Amigos leitores que por aqui já passaram

sábado, 21 de janeiro de 2012

rhythmos


       
          E onde haveria de estar,
          senão encoberto, acorrentado à dor alheia,
          um tanto deserto, um pouco mar.
       
          Ali hei de despejar
          a palavra há muito desterrada (quebrantamento),
          entre amargo e aprazível.

          De bicos e olhos para o céu,
          qual passarinhos sem sustento,
          sem asa e ramada,

          acolherão o movimento
          pendular, mesmo que assim não queiram,
          mudos como as dores e o tempo. 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Sobre fazer amor e amizades


                 Quero viver das amizades que mantenho: não as que, de tão tridimensionais, tornam-se insossas, mas as que sejam palpáveis, porque amigo é para tocar, cheirar, abraçar, empurrar ladeira abaixo, puxar pelo braço, esbofetear. 
             Fazer amizade é como fazer amor com alguém. O encontro furtivo, a estranha capacidade de compreender os sentimentos e as reações do outro, as inesperadas revelações, as discussões devastadoras, a  entrega total e absoluta, quase filial. Refiro-me, é claro, às amizades verdadeiramente imprescindíveis. Alguns encontros que a vida teima em nos proporcionar são descartáveis, mas esses não merecem lembrança. Ser amigo é mais que simples esbarrões pelas calçadas, sejam elas reais ou virtuais. É um nascedouro. Uma esperança de que, apesar de tudo, ainda existem pessoas que, mesmo tão diferentes, despertam-nos a nítida impressão de estarmos diante de um espelho. É nos amigos que nos reconhecemos em essência. Com eles, somos permissivos, desbocados, inteligentes, estúpidos demais. E o melhor é que, mesmo cometendo o pior dos despautérios, a amizade nos guia pelas perigosas trilhas do perdão. 
              Quantos amigos podemos ter na vida? Se não fossem os computadores, três ou quatro, no máximo. Amigos que frequentem nosso quintal. Esse era o termômetro que meu pai utilizava para mensurar o grau de afeição com outrem. Aos estranhos, a área. Aos conhecidos, a sala. Aos parentes, a cozinha. Aos amigos, o quintal. E não é para qualquer um que abrimos as portas do nosso quintal. Agora, para atingir o tão almejado posto de amigo, o camarada tem que merecer. Como fazer? Simples. Apresente-se. Esteja à disposição. O segredo de uma boa amizade é estar sempre disponível. Às vezes, os amigos celebram, mas, em outros momentos, simplesmente acompanham até a venda, assopram ciscos do olho, tiram formigas da gola da camisa. As grandes amizades se alimentam desses pequenos gestos. 
               Amigos são insubstituíveis. Entanto, há quem diga que ninguém o é. Tolice.  Não percamos tempo acreditando nisso. Ninguém há de me substituir por uma razão simples: sou único. Quem haveria de ser igual a mim, com os mesmos tratos e trejeitos? Assim são as amizades. Em dados momentos, afastam-se de tal maneira, que chegam a quase sumir no horizonte. Mas é impossível substituí-los. Onde eles estarão agora? Que importa! Basta que eles estejam no mundo, é só. Em qualquer lugar que seja, nossos amigos estão prontos para nos amparar, desde o primeiro, até o último degrau. Sem eles, embora o caminho fosse o mesmo, não conseguiríamos prosseguir. É que nós, sem eles, jamais seríamos os mesmos. 

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

ANIVERSÁRIO



Ainda que os dias não houvesse
e que sequer um traço de neblina indicasse
tua presença morna, todas as manhãs, cândida!
Que enlouquecesse pela úlcera
sem incisão, apenas a dor latente da inexistência,
quase distração, falta de presença!
Mesmo sem o colo necessário,
a mão arteira de amigo prestes a dar bote na tristeza,
a imensa vontade de sê-lo, não por inveja,
mas por desejo de tê-lo em mim!
Que nada consentisse tamanha felicidade,
comemoraria tua existência, acalentado por saber
que um dia nasceste em minha vida
e deixaste sinal para que me reconhecessem;
trago na espádua a indelével cicatriz que me reúne a ti;
eis um ser em tua função, que me deste amizade em essência -
algo se manifesta e transborda:
meus dias são teu aniversário.















segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Sobre a alvura dos desejos


          A vida, vez em quando, surpreende-nos com encontros inesperados, desejados ou não, mas sempre providenciais para avivar, ou despertar, a ideia de que não se pode esperar que tudo ocorra de forma literal e segura. É nesse olhar oculto que me amparo. Há tempos, tento garantir passagem pelos andaimes da palavra escrita, sem muito zelo, é verdade, porém com bastante esforço e dedicação. Sou pretensioso o suficiente para acreditar que consigo assombrar os leitores com frases disformes ou comparações que, de tão íngremes, torna-se praticamente impossível abrigar-se nelas. Então, do mesmo lugar de onde partem as metáforas, irrompe o acaso, esse vão que se abre e traga todas as expectativas humanas. 
          Sinto profunda admiração por aqueles que se resignam e se deixam levar pelas dores que a vida lhes oferece. Minha carne é parca demais para isso. Pouco afeito a sofrimentos, deixo que os momentos ditem as normas, pois o humano que ainda insiste em nós depende da satisfação dos desejos momentâneos, não os que são trabalhados ao longo da vida ou os que se derramam em propagandas de supermercado, mas o desejo que ocorre de súbito, na distração das horas; se assim agimos, sair de casa torna-se uma aventura, longe das atitudes ritualescas dos funcionários ou das inglórias investidas dos pregadores. 
          Os seres sobrevivem pela esperança de que, um dia, satisfarão suas necessidades intrínsecas, deixando de lado pudores tolos que apenas adiam, impedindo de encontrar a semovente fonte dos prazeres mais caros e, por isso mesmo, mais profanos.
          Se, em um dia em que tudo estivesse estático, sem vida, sobreviesse a intenção de convidar alguém para sair. Entanto, não quem mereça o título de alguém por pura indeterminação do sujeito, mas alguém que fizesse diferença por razão qualquer. E se, depois de uma longa e afetuosa conversa, um olhar antigo sobrepujasse um último reparo de formalidade. E se, dali por diante, os corpos espelhassem o alvor de sorrisos há muito íntimos demais. E se, pela brancura sem inocência posta em toques de ousadia, não houvesse mais necessidade de guarida em ironias e descasos que apenas dissimulariam a real intenção dos corpos. E se não fosse um erro, mas uma oração. 
          Quisera colher dos dias sonhos tão doirados quantos os sereníssimos cabelos do desejo. 
          Falta ao mundo a ousadia de sorrir durante os atos mais primitivos, a necessidade de ouvir obscenidades enquanto o amor segue livre, sem amarras, sem a garantia do dia seguinte, mas pleno de vitalidade, amparado pelo instante que fertiliza. 
          O desejo, pois, detém todas as cores. Assim sendo, vejo-o branco por ser a junção de tudo que habita o espectro. Ilusão ou não, o que importa é que, um dia, experimentamos. Satisfeitos, revitalizamos nossa humanidade na leve impressão de que hoje já não somos mais os mesmos; e, por mais que tentemos disfarçar, algum descompasso de gestos denunciará que, em algum momento, fomos escravos do desejo. 

domingo, 1 de janeiro de 2012

Escansão do mar


De tão pequeno (menino),
encantei-me com esse mar,
desacatando o destino
de nunca mais regressar.

Fiz que não mais me importava,
dei p'ra buscar outro cais,
mas o farol me guiava,
mesmo distante demais.

E o que dizer da viagem
que eu quase sempre neguei
com medo da paisagem
que, por engano, criei.

Agora me entrego à sina
de descobrir o que em mim
arde, derrama e fascina,
mesmo tão perto do fim.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Feliz Ano Novo


          Noite de reveillon. Centenas de pessoas reunidas à beira-mar. Principia-se uma estridente contagem regressiva anunciante do ano novo.
          10. Um homem distante, renitente, desnudado pelo clarão dos fogos, gira em êxtase, desencontrando seus pares, sacolejando a garrafa de sidra, asprejando com o mundo vermelho e cinza que o comprimia, retomando as dores, o câncer, a quimioterapia, fugira do hospital por algumas horas, o senhor não pode beber, faça o que fizer mas nada de bebida, tolice, o mundo gira, os fogos inebriam, a vida desliza pela garganta suavemente, tem sabor de maçã, tem gosto de irmã, a mãe preocupada, e quando não foi?, os abraços, quem o abraçaria, está só, há muito o tempo o abandonou, eis o desafio, fazer as pazes com os ponteiros, danem-se, o mundo é uma girândola, a música, tons e mais tons, tudo se torna rápido demais, ele cai, e sorri, sorri por tudo que ainda sofreria, sorri pelo que resta, ninguém perceberia sua presença.
            9. A pequena perdera-se dos pais. Um instante para alguns cumprimentos, e a menina simplesmente desapareceu naquele mar branco de gente e areia. A pobrinha chorava. Pela primeira vez, experimentava o abandono. Não sabia o que fazer, estava pálida, derramava-se em desespero. Ninguém a percebia. O barulho ensurdecedor dos fogos abafava-lhe o choro. O vestidinho branco servia-lhe de amparo. Encolhia-se toda dentro dele. Estava só, perdida em um mundo de hienas gritando e rodopiando. O céu, quase sempre hospitaleiro para ela, recheava-se de luzes que hipnotizavam a multidão. Quem a notaria debaixo de tantas cores e formas? Ela chorava cada vez mais alto, tentando chamar a atenção de alguém. Em vão. Os fogos. A música alta. Os gritos. Ela preferiu silenciar. Acocorou-se. Mirou o mar. Que breu. Um homem com uma garrafa de sidra caiu ao seu lado. Todos celebravam. Apenas ela, uma chispa em meio ao fogaréu, teimava em sofrer. Decidiu esperar tudo acabar. Prendeu o choro e mirou as cores que distorciam o céu. Aquilo não seria para sempre.
            8. A primeira vez que passavam juntos um reveillon. Abraçavam-se com volúpia. Os dedos marcavam a pele. O cheiro forte dos perfumes, a camisa encharcada de suor, os clarões. Quero dizer algo muito importante. O hálito morno no ouvido. Você me ama? A resposta veio com os olhos e um gesto. Ficaria comigo, enfrentaria tudo? Novo gesto. Estou grávida. Melhor não ter ouvido. Exigiu confirmação com um ríspido movimento de cabeça. Estou grávida. De repente, não havia mais fogos estalando. O tempo de celebrar havia acabado. Não esboçou reação. Deixou-se estático, enquanto ela descobria o valor do silêncio. 
          7. O cãozinho desabou na carreira. O barulho dos fogos, das gentes entorpecidas, tudo era ensurdecedor, zunindo nos ouvidos do bicho, desafinando-lhe os sentidos. Se pudesse falar, certamente esbravejaria contra aquele mundo torpe de humanos sem direção. Tantas pernas por desviar, tantos pisões. Corria sem rumo, fugindo da iniquidade daqueles seres. Disparou pela avenida, sem notar a moto que o espalharia pelo asfalto. Mais um cão morto. O motoqueiro parou por um segundo para avaliar o cadáver, mas logo o clarão dos fogos chamou-lhe a atenção. Que noite linda, pensou. 
           6. Um homem delirava, teimava em mergulhar, queria chegar mais perto das cores, dos clarões. A família o desencorajava. Homem feito, deixe fazer. Mas ele bebeu, bebeu muito. Que seja, ficamos de olho. Ele foi, sob o olhar protetor dos seus. A água enregelava os ossos. Os fogos estavam próximos, esticou-se para apanhá-los. Descuidou-se. A família já não o encontrava em meio à escuridão das águas. Um dos irmãos tentou mergulhar. Escuro demais. Basta um para procurar. Vez em quando, um clarão. Nenhum movimento na água. Ele deve estar bem.
           5. A contagem proseguia. Um jovem, de rosto encoberto pelos cabelos lisos, destoava. Dentre tantos que festejavam em trajes tradicionais, ele surgiu de preto, como um oásis diante dos olhos cansados do mundo. Pôs-se estrategicamente diante do palco. Sacou de um revólver e deu dois tiros para cima. Nada. Todos em êxtase por causa dos fogos. Ele gritou. Enfiou o cano da arma na boca e disparou. Poucos notaram.
           4. O velho criava coragem para dizer a todos que iria fazer uma viagem. Sozinho. Não suportava mais o asilo, apesar de ser bem tratado. Sentia falta da liberdade. Vinha-lhe à memória os tempos do exército, as viagens, as condecorações, os aplausos orgulhosos dos filhos ainda molecotes. Sentia-se um fardo, algo a ser descartado. Não queria morrer assim. Papai, não beba, o senhor tem que ir cedo para casa. Casa? O que faz de um lugar qualquer nossa casa? Faltava-lhe o amparo familiar. Todos gostavam dele, mas sua presença aborrecia de alguma forma. Sentia-se uma espécie de cartão de visitas da morte. Ninguém quer um velho estorvado dentro de casa. Achou por bem não contar sobre a tal viagem. Apenas faria. Sorriu para todos. Deixou que a música e os fogos penetrassem seus ossos.
          3. Amigas de infância, inseparáveis, cúmplices. Dividiam os mais íntimos segredos. O primeiro beijo, a transa furtiva na festa, as brigas com as rivais da escola. Os fogos avermelhavam-se. Um abraço longo selou o compromisso de amizade eterna entre as duas. Uma delas tomou a iniciativa de um beijo. A outra esquivou-se enojada. Que foi? Melhor procurar meus pais, devem estar preocupados. E saiu, limpando dos lábios o gosto da amiga.
          2. O mestre de cerimônia mirava aquele mundo de gente. Não mais suportava tamanha mediocridade. Queria estar em casa, tomando conta de seus cachorros. Estava ali por obrigação. Precisava do dinheiro. Era um pessimista. Tanta celebração para nada. Mais fome, mais miséria, mais violência. É isso que comemoram? Pensou em dizer tudo isso no microfone. O dinheiro é bom. Melhor dar prosseguimento à contagem.
          1. Uma ligação. Não se ouve nada. Ele já estava fora de casa há um mês. Deixou a mulher grávida. O trabalho o obrigava a fazê-lo. Procurou um lugar mais calmo. Nada. Muito barulho, em todos os lugares. Correu para detrás do palco. Menos gente. Conseguiu ouvir alguma coisa. Sua mulher. Que tem ela? Sua mulher. A ligação interromia-se a todo instante. Que tem ela, pelo amor de Deus? Sua mulher deu à luz. Um menino. Sua cara. Ele não se conteve. Gritou. Pela primeira vez, sentiu a alegria de um ano novo.
           E quem ali estava chorou, sorriu e cantou. Era tempo celebrar a chegada de um novo ano.

domingo, 25 de dezembro de 2011

TRÁGICA ANEDOTA NATALINA


        Véspera de Natal. Sinal fechado. Trânsito caótico. Uma mulher no conforto de seu automóvel foi abordada por um menino. O olho do pequeno estirou-se. Nada de mais, senão pelo fato de o garotinho andrajoso arfar e latir, simulando um cão.
         - Que gracinha de cachorrinho! 
         - Moça, me dá um trocado de Natal?
         - Claro! Pegue...
         O menino já mirava outro carro, quando a mulher, sem resistir à curiosidade, indagou:
         - Por que a imitação de cachorro?
         - A moça tem cachorro?
         - Sim.
         - Quantas vezes ele come por dia?
         - Três.
         - E quando ele fica doente?
         - Levo ao veterinário imediatamente.
         - Ele dorme na rua?
         - Não, dorme em um colchãozinho térmico.
         - Quantas vezes a moça já bateu nele?
         - Nunca.
         - E a moça ainda pergunta por que eu quero ser cachorro!
       O menino sai correndo à cata de outro carro. Arfava e latia como nunca se viu. Satisfeita a curiosidade, a mulher cumpre seu destino. Toda criança, pensa ela, devia imitar cachorrinho. Fica bem mais fácil ganhar trocado. E ela se vê inundada pelo espírito de Natal.