nada não, sou nordestino


Sou nordestino, rosto de barro, mão calejada de lida e esperança. Tenho pés encarnados de piçarra, venho da taipa, do piso queimado, do banho de açude, do avermelhado da tarde, da ponte encoberta de tudo que é mar. Sou nordestino, de corpo franzino, coração e tronco de menino, arteiro, artista, ator; nos meus ombros, sustento o peso do mundo que insiste em negar meu nome, minha cultura, meu lugar. É que esse mesmo mundo só é mundo porque Deus pôs no mundo alguém como eu, que pudesse levar esse mundo para todo canto, cantando e sorrindo, que meu canto é para o mundo que me nega amparo. Sou nordestino, orgulho da caatinga, faminto de justiça, sedento de amparo, amante da Lua, filho do Sol, minha cabeça só não é maior que meu coração. E rio, e choro, e mais rio, que até choro, porque só choro de rir, pois não existe como rir de chorar. Sou nordestino, xique-xique, grosso, rude, espinhento qual mandacuru florado. Peço ao povo brasileiro que me entenda como irmão, mas, se não entender, arre égua, sou nordestino, tem nada não!

Quase receita


Reinvente os passos. Afaste-se das indiferenças, das amizades estanques, dos amores impossíveis. Sonhe menos, realize mais. Não acredite em propagandas de final de ano. Em todos os dias de sua vida, enfeite uma árvore com prenúncios de paz e prosperidade. Ame incondicionalmente alguém com quem não se mantenha qualquer vínculo genético. Invada o dia seguinte. Transborde. Deseje algo de bom para os que estão pelas calçadas, à espera de um milagre. Desligue a tevê. Conheça melhor seus vizinhos. Decore menos, aprenda mais. Descubra um sabor exótico. Espere ansiosamente alguém. Decepcione-se. Aprenda. Viaje. Acaricie seus pais. Dê de comer ao cachorro. Exponha-se menos. Não se esconda por frases de terceiros, vídeos apócrifos, fotografias de aluguel. Aceite-se. Amanhã pode ser domingo, se quiser que seja. Pegue tudo que se conquistou, subtraia o que ainda falta conquistar. Falta pouco. Saia da frente do computador. Abrace. Encante-se com os fogos. Estique a mão para alcançá-los. Caminhe descalço à beira-mar. Vez em quando, retorne. Veja o que há de bom no passado e transforme em presente. Queira. Todo dia pode ser réveillon. Quanto ainda falta para a sua felicidade?

O povo que vaiou o sol




Cearense é bicho traquinas! Ô povo moleque! Pois não é que há exatos 70 anos resolveram mandar vaia no sol, só de mal, porque o tal do astro-rei encasquetou de atrapalhar um diazinho colonial de chuva. E é assim mesmo. É na base da vaia, essa marca registrada de nossa cearensidade, que, de alguma forma, lidamos com esse mundo esculhambado que nos cerca. O mundo precisa conhecer nossa vaia e, a partir dela, reconhecer nossa cultura, nossa força e nossa irreverência. Em qualquer lugar que seja desse mundaréu de Deus, se houver um cearense, haverá a boa e velha mangação. Mas é mangar dos outros e de si mesmo, é saber que não tem nem graça rir sozinho. E ainda temos muito por vaiar. Políticos safados, traficantes de espíritos, oportunistas de plantão, todos esses merecem sonoras vaias. È nessa boa molecagem que conseguimos mostrar que estamos atentos. Aliás, pode crer que é de vera, cearense vive com a bituca do olho arregalada. Olho no gato, olho no peixe. E se frescar muito, tome vaia!

sábado, 21 de janeiro de 2012

Tanto samba

* Por brincadeira, compus um sambinha. Quem quiser musicar, habilite-se.

        Tanto samba nesse amor!
        Essa noite sem luar!
        Quanta vida por seguir!
        Pouco tempo pra ficar.
       
        Já é hora de partir!
        Não dá mais pra suportar!
        Já tentei me iludir,
        mas pra que acreditar?


        Vejo o dia amanhecer!
        Sol nasceu dentro de mim!
        Na metade dessa dor,
        resolvi falar de amor
        pra poder te esquecer.

        Vai ser bem melhor assim,
        sem chorar desilusão!
        Ainda há muito pra sentir,
        vou poupar meu coração.

        Essa noite já passou!
        Brilha a relva por saber
        que meu tempo enfim chegou,
        mas bem longe de você!
       
        Vejo o dia amanhecer!
        Sol nasceu dentro de mim!
        Na metade dessa dor,
        resolvi falar de amor
        pra poder te esquecer.